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Um panorama da educação digital

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08jan

Por Luli Radfahrer
Ph.D. em comunicação digital pela ECA-USP

Estava em uma reunião com engenheiros da USP onde se discutia a Internet2 e suas benesses. Por que será que nesse país as pessoas só conseguem pensar em hardware e em infra-estrutura, nunca em conteúdo? Fala-se dos padrões de HDTV e seus conversores, se ela será de Plasma ou LCD, se o substituto do DVD será HD-DVD ou Blu-Ray mas poucos parecem se interessar por conteúdo.

Fala-se dessa geringonça abaixo – o tal Laptop de US$100 – como se fosse a maravilha de inclusão digital, mas ninguém investe em treinamento de professores, em capacitação de escolas, em serviços para a comunidade. Será que é tão difícil de se entender que uma biblioteca completa não funciona se quem a freqüenta é analfabeto?

Burrice é uma coisa difícil de agüentar. Principalmente entre aqueles que têm poder de decisão. Por que, considerado o número de telefones celulares no Brasil e sua abrangência social, não se fazem serviços relevantes para essa plataforma e consumidores de baixa renda? Se der certo, eis um produto que pode ser exportado para a China e Índia. O que não falta nesse mundo é excluído digital.

Mas não adianta sonhar, o uso de tecnologias digitais nas escolas praticamente é inexistente. Pra piorar, muitos professores ainda teimam a ignorar ou proibir o uso de tecnologias de comunicação interativa. É aquela velha história de se temer o que se desconhece. Essa resistência pode até livrar a cara de um ou outro por enquanto, mas no médio prazo é demolidora. Qualquer aluno que use o computador em casa, em LAN Houses ou com os amigos sabe de sua importância nas relações sociais e provavelmente suspeita das profissionais. Ao ver seu professor rejeitar a tecnologia, ele entra em conflito, com dois resultados ruins possíveis:

Se o professor for bem sucedido em transmitir sua repulsa com relação às tecnologias interativas, formará em seu aluno um indivíduo desconectado e, portanto, distante da cadeia produtiva. Belo trabalho de educação.

Se, ao contrário, o aluno constatar que seu professor despreza a internet por desconhecê-la, ele tenderá a valorizar a interconexão em demérito da educação. Ao desvalorizar o sistema educativo como um todo, o aluno pára de dar importância ao ensino, pára de aprender, desenvolve preconceitos e reforça vícios. Com isso, se tornará semelhante ao professor que despreza e, apesar de utilizar a rede, não aprenderá com ela nem fará interações significativas. Em uma espécie de profecia auto-realizável, ele prova que as restrições que seu velho professor cultivava, embora infundadas a princípio, tornam-se realidade com o tempo.

O professor – qualquer professor – deveria entender o que existe de verdade na Internet, sem preconceitos ou resistência. Mais do que isso, ele precisa entender como isso influencia o modo de pensar de seus alunos. Não é o que eles pensam ou fazem quando estão conectados que importa, mas a forma como o fazem.

Se o professor usar técnicas construtivistas de ensino, poderá ter, na Internet, um importante universo de descoberta e exploração, fundamental para os processos de ensino de seus alunos. Ele não precisa ser a “fonte do saber”, mas o estimulador do conhecimento. Cabe a ele canalizar a energia e curiosidade de seus alunos e ajudá-los a estabelecer critério. Piaget e Vygotsky já diziam isso bem antes da Internet.

Enquanto se insiste em livros (que são importantes, mas já faz um tempo que deixaram de ser a única fonte confiável – e não se pode negar que há muita bobagem em livros), os Blogs e a Wikipedia, crescem e se tornam mais relevantes a cada dia. Quem poderia prever que uma enciclopédia aberta, que todos podem editar, teria um dia mais informação e um grau maior de precisão que a Enciclopédia Britânica?

São casos como esses que mostram como o poder agregador da comunicação colaborativa pode mudar a forma com que conhecemos o ensino hoje. Não é curioso pensar que, mesmo com tantas inovações tecnológicas, uma sala de aula de hoje não é diferente em sua essência de uma do século XVI? Será que em 500 anos nada mudou?

É verdade que uma grande quantidade de pessoas não tem acesso a um computador. Mas poderiam distribuir as máquinas a “derreal a baciada” que não faria muita diferença. A questão não está no fato de se ter um computador, mas do que fazer com ele. A Internet não é uma televisão, em que se pode escolher canais e receber conteúdo passivamente. As opções são tantas que o indivíduo sem treino não sabe o que fazer.

Documentários mostram que há bastante acesso à Internet nas favelas. Mas essa gente acessa o quê? Acredito que, por falta de opção, as redes sociais e os mecanismos de comunicação – em especial o MSN e o Orkut – sejam a maioria, e não é para menos. Diz-se por aí que há bastante conteúdo disponível na rede, mas ele está aonde? A fonte é confiável? Todos sabemos que se o indivíduo quiser aprender a fazer um currículo, a falar inglês, a dançar, a consertar um carburador, ele poderá encontrar a informação que precisa em vários sites. Mas fica a pergunta: ele sabe procurar? Sabe identificar uma resposta certa? Você saberia dizer um bom site de educação prática e simples sem pesquisar?

A pesquisa nacional por amostra de domicílios (PNAD, do IBGE) mostra que os brasileiros que não usam a rede são mais velhos, têm menos estudo e ganham menos que aqueles que têm acesso a ela, seja em casa ou no trabalho. Ainda segundo a pesquisa, o brasileiro médio que acessa a Internet tem 28 anos, escolaridade mínima de 10 anos e rendimento médio de R$ 1 mil, enquanto aquele sem – que não tem acesso – ultrapassa os 37 anos, tem menos de cinco anos de estudo e recebe, em média, R$ 333 mensais.

Os principais motivos listados para a falta de hábito de acessar a rede são sintomáticos: o alto preço do computador (37,2%), a não-necessidade ou desejo (20,9%) e a falta de instrução (20,5%), todos sintomas evidentes de uma falta de orientação com relação ao uso do computador, acompanhada de uma incerteza com relação a seus benefícios. Uma máquina que não é compreendida não tem serventia, é considerada cara e inútil. Não é de se surpreender que o número de domicílios com freezer seja praticamente igual aos dos que têm computador na média nacional.

Na região mais pobre e com menor índice de escolaridade da nação, o congelador penetra em cerca de 70% de domicílios a mais que o computador. O que não é uma surpresa, principalmente após as crises do setor energético em 2001. A relação entre educação e acesso à internet fica ainda mais evidente quando se compara o acesso à rede entre os que estudaram e os que não: enquanto 76,2% das pessoas com 15 anos ou mais de estudo usavam a rede, apenas 2,5% dos que tiveram até quatro anos de educação faziam o mesmo.

A situação piora se for levado em conta que o sistema é retro-alimentado: o indivíduo que tem acesso à rede se informa e se atualiza cada vez mais rápido, tende a valorizar o meio ainda mais, passar conseqüentemente mais tempo conectado e progredir ainda mais; do outro lado, aquele que não tem acesso fica a cada momento mais distante do conhecimento e tem uma curva de aprendizado cara vez mais íngreme para superar.

Como sempre, o elemento-chave é o professor. Se ele está capacitado, poderá dar uma formação melhor a seus alunos. Se ele não compreende a máquina, entupi-lo de sistemas de ensino à distância e software dedicado não vai melhorar. Por falar neles, o uso de programas educativos como os conhecemos é normalmente desastroso. Para começar, porque do jeito que são feitos, são muitos os programas necessários.

Um cálculo simples mostra que uma escola que resolva aplicar um programa didático mensal, a título de aula prática, para cada série e disciplina de seu currículo, seria obrigada a comprar entre seiscentas a novecentas aplicações em média. A cada período letivo ou nova turma, por exemplo, o investimento em software seria equivalente à compra de diversos computadores potentes.

Para piorar o cenário, o treinamento de cada professor para cada ferramenta de software demandaria um esforço considerável – o que, naturalmente, tem custos. Professores com pouca experiência na área digital terão maiores dificuldade de aprendizado e retenção de conhecimentos, o que os levará a uma natural resistência e insegurança para sua aplicação, ainda mais se considerado que os alunos podem entender o programa mais rapidamente e, conseqüentemente, fazer perguntas que estejam além de sua capacidade.

Se, mesmo assim, o investimento for feito, os programas não podem ser engavetados. Para usar recursos tão caros, o professor precisa ajustar seu currículo – esse ajuste não é necessariamente bom, uma vez que as práticas didáticas do software raramente condizem com o ambiente, condições regionais, histórico, resultado esperado e condições do professor. Se a ferramenta for estrangeira, a adaptação pode incluir alterações curriculares.

O aplicativo, comprado com a intenção de ser um suporte às aulas pode, em muitos casos, se tornar um desvio forçado de rota cujos efeitos são mais daninhos que benéficos. Ou seja, os resultados desses programas não costumam compensar o investimento feito neles – mesmo nos melhores casos, em que o aplicativo seja de baixo custo e gratuito, demande pouco ou nenhum treinamento e seja facilmente aplicável em sala de aula (caso muito raro, consideradas todas as variáveis envolvidas), o investimento provavelmente não acarretará em uma melhora do ensino. O software educacional tenderá, em muitos casos, a ser um ambiente de construção e simulação, em que o aluno poderá fazer escolhas, mas dificilmente poderá propor novas abordagens.

Um computador último tipo, um sistema de software educativo e uma banda muito larga não tornam ninguém mais inteligente. O que é necessário mudar é a atitude do indivíduo com relação à tecnologia, não a qualidade do ambiente. O professor precisa aprender a valorizar a Internet e seus usos, conhecer as novas tecnologias e saber o que fazer com elas, tentar minimizar a curva de aprendizado e, assim, lutar para diminuir a exclusão digital.

Essa é a grande revolução que as escolas precisam fazer. Se o professor souber como a máquina funciona, poderá estimular seus alunos mesmo sem ter recursos – e esses alunos poderão utilizar os computadores de suas casas ou de LAN Houses conveniadas.

O sistema ideal envolveria aplicativos educacionais conectados em um ambiente de construção, investigação e progressão que, nos moldes construtivistas, se adapte às necessidades e particularidades de cada região, turma, classe e professor. Mais do que isso, esse sistema de aplicativos deve dar início a uma série de discussões em classe e apoiar o processo de descoberta e resolução de problemas. Assim servirá como impulso para a construção de conhecimento coletivo e colaborativo.

Seu uso deve ser estimulado, divertido e interessante, proporcionando a formação de grupos espontâneos e avaliação pelas comunidades formadas. Ele deve ser acessível via Internet, em sala de aula, em casa, à distância ou em todos esses casos simultaneamente. Suas ferramentas devem ser fáceis de usar e amigáveis. Elas devem habilitar o professor para ser o gestor do conteúdo gerado por ele. Se ele for capaz de, em um processo de emergência, construir um corpo de referência maior, mais abrangente e mais longevo que a experiência didática, tanto melhor.

A boa notícia é que esse sistema já existe, é gratuito, adaptável e está pronto para ser utilizado. Blogs, Wikis e boa parte dos serviços disponíveis na Internet são seus elementos.

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