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Um pacto pela Educação

6 comentários
20nov

– Marco Antonio Raupp
Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

– Isaac Roitman
Coordenador do Grupo de Trabalho de Educação da SBPC

A Educação de qualidade no Brasil continua a ser um problema não resolvido. Intelectuais brasileiros produziram, no século passado, duas versões do “Manifesto dos Pioneiros pela Educação Nova”. A primeira versão, de 1932, foi assinada por 21 intelectuais, entre os quais Anísio Teixeira, Fernando Azevedo, Cecília Meireles, Roquete Pinto e Júlio de Mesquita Filho. Uma nova versão foi lançada em 1959, dessa vez com o endosso de 161 acadêmicos.

Os dois documentos parecem ter sido escritos recentemente, o que revela que não avançamos na resolução dos nossos problemas educacionais. O documento de 1932, no seu início, diz: “Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade ao da educação (….) todos os nossos esforços, sem unidade de plano e sem espírito de continuidade, não lograram ainda criar um sistema de organização escolar à altura das necessidades modernas e das necessidades do país. Tudo fragmentado e desarticulado”.

Passados 77 anos, as afirmações do manifesto ainda guardam muita semelhança com a situação atual da educação brasileira, especialmente nos níveis fundamental e médio. Nas décadas mais recentes, é verdade, houve um empenho bem sucedido para a universalização da educação básica. Agora, precisa haver esforços para que a educação tenha qualidade. Oferecemos escola; precisamos oferecer também educação.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) congrega cerca de 90 sociedades científicas e caracteriza sua trajetória em ações que visam promover o desenvolvimento científico e tecnológico e melhorias no sistema educacional, além de sempre est ar presente nos episódios mais importantes da vida brasileira. Em agosto de 2008, criou o Grupo de Trabalho de Educação, que acaba de lançar o movimento “SBPC: Pacto pela Educação”.

A iniciativa tem como principal característica a aliança e a parceria de diversos setores da sociedade com o objetivo de alcançar a qualidade na educação em todos os níveis e para todos. Além de entidades acadêmicas, esse pacto pela educação envolverá os setores empresarial, estudantil, sindical, Legislativo, Executivo e associações e organizações sociais voltadas para a melhoria da educação.

Em razão das dimensões dos problemas, sabemos que levará décadas para que ocorra uma transformação radical da educação no Brasil. Assim, serão propostas ações de curto, médio e longo prazo, que serão entregues aos sucessivos governantes nos próximos 20 anos. Será elaborado um conjunto de indicadores para acompanhar e avaliar a implantação das ações propostas.

Esse acompanhamento será executado por todas as entidades que participarem dessa verdadeira e necessária revolução da educação, que deverá ser feita em várias dimensões: formação do professor contemporâneo, valorização da carreira docente, gestão escolar moderna e eficiente, conteúdo adequado como forma do exercício do pensar, utilização de métodos pedagógicos permanentemente atualizados, bibliotecas e outros instrumentos para a busca da informação, avaliação e principalmente as bases para tornar a educação um agente civilizatório.

Em suma, temos que alterar drasticamente o quadro atual do ensino básico brasileiro, que se apresenta como uma perversão social, um indicador claro da desigualdade que vigora na nossa sociedade. Elevar nossa educação a patamares aceitáveis de qualidade não é só um requisito para a modernização do país e a melhoria das condições de vida das pessoas. É um requisito também para a inclusão, é uma responsabilidade social, é uma demanda de reparação social em uma sociedade desigual.

O ensino de qualidade, especialmente no nível fundamental, que é o nível que mais afeta a cidadania, deve ser visto como um compromisso de todo o país, em todas as suas instâncias e segmentos. Para uma sociedade democrática, que tem como pressuposto o oferecimento de oportunidades iguais para todos, trata-se de um compromisso fundamental.

Esse é, no entendimento da SBPC, o grande desafio que temos pela frente – e imediatamente. É preciso haver uma grande mobilização da sociedade, de modo a fazer com que as estruturas governamentais e políticas promovam o esforço necessário. Talvez esse seja mesmo o maior desafio que já se colocou para o país em toda a sua história. Dotar a educação básica da qualidade necessária significa promover o salto de qualidade de que o Brasil precisa. O movimento “SBPC: Pacto pela Educação” tem esse compromisso.

6 thoughts on “Um pacto pela Educação

  1. Retomando a discussão. Quando citei Estamos vivenciando na escola onde atuo como coordenadora pedagógica a realização de um trabalho muito rico e interessante com o estagiário remunerado e com a voluntária da sala de leitura. É um pequeno passo para abrirmos a escola para sociedade, mas já é um começo. Quis enfocar e colaborar com a idéia do autor do artigo que nos diz que “Esse é, no entendimento da SBPC, o grande desafio que temos pela frente – e imediatamente. É preciso haver uma grande mobilização da sociedade, de modo a fazer com que as estruturas governamentais e políticas promovam o esforço necessário.”Concordo plenamente que a escola esteja aberta a comunidade que está ao seu entorno, só conhecendo o trabalho desenvolvido na Unidade Escolar é que a escola será respeitada e valorizada ,e essa comunidade seja de pais de alunos ou não, conhecendo as dificuldades enfrentadas e o esforço realizado pelo grupo é que terá força para pressionar as autoridades a fazer mudanças na Educação. Agora respondendo a amiga Deliane , os estagiários e voluntários não são a solução para uma educação caótica com problemas estruturais, que vem há mais de 30 anos, que não são só nossos do RJ é do Brasil, porém penso que alguma coisa precisa ser feita, e não costumo negar uma idéia quando está ainda em fase de implantação, esse movimento de estagiários e voluntários iniciou-se agora em setembro, 2 meses é muito pouco tempo para já dizermos que não tem validade.Quando você cita que Além disso, os estagiários não têm compromisso efetivo,discordo pois todas as escolas que possuem estagiários ( pelo menos as da 3ª CRE) onde trabalho , em reuniões de Coordenadoras o que se tem avaliado é que o trabalho tem sido muito bom, e neste ponto está subtendido o aspecto de Gestão Escolar pois sabemos que se o estagiário não for comprometido ele não ficará na escola , existe uma avaliação do estagiário, um projeto etc
    Quanto a dita aprovação automática, bem sabemos que só acontecia até o período final ( 2ª série ) pois a teoria do ciclo nos diz que o aluno tem 3 anos para ser alfabetizado, no período final ( 2ª série ) as crianças podiam ser reprovadas . Mas… como esse ano é o final do ano do ciclo, pois em 2010 retornaremos a seriação, não julgo necessário nos alongarmos nessa discussão.
    Amiga se você desejar posso enviá-la o projeto da voluntária de Sala de Leitura ( que recebe uma ajuda de custa de cem reais para ir 4 horas semanais na escola, e com as fotos de todo trabalho desenvolvido por ela com as crianças, e você talvez mude a sua opinião sobre os estagiários e voluntários.
    Um abraço fraterno Lais

  2. A criação e implantação de política educacional para os diferentes níveis de escolaridade a partir do CONAE, pelo governo federal, com participação de diferentes entidades incluindo a SBPC, será fundamental para chegarmos ao século 21 na área educacional. Precisamos de novos paradígmas de desenvolvimento sustentado pela educação de qualidade, que transforme sujeitos em cidadãos pensantes críticos e criativos. As universidades tem grande responsabilidade na formação do professor do ensino básico e superior. Esperamos, portanto, que elas participem ativamente das transformações necessárias e que contribuam para a mudança do quadro atual do ensino.

  3. Creio estar ocorrendo um proposital engano no que se refere à educação no município do Rio de Janeiro. Na verdade, o que há, são salas abarrotadas de alunos. Alunos estes com sérios problemas, e não estou falando dos inclusos (destes a colega já falou). Falo dos alunos que seriam ditos “normais”. A maioria das crianças das nossas escolas não tem assistência das famílias. Está totalmente desamparada e a escola, por sua vez, não está preparada para desenvolver o seu trabalho com a competência necessária, pois está sendo requisitada a desenvolver trabalhos que não são pertinentes à educação. Hoje, a escola é pensão, é local onde as crianças vão para ter um salário (bolsa família). É onde os responsáveis levam a criança para ter tempo, para fazerem outras coisas que nem sempre é trabalhar. Esta situação, que não creio ser só do Rio de Janeiro, não se resolverá enquanto as mudanças não forem estruturais. Estas mudanças pontuais que são feitas só fazem com que se acenda a esperança de uma melhora que não ocorre, e o professor, como normalmente é muito criativo, vai dando um jeitinho aqui outro jeitinho ali… E as coisas vão se arrastando sem a solução real e verdadeira que possibilitaria resolver o problema e a conseqüente mudança do perfil deste país. Para haver uma verdadeira melhora da educação, seria necessário colocar, nas salas de aula, os pais destas crianças para que eles aprendam a responsabilidade que é colocar uma criança no mundo, e pessoas que pudessem ensiná-los como se deve educar uma criança. Eu disse E D U C A R. Eles precisam aprender que o básico da educação deve ser dado em casa. O início desta educação deve ser tarefa dos responsáveis, e a escola, por sua vez, deveria ter a responsabilidade de reforçar esta educação dada no lar, deveria ser possível cobrar dos pais a responsabilidade que não querem ter. Mas o que está ocorrendo é o inverso. Nós professores é quem estamos sendo cobrados pela educação das crianças. Não acho que seja correto cobrar do professor o básico da educação até porque o professor passa os valores corretos para o aluno, mas em casa o que o aluno tem como paradigma dificilmente é o que o professor explica. É comum o professor explicar, dar exemplo do que é certo, e no dia seguinte, o aluno questionar que aquilo que o professor falou não está certo. O aluno sofre as influências que tem em casa e na rua, visto que ele passa mais tempo nestes lugares do que na escola. Assim, vamos nós professores sendo acusados de não desenvolvermos o trabalho como devemos, mas o que acontece, na verdade, é um esforço homérico para fazer dar certo apesar de tantas circunstâncias adversas, de tanta irresponsabilidade e de tanto achismo no qual anda mergulhada a educação. E mais, a educação não pode e nem deve ser utilizada para fins políticos, porque enquanto isto acontecer as decisões vão mudar com muita rapidez tendo como objetivo real o voto, não a criança.

  4. É triste constatar que no nosso país só o que avança é a corrupção e que propostas de pensadores da educação como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e tantos outros muito pouco ou quase nada frutificaram para dotar de qualidade o ensino, o que deveria ser a primeira preocupação de todo governante. Ao contrário, se adotam “alternativas” vergonhosas como aprovação automática, emprego de estagiários que nenhum preparo têm para lidar com questão tão complexa e delicada. Afinal, eles lá estão para aprender também, exercitar o que recebem na universidade e não suprir a falta do professor que é mal remunerado, e que hoje não consegue se qualificar, se adequar às novas tecnologias porque tem que se desdobrar em vários para sobreviver. Sem contar com riscos à própria vida diante da violência urbana que já ultrapassou os muros da escola. Concordo com tudo o que disse Deliane. Como jornalista, acompanho os descalabros que vive a educação nesse país e fico indignada com essas “soluções” de ocasião dos administradores públicos. E todos sabemos que é a baixa qualidade da educação que faz proliferar esses políticos e a adoção do “Bolsa Tudo”, como forma de minimizar a miséria. Mas, há que se acreditar em iniciativas como essa da SBPC, um organismo sério. Tem que haver uma esperança no final desse túnel! E cabe a nós, sociedade organizada, nos mobilizarmos para que essa luz possa iluminar o futuro das nossas crianças.

  5. Lais, você realmente acredita que essa iniciativa tem algum valor? Remunerar estagiários não resolverá, nem de início, o problema da educação fundamental, onde o sistema obriga a aprovação de alunos que não têm a mínima condição de avançar na série, coloca alunos com diversas deficiencias mentais nas turmas regulares, a pretexto de inclusão, que, na verdade não passa de crueldade, uma vez que os mesmos não receberão a atenção devida e necessária. Além disso, os estagiários não têm compromisso efetivo, estão de passagem por um sistema caótico e que é um grande nicho para politicagem. Você, como coordenadora pedagógica, deveria registrar seriamente as atividades e sistemas de “aprovação” da prefeitura do Rio de Janeiro, pois enquanto se remunera um estagiário, que não existe definitivamente em todas as escolas, os profissionais são desvalorizados com índices irisórios de aumento, laptops sem acesso à internet, ou seja, somente um editor de texto, exposição aos tiroteios, pois não podemos ir para nossas casas pois temos de cumprir horário, e aos constantes abusos da clientela de do “patrão”. Então eu pergunto, Lais, é realmente da prefeitura do Rio de Janeiro que você fala?

  6. Sem dúvida ,todo investimento em educação passa pela educação básica, só desejo deixar o registro da iniciativa da Prefeitura do Rio de Janeiro ao utilizar a proposta de estagiários e voluntários nas escolas. Estamos vivenciando na escola onde atuo como coordenadora pedagógica a realização de um trabalho muito rico e interessante com o estagiário remunerado e com a voluntária da sala de leitura. É um pequeno passo para abrirmos a escola para sociedade, mas já é um começo. Lais

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