As aventuras dos neurônios

“As informações selecionadas só serão armazenadas se vierem acompanhadas de elementos de interesse, utilidade, carga afetiva e outras características”, Roberto Lent

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Por Marcus Tavares

Roberto Lent é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde chefia um laboratório de pesquisa. Laboratório é um lugar onde se fazem experiências científicas para descobrir os segredos da natureza. No laboratório dele trabalham cerca de 12 alunos, dois professores e dois técnicos, todos eles interessados em saber como e sobre o quê conversam os neurônios do cérebro. Fora isso, tem quatro filhos que já passaram da época de ler o Zé Neurim, gosta de nadar de manhã cedo, e torce pelo Fluminense do Rio de Janeiro…

É desta forma  que o professor Roberto Lent apresenta-se aos leitores, dos 7 aos 12 anos, em cada um dos cinco livros da coleção Aventuras de um neurônio lembrador (Editora Viera & Lent). Em cinco histórias, Roberto, o cientista, conta as trapalhadas do neurônio Zé Neurim e de sua turma, que moram no cérebro do menino Pedro Tiago Irineu Xavier, o Ptix. Toda vez que Ptix pensa, briga, anda, vê televisão, faz o dever da escola e outras coisas, o Zé Neurim e seus amigos ficam conversando, trabalhando e operando dentro do cérebro do garoto.

conheça a sinopse de cada livro

O objetivo da coleção é ensinar alguns conceitos fundamentais da neurociência para as crianças, de um modo diferente, atraente e lúdico. Voltado para o público infantil, os livros também trazem, na última página, informações para os pais e professores sobre os conteúdos que foram abordados por cada obra. Em tempos em que cresce o número de publicações sobre as potencialidades do cérebro e como é possível maximizar suas funções, a revistapontocom conversou com o autor sobre a produção.

Acompanhe:

revistapontocom – Por que escrever um livro sobre as funcionalidades do cérebro para as crianças? Qual é o objetivo da coleção?
Roberto Lent –
O importante é escrever sobre ciência para crianças, especialmente para estimular seu espírito indagador e para desmitificar a ciência como “coisa de gênios e de excêntricos”. As crianças precisam saber que elas também podem ser cientistas! Escrevo sobre o cérebro porque é o que sei e o que faço. Gostaria que todo cientista tentasse também escrever sobre sua disciplina para as crianças.

revistapontocom – Qual é a importância de se conhecer, desde cedo, as funções cerebrais?
Roberto Lent
– Como mencionei acima, não é particularmente mais importante do que conhecer como funciona o coração, como o meio ambiente interage com os seres humanos, de que é feito o sol… O importante é passar para as crianças um pouco do método científico, o hábito de fazer perguntas à natureza e a noção de que a ciência é um barato, um grande prazer.

revistapontocom – Como as crianças interpretam o livro? O senhor já teve algum retorno delas ou de escolas?
Roberto Lent
– Observo que o que as crianças mais gostam dos meus livros é o jeito gaiato dos neurônios. Isso significa que a aridez, que muitas vezes os temas científicos têm, pode ser contornada com um pouco de humor. Além disso, as aventuras em que os neurônios-personagens se metem são temas do cotidiano das crianças, o que torna o assunto do livro menos esotérico e mais fácil de apreender.

revistapontocom – Cresce o número de publicações de auto-ajuda que mostram de que forma é possível maximizar as potencialidades do cérebro. Conhecendo as funcionalidades do cérebro é, realmente, possível treiná-lo desde cedo?
Roberto Lent
– Há mais especulações do que fatos científicos sobre isso. Conceitualmente, o cérebro é um órgão como todos os outros e por isso se beneficia do “exercício”. Quem usa bastante o cérebro, o desenvolve mais e o otimiza mais ao ambiente. Mas as interações do cérebro com o ambiente são tão complexas que o “treinamento” não é algo tão simples quanto o exercício muscular.

revistapontocom – O fato de as crianças das atuais gerações estarem mergulhadas, ainda bebês, a estímulos audiovisuais de tudo o que é tipo (televisão, computadores, games, celulares, câmeras…) pode causar alguma mudança nas funcionalidades cerebrais?
Roberto Lent
– Certamente as estimulações sensoriais e mentais, abundantes dos tempos atuais, influenciarão as crianças de modo diferente das crianças do passado. Sou otimista e tendo a achar que isso é bom, pois permite desenvolver melhor as potencialidades individuais de cada criança. Mas há o risco de que o excesso de informações possa causar problemas. É preciso aprender também a selecionar, filtrar. Quem não consegue fazer isso se afoga em um excesso de dados e perde a capacidade de processá-los adequadamente.

revistapontocom – Os conhecimentos da ciência sobre as potencialidades do cérebro podem interferir na criação das crianças? De que forma? Quais são as implicações, as consequências?
Roberto Lent
– Sem dúvida o conhecimento da plasticidade cerebral, seus mecanismos, possibilidades e limites, podem permitir um melhor controle das técnicas educacionais. Aprender, atualmente, é saber filtrar o que interessa do que não interessa, em meio à floresta de informações que recebemos todos os dias. As informações selecionadas só serão armazenadas se vierem acompanhadas de elementos de interesse, utilidade, carga afetiva e outras características. Já sabíamos isso intuitivamente, mas agora temos maiores detalhes porque conhecemos os mecanismos cerebrais de armazenamento da memória.

revistapontocom – Os conhecimentos da ciência sobre as potencialidades do cérebro e da genética podem criar seres humanos perfeitos?
Roberto Lent
– Não haverá seres humanos perfeitos, porque a interação da genética com o ambiente tem um elemento de incerteza e aleatoriedade que impossibilita qualquer previsão. A perfeição é um limite inatingível, um objetivo do qual tentamos nos aproximar indefinidamente, sem nunca alcançá-lo.