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Quem diria: Monteiro Lobato em debate

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17nov

“Sem ler Lobato na infância são menores as chances de se fazer da leitura uma experiência de muita beleza e encantamento”, destaca Flávia Lobão.

 

Por Marcus Tavares

O Conselho Nacional de Educação (CNE) informou, na última semana, que vai rever o parecer que orientava que o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, não fosse distribuído a alunos e professores da rede pública de ensino do país, por considerá-lo racista.

“O CNE reafirma seu compromisso com a defesa da mais ampla liberdade de produção e de circulação de ideias, valores e obras como máxima expressão da diversidade e da pluralidade ideológica, estética e política no regime democrático vigente em nosso país. Consequentemente, repudia e combate toda e qualquer forma de censura, discriminação, veto e segregação”, destaca trecho da nota divulgada pelo órgão.

Embora tenha se retratado, o fato é que o colegiado do CNE tinha aprovado por unanimidade o parecer contrário a obra, elaborado a partir de denúncia da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que enfatizava que o livro trazia frases racistas. Publicado em 1933, o livro de Monteiro Lobato, um dos maiores nomes da literatura infantil brasileira, narra as aventuras da turma do Sítio do Pica-Pau Amarelo em busca de uma onça-pintada. Segundo o CNE, os traços racistas da obra estariam na forma como o autor se refere à personagem Tia Anastácia, que é negra, e a alguns animais, como o urubu e macaco.

De acordo com Nilma Lino Gomes, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autora do parecer, o livro deveria ser banido das escolas ou só poderia ser adotado caso a obra fosse acompanhada de nota sobre os “estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos raciais na literatura”.

A revistapontocom conversou sobre o assunto com a mestre em Educação, Flavia Lobão, professora da Escola Sá Pereira e do Centro de Educação Superior a Distância – Cederj/Unirio. Para ela, “é provável que muitas pessoas que reproduzem esse discurso em torno do Lobato tenham lido pouco a sua obra e desconheçam sua biografia. É lamentável que isso aconteça nas escolas públicas porque teremos mais uma restrição, enquanto aqueles estudantes que têm outras possibilidades de acesso continuarão lendo Lobato”.

Acompanhe:

revistapontocom – Como você avalia o parecer do Conselho Nacional de Educação?
Flavia Lobão –
Acho que os professores deveriam, em primeiro lugar, ler, conhecer, a obra de Lobato para, então, se posicionarem diante desta questão. Não devemos ser favoráveis à censura de alguma coisa que mal conhecemos, julgando e fazendo interpretações superficiais. É provável que muitas pessoas que reproduzem esse discurso em torno do Lobato tenham lido pouco a sua obra e desconheçam sua biografia. É lamentável que isso aconteça nas escolas públicas porque teremos mais uma restrição, enquanto aqueles estudantes que têm outras possibilidades de acesso continuarão lendo Lobato. O que precisamos pensar, como professores, é: o que os estudantes perdem quando deixam de ler Lobato? Qual é a experiência sensível com a Literatura que queremos proporcionar?
 
revistapontocom – Mas chamar a Tia Nastácia de “negrinha de estimação” não seria, nos dias de hoje, uma forma extremamente preconceituosa, um crime inclusive?
Flavia Lobão –
O fato dessa frase ou outra ter uma conotação preconceituosa não pode reduzir o autor como um cidadão racista. Frases desse tipo não refletem de modo algum o conjunto da obra, que é vastíssima. Precisamos fazer disso um momento de discussão/reflexão com os alunos. Obviamente, Lobato era um homem de seu tempo e naquele contexto histórico, com a abolição, o que tinha acabado era a legalização da escravidão, mas isso não muda a mentalidade, a subjetividade, das pessoas de uma hora para outra, nem a do senhor, nem a do escravo. Em algumas situações, existiam laços construídos entre eles, especialmente, quanto aos escravos que realizavam o trabalho doméstico. Isso é muito exemplar no caso de Tia Nastácia. Mas, é importante perceber que a postura da personagem não é de submissão, ao contrário, ela é atuante naquele contexto do Sítio, tem poder de argumentação e decisão, participa de uma série de aventuras, criou a grande personagem, que é a Emília. Temos, ainda, outros personagens negros, como o Tio Barnabé, valorizado pela sua sabedoria, é o importante conselheiro; o saci, perspicaz, com uma atuação decisiva em uma série de situações. Como homem de seu tempo, Lobato enxergou “longe”. Bons exemplos disso estão no livro Emília no País da Gramática, em 1934, o autor já discutia o preconceito lingüístico. Ou em História das Invenções, quando denuncia “o trabalho penoso de um punhado de escravos” e defende que a maior das invenções humanas seria um sistema social em que todos tenham de tudo. Sobre a escravidão, fez denúncias contundentes em seu conto Negrinha e polemizou a segregação racial no romance O presidente Negro. E outra coisa: o preconceito será “atenuado”, se, proporcionando momentos de leituras mais coletivas, o professor for capaz de colocar a obra na centralidade e com amizade ler com, aprender com…

revistapontocom – Portanto, a obra de Lobato é muito mais rica do que se pensa e carregada de valores para as crianças?
Flavia Lobão –
Sem dúvida. E o valor de Lobato está no respeito incondicional à infância, no desenvolvimento do gosto pela boa literatura – aquela que sempre tem algo a nos dizer, a cada vez que relemos. O valor está no apreço pela escrita, em sua dimensão estética e desafiadora. Sem a literatura de Monteiro Lobato, as crianças estariam sendo privadas de se identificarem como atores e autores de suas narrativas, de suas histórias, de suas invenções, como são as crianças do Sítio. Naquele contexto, as crianças são, fazem, pensam, discutem, criam, não há espaço para uma ideia de infância como vir a ser. Sem ler Lobato na infância são menores as chances de se fazer da leitura uma experiência de muita beleza e encantamento.

Um comentário sobre... “Quem diria: Monteiro Lobato em debate

  1. De tanto ler a respeito da proibição do conto de Monteiro Lobato, “Caçadas de Pedrinho”, resolvi demonstrar minha indignação, usando palavras. Como Pedagoga, lamento muito o ocorrido. A alegação para o tal veto se dá ao fato de, em alguns capítulos, o autor, nada mais nada menos que MONTEIRO LOBATO, o precursor da literatura infantil no Brasil, referir-se à personagem Tia Nastácia de forma preconceituosa.

    Vamos lá, o que fazer, primeiramente, com as contextualizações históricas de todos os escritos mundiais? Ignorar o momento histórico ao qual foram escritos? Se assim se pensar, devemos dar adeus à própria História, pois as leituras e análises devem ser feitas sempre com um olhar para sua época. A sociedade precisou de muitos e muitos anos para se despir (ou tentar se despir) de preconceitos e demais agressões inculcadas por tanto tempo, por tantos fatos e vivências históricas. Na época em que foi escrito o livro, houve alguma contestação? Foi considerado preconceito racial? Pensemos.

    Segundamente, analisemos o cenário do “Sítio do Pica-pau Amarelo”, principalmente nós, os que cresceram lendo e ouvindo os contos de Lobato. Lembro-me da maneira divertida e carinhosa a que se referia a todos os personagens, inclusive a Tia Nastácia, demonstrando sempre o carinho maternal que tinha com todos da casa. Ela não era ‘colocada’ nas histórias como uma pessoa desprezada, muito pelo contrário, era valorizada e respeitada. Isto também deve ser levado em consideração. Não se deve ler uma frase ou outra isoladamente, desconectada de seu contexto.

    Em terceiro, me fazem pensar que tudo aquilo que hoje é considerado ‘agressivo’ de alguma forma, mas que fizeram e fazem parte de escritos de outros tempos, deva ser proibido ou mesmo reformulado nos moldes do que pensam os que sugeriram a proibição da história de Monteiro Lobato. Uns exemplos? Vejamos, o que dizer do ‘preconceito social’ agregado ao nome de um dos personagens de “A Dama e o Vagabundo”? E as tentativas de assassinato na historinha da Branca de Neve? E o abandono de incapazes em “João e Maria”, bem como o canibalismo sugerido pela bruxa? E o cárcere privado ao qual Rapunzel era submetida? E a máxima do momento: o bullying ao qual o Patinho Feio sofreu em quase toda a sua existência?

    Apenas chego a uma conclusão: o que incomoda, por uma razão ou por outra, deve ser debatido / questionado / analisado em sala de aula, remetendo a literatura do passado aos nossos dias. Entendendo que a época, o contexto cultural e a localização espacial também fazem parte do texto e, a partir daí, fazer paralelos com a nossa realidade.

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