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Política pública em midiaeducação

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04abr

Por Marcus Tavares

Rafael Parente é subsecretário de  Projetos Estratégicos da Secretaria Municipal de Educação do Rio. É ele quem está à frente de três propostas que têm impacto direto no dia a dia de professores e alunos de uma das maiores redes de ensino municipal da América Latina: Escolas do Amanhã, Escola 3.0 e Educopédia, todas com foco na interface entre mídia, tecnologia e educação.

A revistapontocom convidou o subsecretário para responder algumas questões. Questões que envolvem teorias, currículos, visões de ensino e de responsabilidade e ética. Na entrevista, Rafael adiantou novidades, como a pesquisa que a Secretaria Municipal de Educação inicia no dia 19 de abril, em parceria com o Instituto Oi Futuro, o Instituto Paulo Montenegro e o Ibope, para radiografar a relação de alunos, professores e gestores com as novas tecnologias.

O bate papo também revela qual é o embasamento teórico que auxilia o professor no desenvolvimento dos projetos. Rafael Parente cita, por exemplo, as ideias de Henry Jenkins, autor do livro Cultura da Convergência.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é o papel das novas tecnologias na educação?
Rafael Parente
– As novas tecnologias estão mudando a forma como o cérebro funciona, como as pessoas se comunicam, pensam e se relacionam. Eu acredito que as novas tecnologias podem ajudar muito a melhorar a qualidade da educação, mas é importante que várias ações integradas aconteçam. É preciso entender como professores, diretores e alunos pensam e agem antes de se planejar novas ações. Várias pesquisas científicas indicam, por exemplo, que a utilização de computadores e da internet aumentam o interesse e a motivação dos alunos, que as tecnologias quebram barreiras de tempo e espaço e que a co-autoria e o compartilhamento de informações são facilitados. Eu entendo que exista hoje um grupo um pouco desconfiado, já que vários investimentos foram feitos, mas geraram pouco impacto na aprendizagem. Havia grandes promessas e a sensação de que a modernização da infra-estrutura traria um avanço educacional. As pessoas não levaram em conta que inovações só acontecem quando os envolvidos na ponta se sentem capazes e motivados para fazê-las. Outro problema levantado: as novas tecnologias não trariam novos resultados funcionando com processos antigos; era preciso criar novos procedimentos e sistemas. Não adiantava pegar uma mensagem do quadro e transferi-la para um computador sem preparar professores e diretores, mas foi exatamente o que aconteceu em alguns lugares. Além disso, quando pensamos nos objetivos da educação pública, fica ainda mais claro o quanto as tecnologias podem ajudar. Segundo a nossa Lei de Diretrizes e Bases, a educação pública deve desenvolver crianças e jovens por completo, formar cidadãos e preparar futuros profissionais. As novas tecnologias democratizam o acesso à informação, o que facilita o desenvolvimento integral do aluno. As últimas eleições para presidentes nos EUA e no Irã demonstraram como as tecnologias podem fortalecer o exercício da cidadania. Atualmente, quase todas as profissões já fazem uso de computadores e robôs. O mundo já é outro. As escolas já têm de lidar com nativos digitais. Como, então, pensar em uma escola pública que não entenda o ensino da utilização das novas tecnologias como algo importante?

revistapontocom – Como então integrar educação e tecnologia na formulação de políticas públicas educacionais?
Rafael Parente –
O grande desafio de todas as redes educacionais no mundo, hoje, é utilizar as mudanças causadas pelas novas tecnologias para repensar educação e fazer com que as TICs – tecnologias de informação e comunicação – nos levem a um processo de aprendizagem com mais qualidade. Em suma, acredito que as políticas públicas nessa área devem ser sustentadas pelos seguintes pilares:

1. Infraestrutura e manutenção: O ideal é que cheguemos a uma realidade em que cada aluno e professor tenha o seu netbook, tablet, ou qualquer outra ferramenta com que ele possa consumir, produzir e compartilhar conteúdos educacionais; Os espaços de aprendizagem precisam ser equipados com projetores e internet sem fio (os governos poderiam utilizar isenções de impostos para equipar escolas públicas mais rapidamente). A manutenção dessa nova infra demandará técnicos ou alunos e professores capazes de solucionar os problemas. É importante lembrar que os gestores devem repensar espaço e tempo a partir dessa nova realidade: atividades assíncronas e redes sociais precisam ser incluídas no processo de aprendizagem.

2. Capacitação: A diferença de pensamentos e atitudes relacionados à tecnologia entre professores e alunos não pode continuar crescendo. Hoje, grande parte dos alunos já entende mais de utilização das TICs do que os professores. O mestre precisa estar equipado com conhecimento suficiente para tirar o melhor proveito de computadores, internet, smartphones etc, reconhecendo, inclusive, que o seu papel mudou: como a quantidade de novas informações em qualquer área tende a se multiplicar em velocidade cada vez maior, o mestre deve ter humildade para deixar o papel de detentor do conhecimento para um papel de arquiteto de processos educacionais, buscando, com os alunos, as melhores fontes de informações e as melhores formas de aprender.

3. Filosofia pedagógica + sistema de gestão de aprendizagem + sistema de gestão acadêmica + redes sociais + conteúdo: Para cursos virtuais ou semi-presenciais, hoje utilizamos plataformas LMS como o Moodle. Acho que precisamos pensar em um Moodle com muito espinafre para dar conta de vários processos e que possa ser utilizado por alunos, professores, gestores, familiares, nas escolas, nas lan houses e em suas casas. Esse “sistemão” deve, em primeiro lugar, estar impregnado com uma filosofia pedagógica essencialmente brasileira, que inclua, em seus processos, valores e crenças que queremos estimular nas futuras gerações. Por meio desse sistemão, professores e alunos consumirão e produzirão conteúdos, compartilharão opiniões e conteúdos a partir de redes sociais, serão automaticamente avaliados em tempo real, de acordo com a sua utilização, e construirão seus portfólios eletrônicos, incluindo gráficos e tabelas que ilustrem o desenvolvimento de novas competências e habilidades e os conteúdos criados individualmente ou em grupo.

revistapontocom – De que forma essas reflexões estão presentes nas ações de sua subsecretaria?
Rafael Parente
– A subsecretaria de projetos estratégicos atualmente cuida de cinco programas da Secretaria Municipal de Educação do Rio, incluindo o Escolas do Amanhã, que foca a melhoria da aprendizagem nas 150 escolas do município situadas em áreas conflagradas e o Escola 3.0, que visa a melhoria da qualidade da educação através da modernização e informatização da rede. A secretária Cláudia Costin tem um discurso muito firme que é abraçado e reproduzido por todos da SME: não há absolutamente nada que façamos que não tenha como principal objetivo a melhoria da qualidade da educação pública do município. Essa é a nossa obsessão e é para isso que os programas são criados. O Educopédia é um projeto dentro do programa Escola 3.0, um tipo aprimorado do Reforço Digital. A partir dessa semana, os professores e alunos da rede já contam com o Reforço Digital, que pode ser acessado pela página da SME e também a partir de CDs que estão sendo distribuídos para as escolas. O Reforço Digital vai servir como alternativa para alunos que precisam de praticar mais o conteúdo apresentado em sala de aula, nos computadores das escolas durante o contraturno, por exemplo. As escolas podem emprestar os CDs para que os alunos façam cópias e os alunos podem acessar a página de qualquer lugar que tenha internet. Nessa primeira versão, o Reforço oferece 50 questões de múltipla escolha de cada ano (2º a 9º) e de cada disciplina (inicialmente apenas matemática e lingua portuguesa). O próprio sistema indica se a resposta enviada está correta ou não. O Educopédia, que será uma versão muito melhorada do Reforço Digital, incluirá vídeos, animações e jogos e é nossa meta inaugurá-la no 2º semestre.

revistapontocom – E de que forma esses projetos estão em diálogo com os professores?
Rafael Parente
– Ouvir e entender não só a realidade dos professores, mas de toda comunidade escolar é essencial para que um programa dê certo. Como já disse anteriormente, se não há vontade para implementar algo novo, o novo é descartado e esquecido. Por isso, todos os novos projetos, programas e ações criadas no nível central partem, na verdade, da demanda de professores e gestores. Essa demanda tem chegado até nós de várias formas – em visitas às escolas, através do Fala, Professor!, e-mails, Twitter etc. Quando achamos necessário, criamos um mecanismo mais estruturado para melhor entender a rede. Um exemplo disso é a pesquisa que faremos a partir do dia 19 de abril, em parceria com o Instituto Oi Futuro, o Instituto Paulo Montenegro e o Ibope. Essa pesquisa servirá para que tenhamos um mapa completo da rede com referência ao relacionamento de alunos, professores e gestores com as novas tecnologias. Essa ação é de grande importância para nós porque norteará os futuros cursos de capacitação da área e o desenho de outro programa: a Universidade do Educador Carioca, que deverá oferecer vários cursos semi-virtuais. Uma última observação é que várias vezes também solicitamos as opiniões de professores da rede ou a atuação direta deles na elaboração de novidades. O diário eletrônico, as provas bimestrais e o Educopédia foram e serão produzidos por nossos professores. Nings, blogs e fóruns, como os do Orkut, também são utilizados com essa finalidade.

revistapontocom – Qual é o embasamento teórico desses programas?
Rafael Parente –
Além de ouvir a nossa rede, procuramos saber qual a realidade e que soluções foram utilizadas em cidades, estados, ou até países que tiveram de lidar com situações semelhantes. A minha visão de políticas públicas para a integração entre tecnologias e educação, por exemplo, está muito alinhada com o que descreve esse artigo (em inglês), que relata o trabalho da empresa israelense Time to Know. As redes sociais e as tecnologias nos auxiliam muito nessa busca por soluções. Utilizando o Twitter, é possível formar uma rede de especialistas de várias partes do mundo que discutem temas do interesses específicos. Por meio da minha “rede pessoal de aprendizagem”, me atualizo e busco ajuda.

revistapontocom – De que forma o currículo das escolas municipais – a MultiEducação – está conectado ao desenvolvimentos desses projetos?
Rafael Parente
– Como eu já disse, tudo o que fazemos deve servir à melhoria da aprendizagem, ou seja, em favor do cumprimento dos currículos. Os programas são criados para que os currículos sejam cumpridos da melhor forma possível.

revistapontocom – Quais são os maiores desafios para a implantação dos programas e projetos de sua subsecretaria?
Rafael Parente
– Estou na rede há pouco tempo, mas estou muito impressionado positivamente com a recepção das pessoas em todos os níveis (escolas, CREs e nível central) de novas ideias. A meu ver, o meu maior desafio será fazer as coisas acontecerem passando por todas as burocracias e nós da máquina pública. Os problemas, muitas vezes, estão nos detalhes.

revistapontocom – Para encerrar, subsecretário, qual é o seu entendimento sobre midiaeducação?
Rafael Parente
– Gosto muito das ideias de Henry Jenkins e da sua tese de cultura de convergência. Ele defende três conceitos chave: 1) Convergência de mídias, que deve ser entendida como uma mudança cultural na qual aqueles que consomem informações passam a fazer conexões entre conteúdos midiáticos dispersos (em outras palavras, conectamos informações de coisas diferentes e recebidas de formas diferentes); 2) Cultura participativa, que diz que todas as pessoas e empresas agora produzem e consumem informações a partir de novas regras e de novas fontes; 3) Inteligência coletiva, que significa que a nova cultura emergente onde todos criam e consomem informações acontece mais nos cérebros e nas interações sociais e menos por meio de máquinas e instrumentos.

2 thoughts on “Política pública em midiaeducação

  1. Caros amigos, fiquei surpreso positivamente com o fato de termos um administrador público da área da educação com preocupações no sentido de tirar o ensino público do século XIX e traze-lo para o século XXI. A entrevista é academicamente perfeita faltando apenas uma pitada de investigação do que já acontece nas escolas da rede. Gostaria de sugerir a visita ao blog http://emcio-artigos.blogspot.com/ e quem sabe uma entrevista com a heróica coordenadora da escola. Parabéns a SME do RJ pela iniciativa e a Revista pontocom pela entrevista.

  2. Fico feliz de ler esta entrevista com o Subsecretário Rafael Parente, pois percebo que existe a vontade de transformação e melhoria na educação. Desejo sucesso na implantação dos projetos para o bem de educadores, e principalmente, para o bem maior das nossas crianças, adolescentes e jovens.

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