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SÃO JOÃO RAIZ

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Publicado em Cultura, Destaques, Matérias
02jul

Quarentena News/Renato Cabral Ramos – 25/06/2020

No final de junho de 1988, eu e meu colega Walter Sérgio de Faria, o Waltão, percorríamos a região da Serra da Moeda, ao sul de Belo Horizonte, avaliando áreas para a exploração de rochas ornamentais. Havia me graduado em Geologia na Uerj há pouco mais de três meses e adquiria experiência profissional da melhor forma possível: no campo.

Pernoitamos dois dias na pequena cidade de Moeda, antigo arraial de mineração de ouro do século XVIII onde, nas redondezas, existiu até 1731 uma fundição clandestina para a fabricação de moedas de ouro, chamada de Casa de Moeda Falsa do Paraopeba. Daí o nome Serra da Moeda…

Almoçávamos na casa de uma senhora, perto da antiga estação ferroviária de Moeda, construída em 1919, e que atualmente abriga a biblioteca pública municipal. Comida caseira, feita no fogão à lenha na banha de porco, “fitless”, deliciosa. A proprietária era uma mulher idosa, bem para lá dos 80 anos, preta e com um sotaque diferente. No primeiro almoço, estranhei que o feijão servido era preto, visto que nas Minas Gerais o normal é o feijão marrom. Perguntei-a de onde vinha e ela me disse, com um jeito mineiro de muitas décadas, que era carioca-da-gema e havia se instalado por lá nos anos 1920, recém-casada com o chefe da estação de trem.

Minha conterrânea havia mantido por 70 anos seu gosto pelo pretinho, naquele mundo de feijão marrom! Chegávamos para almoçar pouco antes do meio-dia e, mecanicamente, ela colocava sobre a mesa uma garrafa de pinga local, branquinha e sem rótulo, para abrir o apetite. Em um dos almoços, como a comida demorou, eu e Waltão enxugamos uma garrafa. Com o apetite (e a consciência) mais do que aberto, devoramos nossa lauta refeição e, pela tarde, percorremos de carro, completamente bêbados, as quebradas rurais moedenses. Deve ter sido divertido; não me lembro de muita coisa…

No dia seguinte, 24 de junho de 1988, passando por um dos pequenos povoados daquele município, paramos para beber algo (não alcoólico!) e vimos que se preparava no largo gramado, em frente à antiga capela colonial, um arraial de São João. Curiosos, nos entrosamos com as pessoas que arrumavam as barraquinhas e, sob o interesse geral naqueles jovens “doutores” forasteiros, fomos convidados para participar da festa mais a noite.

Seguimos o trabalho pela tarde, percorrendo as estradas de terra atrás dos locais de rochas ornamentais que nos haviam sido indicados, mas só pensávamos no arraial. Com a tarde caindo, fomos para Moeda tomar um banho e colocar a melhor roupa possível naquelas circunstâncias de trabalho de campo, e partimos para o arraial, que já concentrava gente naquele início de noite. Tudo coloridamente embandeirado; estandarte de São João no pau pintado; capela aberta e enfeitada; luz feérica sobre e dentro das barraquinhas de quitutes e bebidas; música junina na caixa de som ligada à vitrola e, mais tarde, ao vivo quando começou a quadrilha e o casamento com o padre de verdade; uma linda queima de fogos noite adentro. Àquela altura, fazia muito frio naquelas altitudes e o quentão descia macio, aquecendo da cabeça aos pés. Tarde da noite, éramos quase parentes daquela gente boa, já tendo mais que vencido qualquer desconfiança mineira. Retornamos de madrugada para a sede municipal, um frio de rachar, novamente bêbados e muito felizes.

Nunca mais tive uma noite de São João nesse nível. Comparáveis apenas às festas juninas de infância, nos anos 1970, em Nogueira, e às quermesses da adolescência em Pedro do Rio, nos anos 1980. Minha mãe, Margarida, ainda manteve por muitos anos a tradição junina em grandes festas na nossa casa semi-rural, também em Petrópolis. Mas o arraial em Moeda nunca me saiu da cabeça.

A tradição junina, parte imprescindível da identidade cultural brasileira, vem agonizando no Sudeste do país, especialmente no Estado do Rio de Janeiro, em parte fruto do crescimento avassalador do neopentecostalismo evangélico entre a população, que passa a rejeitar formas de expressão não-alinhadas às suas crenças e aquilo que, segundo seus pastores, “não é de Deus”. Da mesma forma que se dá com os festejos de “Cosme e Damião”, a Folia de Reis e outras festividades tradicionais, os arraiais juninos vêm minguando no rastro da devastação de toda uma cultura popular, cujos sintomas se expressaram, por exemplo, na retumbante votação obtida por Bolsonaro em grande parte do país, à exceção do Nordeste, onde persiste e resiste uma população com forte identidade cultural, ciosa de sua música, de suas festas, de sua cultura.

A partir do golpe de 1964, a ditadura empresarial-militar conseguiu amortecer por largos anos o Carnaval de Rua em nossa cidade, preocupada com as aglomerações incontroláveis e a liberdade que emana das ruas. Essa manifestação cultural, no entanto, reapareceu com toda a força a partir do final dos anos 1980 e se espalhou como rastilho de pólvora. As festas juninas no Rio de Janeiro, desde os anos 1930, sempre estiveram associadas ao espírito carnavalesco, fenômeno expresso pelas imortais marchinhas juninas de Lamartine Babo e Assis Valente, cantadas por Carmen Miranda e Mário Reis, tais como “Acorda São João”, “Isto é lá com Santo Antônio” e “Chegou a hora da fogueira”.

Quem sabe dessa fonte não vem a reação e o resgate do nosso São João?

Viva São João Xangô Menino! Viva a Cltura Popular!

Renato Rodriguez Cabral Ramos é geólogo, professor do Museu Nacional da UFRJ, presidente da Associação Profissional dos Geólogos do RJ e colaborador do Quarentena News (http://facebook.com/quarentenanews1).

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