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A ciência na tela do cinema

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03set

“A ciência, como também uma expressão cultural, se enriquece quando “escuta” os pensamentos da arte, especialmente pelo fato de eles deflagrarem os limites de suas formalizações e generalizações”, destaca Gabriel Cid.

  

Por Marcus Tavares

Um cineclube voltado para a ciência. Assim é o projeto Ciência em foco, promovido há mais de um ano pela Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Todo mês, a instituição convida o público a assistir a um determinado filme e a participar de um debate, em seguida, com um especialista. Gratuito, o evento vem reunindo professores, estudantes e cariocas que descobrem conexões e reflexões sobre o mundo da ciência retratado pela sétima arte até então inimaginados. Neste sábado, por exemplo, o público é convidado a assistir, a partir das 16 horas, ao filme Veludo Azul, de David Lynch. O debate caberá ao professor James Arêas, do Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

“A ciência, como também uma expressão cultural, se enriquece quando ‘escuta’ os pensamentos da arte, especialmente pelo fato de eles deflagrarem os limites de suas formalizações e generalizações”, destaca Gabriel Cid, coordenador do cineclube.

A revistapontocom resolveu conhecer um pouco mais o projeto.

Acompanhe a entrevista concedida por Gabriel Cid:

revistapontocom – Em que consiste o projeto do cineclube da casa da ciência?
Gabriel Cid –
O Ciência em Foco é um projeto que privilegia a relação entre cinema e pensamento, no qual palestras e debates procuram instigar o público, após a exibição de filmes, a refletir sobre determinadas questões que eles suscitam. O cineclube surgiu como uma possibilidade de introduzir abordagens críticas e problematizadoras no contexto da divulgação científica, abrindo espaço para as artes, a filosofia e as ciências humanas. Em suma, trata-se de desdobrar questões relativas à determinadas áreas do conhecimento a partir dos filmes, geralmente de ficção, incentivando o público a pensar com o cinema. As sessões são sempre gratuitas, voltadas para o público geral e adulto. A ideia é ter sempre um pesquisador convidado capaz de trazer, a partir de sua área do conhecimento e em diálogo com o cinema, uma abordagem crítica para pensar, com o público, sobre aspectos filosóficos, históricos e sociais desdobrados do filme, relacionando assim arte, ciência e cultura.

revistapontocom – Há quanto tempo existe? O foco é sempre na área da ciência?
Gabriel Cid –
O projeto existe desde abril de 2004, quando foi inaugurado no Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST/MCT) e ocorreu mensalmente até 2006. Em 2008, foi lançado o livro ‘Ciência em foco: o olhar pelo cinema’ (ed. Garamond), com o apoio da FAPERJ e do MAST, reunindo artigos referentes a algumas destas sessões do período inicial. Em abril de 2009, o programa retomou suas atividades como cineclube da Casa da Ciência da UFRJ. O foco na ciência tem a ver com a proposta de trazer sempre algum tema, relacionado a alguma área do conhecimento, para a discussão. Assim, propomos reflexões transdisciplinares, não restringindo-nos à crítica dos filmes ou apenas aos seus elementos estéticos, mas justamente entendendo que o pensamento pode se fazer por meio da arte, ele mesmo produzindo-se artisticamente e potencializando-se em diálogo com ela.

revistapontocom – Cinema e ciência então têm tudo a ver?
Gabriel Cid –
O cinema é uma forma de pensamento que se faz por meio de imagens, movimento, tempo… O cineasta soviético Andrei Tarkovsky trouxe uma imagem interessante para descrever o ofício do diretor de cinema, associando-o ao processo de esculpir um bloco de tempo. Da mesma forma a literatura e a música possuem modos e suportes sensíveis distintos para trazer questões acerca do mundo. A ciência, como também uma expressão cultural, se enriquece quando “escuta” os pensamentos da arte, especialmente pelo fato de eles deflagrarem os limites de suas formalizações e generalizações.

revistapontocom – E o público? Participa? Interage? De que forma?
Gabriel Cid –
É importante que a fala do pesquisador não se esgote em si. Para isso, sempre abrimos o debate com o público, que muitas vezes se estende de forma aquecida e enriquecedora. O momento do debate é importante, pois é ali que as questões colocadas pelo pesquisador podem se multiplicar, nos mostrando, por meio de suas ressonâncias, que o filme nos lança em verdadeiras espirais de problemas e reflexões com a perspectiva ampliada pelo público. Nosso público é bastante variado, constituído em sua maioria por universitários, professores, profissionais liberais e aposentados.

revistapontocom – O ciência em foco já foi parar na sala de aula?
Gabriel Cid –
Já aconteceu de nos procurarem, após as sessões, para conversar a respeito da proposta e com o interesse de levar discussões semelhantes para o contexto da sala de aula, ou para alguma atividade similar envolvendo a escola ou a organização. Já aconteceu também de um aluno nos procurar no sentido de orientação para formação de um cineclube com propostas afins. Este potencial transformador dos filmes, aliado às discussões voltadas às ciências humanas e sociais, tem nos levado a pensar na criação de um laboratório de cinema e educação.

revistapontocom – Como é feita a escolha dos temas/filmes?
Gabriel Cid –
Os convidados são os principais responsáveis pela programação, já que são eles quem propõem, na maioria das vezes, ou em diálogo conosco, os filmes a serem exibidos. A curadoria atua privilegiando a abrangência temática e a consolidação da pesquisa e reflexão dos convidados, tendo em vista a importância da divulgação de seus respectivos trabalhos na interface estabelecida pelo cinema, criando um elo capaz de evitar uma abordagem distanciada das questões em foco. As parcerias são estabelecidas com unidades da UFRJ, outras universidades e também instituições do Brasil e do exterior, como no ano passado, quando recebemos um pesquisador do instituto Max Planck de História da Ciência de Berlim.

revistapontocom – Quais são os desafios do projeto?
Gabriel Cid –
Certamente o desafio da manutenção da qualidade de nossa programação. Para isso, precisamos pesquisar bastante em meio à produção dos possíveis convidados, acompanhar outros seminários com temas afins, assistir a mostras de filmes e sempre manter vivo e pulsante o pensamento sobre o cinema. Outro desafio importante é a divulgação, que precisa pensar estratégias para atingir não só o público interessado, mas também despertar o interesse naqueles que ainda não conhecem o projeto, aliando-nos com as potencialidades da internet. Nosso blog, inaugurado este ano, é um espaço que busca intensificar este processo e também levar aos visitantes textos, curiosidades e notícias de outros eventos culturais afins, com o intuito de ampliar, virtualmente, nossos limites. O endereço é http://cineclubecienciaemfoco.blogspot.com

revistapontocom – E o que vem por aí?
Gabriel Cid –
Neste dia 4 de setembro, o professor James Arêas, do Departamento de Filosofia da UERJ, é nosso convidado com a palestra ‘David Lynch: o pulsar do tempo’, após a exibição do clássico ‘Veludo azul’. Podemos esperar emoções fortes, não só com ‘Veludo azul’, primeiro filme de David Lynch que exibimos, como também com nossa programação de outubro. Exibiremos o terror trash de David Cronenberg, ‘Rabid’, seguido da fala da médica e psicanalista Lilian Krakowski Chazan, que desdobrará a visão irônica e apocalíptica do diretor com relação aos experimentos científicos como, por exemplo, os da medicina. Ainda este ano, teremos uma homenagem filosófica aos 80 anos de Jean-Luc Godard. Deixaremos, por enquanto, um suspense com relação ao mês e ao filme.

Casa da Ciência da UFRJ
Endereço – Rua Lauro Müller, 3, Botafogo, Rio
Telefone – (21) 2542-7494
Site – http://www.casadaciencia.ufrj.br

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