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Ninguém sabe o que vai ser o iPad

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05mar


Por João Pedro Pereira
Jornal Público PT

Com a profusão de cobertura mediática que tipicamente envolve os produtos da Apple, a maioria das pessoas já sabe que o iPad é um computador sem teclado e sem rato, com um ecrã multitoque, desenhado sobretudo para consumo de informação e entretenimento. É a primeira incursão séria da Apple no mundo dos tablet PC (computadores sem teclado e sensíveis ao toque, que várias empresas têm tentado comercializar, mas com pouco sucesso). É uma espécie de iPhone em ponto grande, sem a funcionalidade de telemóvel e sem câmara. O que ninguém parece saber é aquilo que o iPad vai ser a partir do momento em que estiver à venda, no fim de março.

Jornalistas, bloggers e analistas de mercado estão divididos sobre se o novo produto da Apple está destinado a ser um sucesso comercial ou um fracasso de vendas. Também não há certezas sobre se vai ser uma bóia de salvação para os media, se poderá ser um leitor de livros eletrônicos capaz de rivalizar com o Kindle da Amazon, ou se poderá ser uma console portátil, que ponha a Apple em competição com a Nintendo e a Sony (em teoria, pelo menos, poderá ser todas estas coisas).

Ainda ninguém percebeu se o iPad vai ser usado sobretudo em casa ou na rua (por um lado, há versões equipadas com ligação 3G, para permitir uma conectividade a partir de qualquer ponto, através de um operador de telecomunicações; por outro, o aparelho é demasiado grande para caber num bolso). Não é claro se poderá ser uma ferramenta frequente de trabalho ou se vai ficar-se pela utilização nos tempos livres. E, por fim, até há quem diga que o iPad, bem-sucedido ou não, já é o começo de um novo paradigma na forma como os humanos interagem com os computadores – o que significaria uma mudança nos hábitos de utilização que se instalaram ao longo dos últimos 30 anos.

A 27 de Janeiro, o co-fundador e presidente da Apple, Steve Jobs, apresentou o mais aguardado produto da empresa nos últimos anos. A última grande novidade, anunciada em 2007, tinha sido o iPhone, que se tornou o alvo a abater para as outras empresas que fabricam smartphones e cuja tecnologia está agora a ser aplicada no iPad.

Durante a apresentação, Jobs mostrou estar consciente da dificuldade de introduzir no mercado um aparelho como o iPad. E fez a pergunta que já foi glosada inúmeras vezes na Web: “Todos usamos um portátil e/ou um smartphone. Há espaço para uma terceira categoria de dispositivos? Algo entre um portátil e um smartphone?”

Obviamente, a Apple acredita que sim. Mas as respostas que surgiram na Web nem sempre foram positivas. Há uma linha de raciocínio frequente: quem precisa de um computador – com capacidades gráficas avançadas e um teclado tradicional – compra um portátil; quem queira um minicomputador ultraportátil pode optar por um telemóvel inteligente.

“Para criar uma terceira categoria de dispositivos, eles terão de ser muito melhores em algumas tarefas-chave”, sublinhou Jobs. “Que tipo de tarefas? Coisas como navegar na web, enviar emails, ver e partilhar fotografias, ver vídeos, desfrutar de uma coleção de música,
jogar jogos, ler livros eletrônicos.”Substituto do papel?

O setor dos livros eletrônicos é um mercado ainda pequeno, mas que recebeu em 2009 muita atenção, sobretudo graças aos esforços da livraria online Amazon. A Apple não quis deixar escapar este mercado emergente. Está a preparar uma loja de livros eletrônicos, chamada iBooks, e tem já acordos com várias editoras de renome (os livros, contudo, estarão disponíveis apenas nos Estados Unidos).

A demonstração feita por Steve Jobs em Janeiro mostrou que o iPad pode ser um bom dispositivo para livros (inclusivamente, por mimetizar no ecrã o movimento do folhear de páginas, algo de que o Kindle é incapaz). Mas a grande vantagem do iPad face ao Kindle e outros leitores do gênero não está nestes artifícios de imagem. O grande trunfo é a relação preço/funcionalidades.

O tablet da Apple custa nos EUA entre 499 e 829 dólares (os preços, que variam consoante a capacidade de armazenamento e a integração de ligação 3G, ainda não foram convertidos para o mercado europeu). Conforme o modelo, encomendar um Kindle a partir de Portugal custa entre 245 e 426 euros. O Sony Reader mais barato (que não é vendido em Portugal) fica-se pelos 145 euros. São significativamente mais baratos. Mas, contrariamente ao iPad, não servem para fazer praticamente mais nada além de ler livros.

É certo que o Reader e o Kindle têm ecrãs de tinta electrônica, que não emitem luz. Ou seja, os gastos de bateria são muito menores e o cansaço dos olhos também. Mas este é um benefício pequeno quando o ecrã a cores do iPad permite saltar da leitura de um livro para um filme, para um videojogo ou para um qualquer site na Web.

Para além disto, qualquer empresa (Amazon incluída) poderá vender livros para o iPad, dado que é possível descarregar para o aparelho as 140 mil aplicações que já estão disponíveis para o iPhone – entre estas, estão muitos leitores de ebooks, incluindo um para ler os livros comprados na Amazon.

Outra indústria em que o iPad se prepara para entrar é a dos media. O New York Times, que anunciou recentemente uma nova estratégia de cobrança de conteúdos digitais, já tem pronta uma edição própria para o aparelho da Apple. E o ecrã do iPad, bem como o sistema de venda de música e de aplicações que a Apple já tem montado, torna-o também um suporte apetecível para vender edições digitais de revistas.

A metáfora do desktop

Nas décadas de 70 e 80, usar um computador pessoal significava inserir comandos de texto em ecrãs escuros (o exemplo mais famoso é o do sistema operativo DOS). Hoje, usar um PC significa estar imerso na chamada “metáfora do desktop”. Os modernos ambientes gráficos – de que a Apple é precursora na comercialização – são uma metáfora que pretende emular o ambiente de um escritório: há ficheiros que podem ser espalhados no tampo de uma mesa (o ambiente de trabalho), os documentos são guardados em pastas, e, para se apagar alguma coisa, basta atirá-la para um caixote do lixo.

Dos primeiros computadores pessoais, na década de 1980, até hoje, os sistemas operativos evoluíram muito. Mas, mesmo entre sistemas rivais (como o Windows, da Microsoft, e o OS X, da Apple), há traços comuns que se mantêm quase desde o início e com o quais os utilizadores se familiarizaram: as pastas de ficheiros, os documentos e aplicações que abrem em janelas, um botão com um X num canto, que serve para fechar algo.

Ora, o iPad é o primeiro computador pessoal produzido por uma grande marca e destinado ao mercado de consumo que não recorre à metáfora do desktop. Usar um iPad (que é muito semelhante a usar um iPhone) é uma experiência radicalmente diferente da de usar um computador convencional. Embora se possa recorrer a um teclado acoplado (substituindo assim o teclado virtual), o aparelho dispensa de todo o rato, que é um dos dispositivos periféricos atualmente essenciais na interação com computadores. Não há pastas, nem um tampo para espalhar documentos, nem sequer um caixote do lixo para apagar ficheiros. Também não se carrega num X para fechar uma aplicação (em vez disso, usa-se o botão central, já fora da área do ecrã).

Esta forma de utilização do iPad pode trazer algumas limitações (por exemplo, para criar documentos complexos). E alguém que tenha grandes conhecimentos técnicos não pode fazer muito mais num iPad do que um novato.

Mas há uma vantagem neste sistema: é simples e pouco sujeito a erros. Por exemplo, todas as aplicações se instalam exatamente da mesma forma – e, como têm de ser aprovadas pela Apple, não há o risco de não funcionarem ou de causarem problemas. O utilizador nem sequer tem de se preocupar com a pasta onde a aplicação deve ser instalada: contrariamente ao que acontece com um computador convencional, o sistema de ficheiros que fazem o iPad funcionar está escondido, simplesmente porque é irrelevante para a utilização do aparelho.

A metáfora do desktop vive há três décadas e isso quer dizer que, para muitos, é a única forma que conhecem de utilização de um computador. Mesmo na tecnologia, a inércia é um fator de peso. Mas, há 30 anos (ou mesmo há dez), os computadores não eram máquinas constantemente ligadas à Internet. Nem serviam para comprar e armazenar coleções de livros, filmes e música. Nem eram usados para ler jornais ou revistas.

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