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A vez do jornalismo cidadão

1 comentário
13dez

Mario Lima Cavalcanti fala sobre o surgimento do jornalismo participativo 

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Por Priscilla Leite 

Eu, mídia – a era cidadã e o impacto da publicação pessoal no jornalismo é o nome do livro que o jornalista Mario Lima Cavalcanti acaba de organizar e publicar. Diretor executivo do site Jornalistas da web e professor de marketing móvel no curso de pós-graduação em gestão de marketing digital da FACHA, Mario pretende fazer com que os leitores reflitam sobre a nova ordem dos processos comunicacionais, com foco no jornalismo cidadão.

Segundo Mario, o jornalismo cidadão ou participativo está diretamente ligado à nova ordem dos processos comunicacionais, onde o receptor passar a ter o papel de emissor. “Estamos presenciando diversas mudanças culturais, que não propositadamente vieram para acabar com tradições”, analisa.

Para o jornalista e professor, neste novo cenário, os jornalistas e os cidadãos se complementam, coexistem a fim de um bem comum. “O conteúdo cidadão, mesmo aquele vídeo mais banal postado no YouTube, é a coisa mais bonita que já surgiu nos últimos anos”, comemora.

Acompanhe:

revistapontocom – Como podemos definir jornalismo participativo? Como ele surgiu e por quê? Ele está diretamente ligado ao acesso e à democratização das novas tecnologias, especialmente a internet?
Mario Lima Cavalcanti
– O jornalismo participativo ou jornalismo cidadão pode ser didaticamente definido como um estilo de jornalismo onde o cidadão participa, integralmente ou parcialmente, do processo de produção de notícias. É certo que o jornalismo participativo ganhou força com as potencialidades das novas mídias e com a popularização da internet e de recursos de captura e reprodução audiovisual, como telefones celulares, tocadores de MP3, gravadores portáteis e câmeras digitais.
 
revistapontocom – Podemos dizer que o jornalismo cidadão é fruto de uma nova relação que se estabelece, hoje, entre a sociedade e a informação?
Mario Lima Cavalcanti
– Sem dúvida. O jornalismo participativo está diretamente ligado à nova ordem dos processos comunicacionais, onde o receptor passar a ter o papel de emissor. Estamos presenciando diversas mudanças culturais, que não propositadamente vieram para acabar com tradições. Aquela cultura de anos atrás, de a família parar tudo no horário nobre para todos sentarem no sofá e assistirem juntos à televisão, é algo que não vemos mais com tanta força. E isto ocorre por diversos motivos. A velocidade do cotidiano mudou; as ofertas de informação são maiores; e muitas pessoas preferem buscar e interagir com o conteúdo em vez de simplesmente recebê-lo.
 
revistapontocom – Vivemos um novo tipo de jornalismo? O jornalismo tradicional de décadas atrás está acabando?
Mario Lima Cavalcanti
– Prefiro dizer que presenciamos novos ingredientes, novos canais e novos recursos na prática do jornalismo. Tanto os cidadãos quanto os jornalistas, mesmo os das redações de jornais mais arcaicas, se beneficiam hoje de recursos que, quase que imperceptível, se infiltraram em nossas vidas. Sistemas de busca, comunicadores instantâneos, sites de redes sociais, telefonia via internet, mini dispositivos de armazenamento de informação (cartões de memória, pen drives etc.) e os já mencionados aparelhos pessoais de captura e reprodução audiovisual são diariamente úteis no processo de construção de notícias, que serão publicadas por jornalistas ou por pessoas comuns.

revistapontocom – Neste sentido, todos os cidadãos podem ser jornalistas? Qual é o lugar do profissional da área?
Mario Lima Cavalcanti
– Todos os cidadãos são potencialmente produtores de informação e de conteúdo. Não podemos esquecer que um jornalista profissional que aprendeu técnicas próprias do ofício, que envolvem apuração, confirmação de fonte, checagem de informação, revisão, redação e por aí vai. Isso, obviamente, na teoria. Os jornalistas e os veículos de comunicação, com toda a certeza, não são donos da verdade. E, assim como em todos os ofícios, existem indivíduos profissionalmente incapacitados. Em contrapartida, vejo algumas pessoas que não são jornalistas, mas que possuem, digamos, um senso de apuração, um senso jornalístico magnífico. Quanto ao lugar do profissional da área, vale lembrar que uma das principais funções do jornalista é fazer a informação chegar sem ruído até o receptor. Um novo papel do jornalista profissional, nesse contexto de jornalismo cidadão, é o de mediador. Ele vai continuar produzindo informação, mas ele, trabalhando em um veículo cidadão ou que cede um certo espaço exclusivamente para o público, ganha a importante função de classificar e de organizar o que é apresentado pelo público. No fim das contas, continuará fazendo o que sempre fez, mas agora tendo os cidadãos como novas fontes. Quando falamos em jornalismo cidadão, é importante refletirmos que um não anula o outro. Os jornalistas e os cidadãos se complementam. Estão aí para coexistirem a fim de um bem comum. Na maioria das vezes, os cidadãos são excelentes capturadores de informação, algo a ser fortemente aproveitável, e os jornalistas são excelentes organizadores dessas informações.

revistapontocom – Quem ganha com a implantação do jornalismo participativo?
Mario Lima Cavalcanti
– Os jornalistas, os cidadãos, toda a sociedade. Os veículos podem chegar aonde não chegavam antes. O mundo todo passa a ter acesso a informações que não tinham antes. Novamente, é bom termos em mente que os cidadãos, como produtores de informação em grande escala, chegaram para coexistirem com os profissionais de jornalismo. As notícias, antes publicadas nos jornais e vendidas como se fossem a janela do que acontece no mundo, passam a ser veiculadas ao lado de outras. O conceito de janela do mundo vai por água abaixo, mas por um bom motivo, que interessa a todos.

revistapontocom – O jornal O Globo vem investindo pesado neste jornalismo colaborativo e participativo? Espalhou outdoors e anúncios convidando a população a participar, fotografando e opinando. O que isto significa?
Mario Lima Cavalcanti
– O Globo está, sem dúvida, estimulando e convidando a população para contribuir com aquela informação que muitas vezes só ela tem acesso: flagras, denúncias e notícias de uma comunidade distante ou prejudicada. É um bom trabalho em prol do jornalismo participativo. A campanha “mais que um jornal de papel”, forte na cidade do Rio de Janeiro, utilizou praticamente todos os tipos de espaços publicitários convencionais e alternativos: outdoors, jornais, revistas, televisão, mobiliários urbanos, painéis digitais em shoppings e aeroportos etc. Isso foi muito lúcido. Quando um veículo faz uma manobra como essa, ele está reconhecendo a importância da sociedade como produtora de informação. Ele sabe que tem muito a ganhar com o que é registrado pelas pessoas, sem contar que isso amplia o seu papel de responsabilidade social. Existe também um lado comercial, empreendedor, astuto em toda essa história. Pessoas fazendo registros em grande escala já é um cenário comum em todo o mundo. Está acontecendo. E os veículos não iriam ficar fora dessa.

revistapontocom – O jornalismo participativo é um caminho sem volta? O que virá depois disso?
Mario Lima Cavalcanti
– Se voltássemos, voltaríamos para onde? O jornalismo participativo não é um hype. Ele veio para acrescentar muito na vida de todos. Entretanto, como em grande parte de todo novo cenário de expressão massiva, a poeira tende a baixar e aos poucos se configurará em um processo de seleção natural dentro desse novo universo de informação, o do conteúdo cidadão, que já veio na cola do também gigantesco universo da informação online. É preciso, como já dito, organização, apuração, ética, respeito, todos esses atributos pregados pela boa prática do jornalismo. O conteúdo cidadão, mesmo aquele vídeo mais banal postado no YouTube, é a coisa mais bonita que já surgiu nos últimos anos.

revistapontocom – O que os leitores encontrarão no seu recente livro Eu, Mídia, organizado pelo senhor?
Mario Lima Cavalcanti –
O livro Eu, Mídia busca fazer com que as pessoas reflitam justamente sobre essa nova ordem dos processos comunicacionais. O subtítulo A era cidadã e o impacto da publicação pessoal no jornalismo coloca em primeiro plano o papel dos cidadãos como produtores de informação. É uma obra que mostra, com muitas referências e exemplos, a importância do jornalismo cidadão, mas sem protecionismo ou romantismo. Cada capítulo foi escrito por um jornalista com perfil de pesquisador e que de alguma forma está envolvido com projetos de conteúdo cidadão. Temos no livro nomes de peso no jornalismo online brasileiro, como Pollyana Ferrari, Raphael Perret e Raquel Recuero. Cada capítulo busca tratar o jornalismo cidadão de um ângulo diferente: um fala sobre a relação do jornalismo cidadão com os telefones celulares; outro aborda o conteúdo cidadão nas redes sociais; já outro fala sobre o poder dos blogs como proliferadores de informação; e por aí vai.

Um comentário sobre... “A vez do jornalismo cidadão

  1. Estou fazendo meu tcc de jornalismo e faço a seguinte pergunta.

    Qual a importância da fotografia digital no jornalismo participativo?

    Existe a possibilidade de haver interesses economicos por de trás dessa suposta democrática liberdade de expressão do receptor?

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