Orkut: que história é essa?

“Nós professores não podemos desconhecer estas ferramentas. Elas fazem parte do dia-a-dia dos jovens e temos que usá-las ao nosso favor”, Regina Viegas

Professora do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-Rio), Regina Viegas trabalha com o Orkut, desde 2006, nas aulas em que ministra na instituição. O projeto A utilização das novas tecnologias virtuais na educação surgiu da necessidade de conhecer mais sobre a ferramenta que tanto mobiliza os jovens. “O Orkut é uma realidade que veio para ficar. Hoje em dia, é difícil encontrar um jovem que não tenha o seu perfil no Orkut”, destaca Regina.

Para a professora, os educadores não podem desconhecer a importância das novas tecnologias. “Vivemos num mundo de constantes mudanças e inovações. Enquanto os jovens esstão dia-a-dia neste processo, a escola não consegue acompanhar o ritmo, muitas vezes frenético e veloz”, avalia.

Confira a entrevista concedida pela professora Regina Viegas:

revistapontocom – O Orkut  acaba de completar cinco anos no Brasil. Como a senhora avalia a inclusão do Orkut no dia-a-dia de tantos jovens?

Regina Viegas
– O Orkut é uma realidade que veio para ficar. Hoje em dia, é difícil encontrar um jovem que não tenha o seu perfil no Orkut. Na minha pesquisa, verifiquei que muitos jovens estão inclusive substituindo o e-mail pelos scraps ou testemunhos no Orkut. Eles dizem que, já que estão logados, preferem mandar mensagens sem precisar abrir a conta de e-mail. Muitos também costumam usar o Orkut como um MSN (para mensagens instantâneas). O Orkut então acabou abrangendo áreas como e-mail, comunicador instantâneo, ferramenta de busca, ponto de encontro, entre outras funções. Não podemos ser maniqueístas e rotular o Orkut como bom ou ruim. Como eu disse: o Orkut é uma realidade e devemos lidar com ela. Inclusive devemos aproveitar o que a ferramenta tem para nos oferecer do ponto de vista educacional.

revistapontocom – A senhora acha que é possível aliar o Orkut à sala de aula? O Orkut pode, de fato, auxiliar a aprendizagem?
 
Regina Viegas
– Acho plenamente possível. Inclusive meu projeto de pesquisa procura exatamente estudar de que forma é possível aliar o Orkut e outras ferramentas virtuais à educação. O Orkut já se mostrou uma ferramenta muito útil na sala de aula. Na minha pesquisa, mostro que os alunos podem criar comunidades de discussão sobre temas pedagógicos, podem usar os tópicos para propor novas idéias, podem pesquisar sobre assuntos acadêmicos etc. Temos, inclusive, uma experiência de um grupo de alunos do Ensino Médio. Eles criaram uma comunidade no Orkut para discutir a questão dos blogs pedagógicos. O sucesso foi tanto que pessoas de outros estados brasileiros entraram na comunidade e hoje se comunicam por meio do MSN e de outros canais. Temos também comunidades criadas por professores que postam notas e conteúdos de sua disciplina, o que acaba servindo como material didático para outros professores, inclusive do exterior. Ao longo destes três anos de pesquisa, verifiquei os múltiplos usos educacionais do Orkut.
 
revistapontocom – Mas a senhora também desenvolve um projeto com seus alunos no Cefet? Como funciona a proposta?

Regina Viegas – O projeto A utilização das novas tecnologias virtuais na educação vem sendo desenvolvido desde 2006 e está inserido no Núcleo de Aplicação de Novas Tecnologias na Educação, do qual sou pesquisadora e coordenadora. O projeto conta com bolsistas de Iniciação Tecnológica e é cadastrado no CNPq. Na verdade, ele surgiu da necessidade de conhecer mais sobre esta ferramenta que tanto mobiliza os jovens. Num primeiro momento, foi aplicado um questionário para apurar como os jovens viam estas ferramentas. Cerca de 89% dos jovens tinha Orkut. Os que não tinham sofriam certa discriminação e se sentiam como verdadeiros “párias digitais”. A partir daí, uma série de atividades foi desenvolvida com todos os alunos. Propusemos, por exemplo, que os estudantes criassem comunidades no Orkut para discutir temas gerais – como cotas no vestibular, aborto, globalização e legalização da maconha – que participassem de fóruns de debates no Orkut e realizassem pesquisas sobre assuntos tratados em aula. Da minha parte, eu criei uma comunidade, onde posto os conteúdos da disciplina, as notas e comentários sobre as aulas. Ao mesmo tempo, criei também uma rede de relacionamento, na qual eu, os alunos e outros professores debatemos, por exemplo, questões de vestibulares.

revistapontocom – Quais são as dificuldades de trabalhar com o Orkut na sala de aula?

Regina Viegas – A maior dificuldade é que muitas escolas ainda não possuem computador ligado à internet. No Cefet, que possui tal recurso, a maior dificuldade é limitar o tempo no Orkut. Se deixar, os alunos ficam mais de cinco horas plugados. Também perdem muito tempo bisbilhotando a vida alheia. Mas quando se concentram nos tópicos de discussão, são criativos e se expressam bem. Aliás, uma das maiores virtudes que vejo no Orkut é o fato de ele oferecer diversos canais de expressão para os jovens, seja por meio da criação de comunidades, enquetes, bate-papo etc. Uma outra coisa bem positiva: por meio do Orkut, os jovens também se mobilizam por causas nobres. Meus alunos já mobilizaram várias pessoas, promovendo campanhas de cunho social. Já houve arrecadação de alimentos para uma campanha contra a fome e também uma outra campanha incentivando a doação de sangue. Nesta, apareceram jovens inclusive de outros municípios do Rio. 

revistapontocom – De uma forma geral, a senhora acha que o professor já reconhece o ambiente digital como uma ferramenta potencial para educar os alunos?

Regina Viegas – Não. Ao contrário, num primeiro momento o professor acha que o ambiente digital é um perigo ou algo que pode ameaçá-lo. Mas é um ledo engano uma vez que as possibilidades do ambiente digital são inúmeras. Em vez de ameaçar o professor, este ambiente pode, na prática, ajudá-lo. É só saber como.
 
revistapontocom – A senhora acha que as potencialidades da web (rede sociais, ferramentas de wiki, redes de relacionamento) concorrem com a sala de aula ou, na verdade, podem complementar as atividades?

Regina Viegas – Sem dúvida podem complementar. E complementam, querendo ou não o professor. Quantos de nós, professores, não nos deparamos com alunos que pesquisaram na Wikipedia? Nós, professores, não podemos desconhecer estas ferramentas. Elas fazem parte do dia-a-dia dos jovens e temos que usá-las ao nosso favor. Vivemos num mundo de constantes mudanças e inovações. Enquanto os jovens acompanham dia-a-dia este processo, a escola não consegue acompanhar o ritmo, muitas vezes frenético e veloz. Muitos estudos apontam para o desinteresse do estudante pelo ambiente escolar. Certa vez, um professor disse que, se uma pessoa da Idade Média pudesse voltar aos dias atuais, uma das coisas que ele reconheceria, como algo que não mudou, seria a escola. Será que a escola deve permanecer exatamente como no passado? Como absorver criticamente estas mudanças do mundo moderno sem perder a essência? São questões que se colocam para os educadores e que só podem ser respondidas se os mesmos tiverem a mente aberta ao novo e ao que a juventude utiliza no seu cotidiano. Não se trata de uma tarefa simples, uma vez que a atualização dos profissionais da educação não conta com incentivos, porém é uma tarefa necessária. Se a utilização destas ferramentas virtuais pode ser um instrumento de ajuda para o professor e pode despertar no estudante um estímulo para o processo de aprendizagem, por que vamos abrir mão destas ferramentas?