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Escolas e pais: um novo paradigma da relação

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13set

Marco Antonio Vieira Souto
Publicitário
Diretor da Vieira Souto Comunicação

Ninguém tem dúvidas do estado crítico da educação em todos os níveis, em todos os estados do Brasil. Tirando uma ou outra honrosa exceção, a situação geral é dramática. Políticos, técnicos, cientistas sociais, educadores, pensadores e demais segmentos da sociedade civil concordam que é preciso fazer alguma coisa, urgente, grandiosa, transformadora. Afinal, virá da educação o novo país, a redenção do atraso, o fim de muitos problemas estruturais.

Mas aí acaba a unidade de pensamento.

Soluções mágicas surgem e desaparecem na mesma velocidade. Projetos, experiências, estudos se sucedem e na prática o que vemos é uma escola ainda no século XIX.

O conteúdo previsto para cada série precisa ser passado para que depois se possa testar se foi apreendido pelos alunos, o que os habilitará a galgar os degraus de sua formação pedagógica.

Os pais, formados nesta escola e modelo de aprendizado, ou melhor, modelo educacional, esperam que seus filhos estejam aptos a serem aprovados nos vestibulinhos, no Enem, no SAEB, no SAEP e nos vestibulares.

E cobram da escola que os prepare da melhor maneira possível para tal cenário.

Desta forma o que os pais vêem como valor na escola é preparar seus filhos para determinados momentos de aferição e seleção.

A pergunta que surge de imediato é que papel cabe aos pais neste processo.

No mundo ideal os pais deveriam apenas acompanhar a evolução do aprendizado de seus filhos, interferindo quando necessário, auxiliando em alguns momentos, incentivando e cobrando em outros.

Mas o que acontece quando o sentimento reinante entre os jovens em relação à escola é de absoluto desinteresse?

Que tarefa cabe aos pais?

Obviamente, muito mais que apenas acompanhar e intervir eventualmente. Caberá aos pais, neste modelo atual, estar muito mais presente e atuante como elemento mobilizador e motivador do aprendizado, muitas vezes apontando como valor para o esforço do filho objetivos meramente materiais, numa relação de troca e não de sedução.

Mas haverá um outro caminho? Qual dentre as centenas de projetos para a educação deveria ser adotado como padrão para reverter a situação atual? Como descobrir a melhor solução?

A resposta a esta indagação irá depender de uma série de outras variáveis. Contudo, um ponto, que não foi citado em momento algum no PAC da Educação, não pode ser desprezado como primeiro passo para qualquer mudança pretendida.

Comunicação.

Em todo o noticiário envolvendo o Pac da Educação, nenhuma linha sequer sobre o papel da comunicação na revolução educacional pretendida.

Não estamos falando, obviamente, da comunicação governamental, dando conta dos avanços conquistados, dos projetos em curso, dos principais cases de sucesso. Também isso, mas, principalmente, comunicação como ferramenta de gestão.

Gestão do relacionamento entre os diversos públicos.

Antes de mais nada entre os próprios educadores de cada unidade escolar.

Não importa que modelo venha a ser adotado, o que teremos pela frente sempre será um processo de mudança. E como tal, precisa ser gerenciado e se apoiar fortemente na comunicação para ter êxito.

Nos processos de mudança a estrutura é via de regra semelhante. Propor uma mudança significa tirar da zona de conforto, mexer no status quo, trazer insegurança para uma parcela dos envolvidos ou afetados pela mudança pretendida.

Desta parcela de público surge o discurso de resistência, aberto ou velado. É preciso conhecê-lo, reconhecê-lo e trabalhar a comunicação a partir deste conhecimento.

Mas antes de mais nada é preciso que as duas pontas do processo fiquem claras, entendidas e não rejeitadas por todos os envolvidos. O que são o problema e o objetivo pretendido deve ser muito bem comunicado. Se possível, em especial o objetivo, construí-los em conjunto de forma realista.

Os sonhos alimentam as almas e os corações, mas podem ser fatais para projetos de mudança. Afinal o discurso de resistência se alimenta dos pequenos entraves e dificuldades naturais em qualquer processo semelhante.

Conhecidos e reconhecidos o problema, a necessidade de mudança e onde se pretende

chegar, é preciso construir o caminho. Disseminar e explicar o processo, as etapas, as demandas, o que se espera de cada um, como os resultados parciais serão divulgados são elementos críticos para o sucesso do projeto.

Esta metodologia de gestão da comunicação do processo de mudança, que se inicia com o grupo interno de educadores e gestores das unidades de ensino, deverá se desdobrar para todos os segmentos.

Todos os envolvidos deverão, de alguma forma, estar comprometidos com os resultados e com as diversas etapas pretendidas.

Estabelece-se assim, mais que um programa de relacionamento. Estabelece-se um processo de envolvimento e compromisso, tendo como base a comunicação contínua.

Neste sentido professores, educadores, pais, educandos, amigos passam de simples usuários a construtores de um novo paradigma para a educação. E todos, cada um a seu modo, se tornam agentes de comunicação.

Qual o papel do pai nesta nova relação?

Provavelmente, ainda maior que na situação atual. Mas caberá a ele o seu papel de direito e não uma tentativa de substituir o que a escola não oferece em termos de mobilização e envolvimento.

E aí voltamos a uma das questões-chave: por que a escola não envolve? Por que o aprendizado não é desejado e sim imposto?

Para responder esta pergunta, precisamos nos voltar para os nossos processos de escolha. Como escolhemos o jornal que lemos diariamente? Como escolhemos o programa na tv? Ou a marca de cerveja? Ou o carro que vamos comprar? Ou a religião que adotamos? Como escolhemos aquilo que podemos escolher por vontade própria?

Fomos informados ou persuadidos? Foi fruto apenas do conteúdo ou de algum envolvimento adicional? Como atribuímos valor a tudo que nos cerca?

A “matéria” na escola é informação ou tem algum envolvimento adicional? O que é valor para o aluno?

O que acontece quando este jovem imerso numa sociedade midiática, universal, multitarefa, multidirecional, multidimensional, com um celular que fala para todo mundo, baixa arquivos da via web, o conecta com 30 pessoas ao mesmo tempo, toca música, fotografa, filma e envia tudo isso para onde ele quiser, entra numa escola tradicional?

Esta escola que o vai preparar para os exames classificatórios, que os pais aguardam com tanta ansiedade, faz o quê para seduzir este jovem?

O discurso de resistência neste momento inicia sua campanha em defesa do educador e da escola tradicionais. A escola é um local de aprendizado e não de espetáculo. O educador não tem que dar show, não tem que ser um comunicador. Ele precisa saber passar para seus alunos o conteúdo das disciplinas que lhes cabe.

Mas afinal, queremos ou não mudar a situação crítica na qual nos encontramos? Se sim, como mostramos na estruturação básica do processo de mudança, o primeiro momento é de entendimento e reconhecimento do problema. Por todos os envolvidos, em momentos distintos, de forma ordenada e planejada.

Por isso, neste primeiro momento da mudança ou processo que vier a direcionar os esforços de transformação da educação no país, temos que definir um novo paradigma para a comunicação dentro de qualquer proposta que se venha a adotar.

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