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Mídia e cidadania: da recepção à participação

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26jan

Por Márcia Stein
Jornalista, professora e especialista em mídia e educação

Assistir à TV é bom? Faz bem? E o acesso à Internet? É importante, mas será que os pais e educadores devem orientar a navegação? Quando e como ouvir rádio? Ler é fundamental, todos parecem concordar, mas, devemos ler de tudo – jornais, quadrinhos, revistas – ou só livros?

Como orientar filhos ou alunos sobre critérios para interagir com os meios de comunicação? – é a pergunta que freqüenta debates entre pais, educadores, sociólogos, antropólogos, enfim, gente que se preocupa com causas que dizem respeito ao coletivo, ao cultural, ao contemporâneo.

Questões como a banalização da violência e da sexualidade pesam contra os veículos. Questões como a agilidade e o alcance da circulação de informações que eles proporcionam pesam a favor. Essa balança de prós e contras costuma nortear infinitas discussões sobre a Questão da Mídia de Massa.

Mas, que tal, antes de apressar-se a escolher um dos dois lados nesse debate, pensarmos um pouco em responsabilidades?

Até porque, antes de se adotar uma postura radical de ataque ou defesa, é preciso ter claro que os meios de comunicação, em si, não são bons ou maus: são canais, meios, instrumentos utilizados pelas pessoas – de um lado quem produz: escritores, autores, criadores em geral; de outro, quem recebe: leitores, telespectadores, ouvintes, internautas.

É importante lembrar que, em tempos de blogs, webcams e TV digital, as fronteiras dessa relação emissor versus receptor tornam-se cada vez mais dinâmicas, ou seja, alternam-se os papéis de emissor e receptor, confundem-se e interpenetram-se os processos de recepção e expressão.  

E, nesse processo dinâmico onde todos, cada vez mais, são autores e produtores de informação, a qualidade do conteúdo veiculado compete a todos nós!  Tanto dos indivíduos, grupos e instituições de comunicação responsáveis pela produção do material veiculado pela chamada grande mídia quanto da recepção/recriação que nós, espectadores, leitores e internautas fazemos com aquilo que a mídia oferece; da qualidade das nossas respostas, da forma como nos colocamos diante de cada veículo, das escolhas que fazemos, do que escolhemos ver, ouvir, acessar…

No caso dos jovens, estamos falando de cidadãos em formação. Cidadãos que precisam ter oportunidade de desenvolver competências críticas, analíticas e investigativas que lhes garantam plena inserção num mundo social e profissional que envolve conflitos, competitividade, jogos de poder, escolhas, posicionamentos. E nesse caso é preciso, mais que nunca, falar de responsabilidades.

Para que os jovens possam tirar o melhor proveito dos meios de comunicação a que têm acesso, é preciso que eles sejam estimulados a se colocar ativamente com relação a eles. Estimulados pela família, pelo ambiente em volta, pela escola…

É importante que eles cresçam entendendo a comunicação como uma janela privilegiada, que coloca o mundo ao nosso alcance, mas… uma janela que exige atitude crítica, capacidade de selecionar, dentre todo o material disponível, o que lhe interessa e então dele se apropriar com autonomia, convertendo-o em conhecimento.

É importante que cresçam entendendo que o que a mídia mostra não é a realidade em si, mas, sim, certos modos de vê-la, a partir de determinados pontos de vista escolhidos entre os tantos possíveis.

Currículo e competências comunicativas

Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, de 2003, apresentam as competências organizadas em três grandes campos, que são:

– Representação e comunicação, que envolvem a leitura, a interpretação e a produção de textos nas diversas linguagens e formas textuais características dessa área do conhecimento;

– Investigação e compreensão, competência marcada pela capacidade de enfrentamento e resolução de situações-problema, utilização dos conceitos e procedimentos peculiares do fazer e pensar das ciências;

– Contextualização das ciências no âmbito sócio-cultural, na forma de análise crítica das idéias e dos recursos da área e das questões do mundo que podem ser respondidas ou transformadas por meio do pensar e do conhecimento científico.

Os três campos propostos apresentam elementos relacionados ao desenvolvimento de competências comunicativas. É importante, portanto, que os responsáveis pela formação dos jovens cidadãos se comprometam, efetivamente, com este desafio. Vejamos alguns modos de se comprometer, em cada uma das instâncias:

A família pode ajudar a formar sujeitos críticos discutindo os conteúdos veiculados pela mídia, questionando as escolhas do jovem de forma construtiva e respeitosa, sem desmerecê-las, mas estimulando sua curiosidade, desafiando-o a usar o que viu criativamente, instigando-a a recriar histórias, a brincar com o que viu, a ir além do que recebeu.

A escola pode ajudar a qualificar a interação com os meios, desvendando em sala os elementos que estruturam sua linguagem, propondo aos estudantes atividades em que eles se expressem através das diferentes linguagens. Essa experiência leva-os a fazerem escolhas, e a entenderem que quem faz produtos de comunicação faz escolhas o tempo todo – o que mostrar, como mostrar – e ajuda a criar um olhar mais crítico com relação ao que recebemos.   

A sociedade pode ajudar na construção de uma mídia mais responsável, mais comprometida com princípios éticos e democráticos, se colocando de forma mais política, organizando-se para fazer valer seu direito de cobrar das empresas de comunicação públicas e comerciais que elas pensem o público menos como consumidor e mais como cidadão.

O exercício da comunicação e suas diferentes dimensões na prática pedagógica

Num mundo em que as informações e estímulos nos chegam em ritmo vertiginoso, de modo não linear e através das mais variadas formas e linguagens, é fundamental aprender a interpretar criticamente a informação e a resolver problemas cotidianos de modo autônomo – questionando, imaginando, expressando-se através de diversos meios e linguagens, interagindo, relacionando-se, ou seja: comunicando-se.

A capacidade de acessar informações de modo autônomo, crítico e criativo, a capacidade de dialogar com o outro que está perto e com o outro que está do outro lado do mundo são algumas competências comunicativas que se tornam passaportes fundamentais para a conquista da cidadania em todos os seus aspectos – direito ao trabalho, à saúde, à cultura, a uma identidade.

Neste cenário, a escola destaca-se como lugar de recepção coletiva e sistemática de informações, como lugar de construção coletiva de valores e conhecimentos. Como em nenhum outro espaço social, na escola podem ser discutidos e trabalhados, pedagogicamente, os modos de apropriação de informações desenvolvidos por cada sujeito em sua interação cotidiana com as mensagens que circulam no meio em que vive. 

Na escola também devem ser elaborados e desenvolvidos os recursos de linguagem necessários para que se possa expressar para o mundo idéias, opiniões, desejos…

Cada vez mais, o direito à expressão depende não só da apropriação técnica dos diferentes meios de comunicação (saber escrever, saber usar um computador etc.), como do acesso aos códigos de linguagem próprios de cada um deles. Ou seja, para falar ao mundo sobre quem somos, o que queremos e o que sentimos, é preciso dominar as linguagens oral, escrita, visual, sonora e corporal, bem como seus códigos específicos: as palavras e as relações entre as palavras, gestos e seus significados culturais, imagens e seus elementos (enquadramentos, cores, texturas etc.), sons em suas diferentes formas (canções, ritmos, ruídos, conversas, etc.).

Portanto, entre os compromissos colocados contemporaneamente para a escola, está o da Educação para os meios, ou, num sentido mais amplo, o da Educação para a Comunicação.

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