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Música, audiência e valores

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20nov

“A maneira com que a música é comercializada, nos dias de hoje, facilita a não informação, o não crédito, o não autor”, Fernanda Abreu

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Por Marcus Tavares

Um apresentador, um júri e uma plateia. Em foco: candidatos que soltam a voz em busca da fama e do sucesso. A velha fórmula – música + televisão – nunca saiu de moda. É bem verdade que os antigos shows de calouros foram substituídos, em grande parte, pelo modismo dos reality shows. Mas o objetivo é o mesmo.

Por que música e televisão sempre fizeram sucesso na TV? De que forma esses programas contribuem para a área? Num mundo digital, qual é o lugar dos artistas e como é que fica a comercialização das produções? As questões são mais complexas do que se imagina. Elas envolvem novos hábitos, acesso, democratização dos meios de produção e direitos. A revistapontocom conversou com a cantora e compositora Fernanda Abreu sobre o tema.

Vale a pena conferir:

revistapontocom – Do show de calouros do Bolinha, Silvio Santos e Chacrinha aos reality shows de hoje, por que a música desperta interesse de pessoas de diferentes contextos sociais e atrai tanto a audiência?
Fernanda Abreu
– A música brasileira talvez seja a maior expressão da cultura popular do Brasil. Mais até que o futebol, considerando o futebol como arte e cultura. Todo brasileiro tem orgulho da nossa música. Por ser muito rica e diversa, ela se comunica com todos os cidadãos do país, de diferentes classes sociais, faixas etárias e regiões. É um grande instrumento de comunicação do povo. Ao mesmo tempo, esse tipo de programa [os reality shows] revela a necessidade humana de observar o outro. É estudo antropológico de massa e para a massa.

revistapontocom – Por isso, a música está presente em todos os programas de televisão…
Fernanda Abreu
– A TV ainda é o grande veículo para a divulgação de artistas da área de música e da própria música em si. É claro que o conceito do programa ou o artista convidado dita o gênero musical que se quer vender. O que constato é que, cada vez mais, há programas com perfil popular. Sinto falta de programas de música na TV que apresentem outros sons e novos talentos nos mais variados gêneros musicais. Adoraria que a TV ampliasse o repertório do povo brasileiro. Os reality shows de música, por exemplo, replicam mais do mesmo em termos de repertório. E quando revelam um novo cantor não significa que estão revelando um novo artista, pois sabemos que muitos podem cantar, mas nem todos são artistas de fato.

revistapontocom – No ambiente cada vez mais colaborativo da internet, você acha que hoje é mais fácil se lançar no mercado?
Fernanda Abreu
– Estamos num momento de transição, no qual ainda não sabemos responder essa pergunta. Mas, com certeza, a construção de grandes ídolos de música pop não será mais como antes. Acho que Michael Jackson e Madonna, por exemplo, foram os últimos ícones no formato “rei” ou “rainha” do pop. Hoje é mais fácil se tornar um ídolo no seu bairro! A internet e os estúdios caseiros possibilitaram a divulgação da música feita por milhares de pessoas talentosas, mas isso não significa que todos terão seu lugar ao sol dentro da indústria. Atualmente, o mercado de música é gigantesco, a competitividade enorme e a velocidade com que os artistas aparecem e desaparecem atropela o tempo que esse artista precisaria para construir uma carreira sólida e bem sucedida. Essa facilidade de se lançar – ou de lançar uma música na internet sem depender da indústria fonográfica – pode parecer democrática, mas, se não tiver consistência e trabalho árduo, pode ser cruel e cansativa.

revistapontocom – Pegando ainda o gancho da internet, a impressão que se tem é que a música está mais acessível. E, além disso, ela parece ser um material bruto ao alcance de qualquer um para ser recriado. Temos ao nosso dispor, basta um download, uma infinidade de gêneros e tendências musicais. Um novo mundo?
Fernanda Abreu
– Desde os anos 70, Yoko Ono [cantora, artista plástica e viúva de John Lennon] já dizia que as coisas estavam no mundo para serem usadas e recriadas. No fim dos anos 80, surgiu o sampler, um instrumento que institucionalizou essa prática na música. Nós brasileiros já estamos acostumados – desde sempre – a produzir cultura dessa maneira, ou seja, antropofagicamente. Não acredito em arte pura no sentido da não contaminação pelo que já foi feito anteriormente. Toda produção artística trabalha com referências. Mas isso não quer dizer que não possamos criar algo novo e autêntico a partir dessas referências. O que acontece hoje é que cada vez se valoriza menos o conhecimento da origem dessas referências e desses samples. Trabalhamos de maneira mais superficial e menos culta. A maneira com que a música é comercializada, nos dias de hoje, facilita a não informação, o não crédito, o não autor. Isso é confundido com democratização dos meios de produção.

revistapontocom – Você está se referindo à pirataria?
Fernanda Abreu
– Existe a democracia dos meios de produção, os inúmeros estúdios ao alcance de todos, onde as músicas são produzidas, e a democracia no consumo de diversos gêneros musicais. Nestes dois sentidos avançamos bastante. Basta pensarmos que, antigamente, os compositores de música erudita criavam apenas para uma elite e que no início da indústria fonográfica só eram comercializadas músicas gravadas (e artistas lançados) em seus próprios estúdios. Chegamos a um nível bem mais democrático de produção musical e de consumo. O problema é que, atualmente, o consumo se dá basicamente por meio da pirataria e dos downloads gratuitos. Portanto, como sustentar essa cadeia produtiva? Como produzir sem comercialização formal? Acho que a questão é: como equalizar isso tudo? Afinal nunca se ouviu tanta música como nos dias de hoje ao mesmo tempo em que seus criadores (artistas, músicos e produtores) estão completamente à deriva. Uma das inúmeras possibilidades seria que os portais ou sites – que utilizam essas músicas, videoclipes, os conteúdos artísticos – reservassem um pagamento para quem os produziu. Afinal eles estão ganhando dinheiro apenas veiculando-os.

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