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Telenovela: muito mais do que ficção

4 comentários
14mar

“Estudos das áreas da psicologia e antropologia comprovam que não podemos viver sem uma boa dose diária de ficção”, Mauro Alencar.

mauro-alencar

Por Marcus Tavares

Em novembro do ano passado, Mauro Alencar, doutor em Teledramaturgia Brasileira e Latino-Americana, pela Universidade de São Paulo, representou o Brasil durante a VIII Cúpula Mundial da Indústria da Telenovela e da Ficção. Autor de livros sobre o tema, Mauro é membro da Intercom (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação) e da Associação Latina Americana de pesquisas em comunicação, bem como da Latin American Studies Association.

Novela é com ele mesmo. Pesquisador sobre o tema, Mauro é uma das referências nacionais. Em entrevista à revistapontocom, Mauro analisa a função que a narrativa audiovisual adquiriu no Brasil. Traça os marcos da teledramaturgia brasileira e defende a programação – educativa e cultural – das emissoras brasileiras.

Confira a entrevista:

revistapontocom – Telenovelas brasileiras: que fenômeno social é este?
Mauro Alencar
– É um fenômeno que tem suas origens nos folhetins do século XIX, passando pela radionovela e encontrando, na televisão, o melhor veículo para dialogar com as mais variadas classes sociais de um país inteiro. Neste aspecto, a telenovela tornou-se uma tribuna para a sociedade. É por meio de suas tramas que um assunto já existente é legitimado (a clonagem, por exemplo, em O Clone) e oficializado (a aprovação do Estatuo do Idoso pelo Congresso Nacional – Mulheres Apaixonadas). Tudo isto se deve, inicialmente, à inquietude de nossos novelistas em utilizar fatos ocorridos na sociedade como matéria prima para as suas histórias, além do aspecto entretenimento, claro. Portanto, este valor social – diga-se de passagem, único no mundo – agregado à telenovela brasileira, transformou-a num verdadeiro fenômeno social. Se as extintas emissoras Tupi e Excelsior foram responsáveis por fenômenos isolados é bem verdade que na Globo ela atingiu proporções que jamais imaginaríamos. Credito ao alto e sistemático investimento (com louvável organização) da Rede Globo à relação tão intensa que o Brasil tem com a telenovela, repercutindo há muitas décadas no exterior. Numa primeira e longa fase, através da venda da “lata” (O Bem-Amado, Escrava Isaura, A Sucessora…) e, a partir deste ano, vislumbrando um novo capítulo na história da telenovela mundial com a produção de El Clon (em parceria com a RTI e Telemundo, na Colômbia), já considerada um sucesso! 

revistapontocom – Poderíamos dizer então que as telenovelas não são mero entretenimento?
Mauro Alencar
– Antes de mais nada, entretenimento sim, pois foi concebida para tal. Mas conforme já falei, ela começou a atingir proporções muito maiores e complexas do que apenas “entreter” (sem qualquer juízo negativo a isso, que fique bem claro) com a renovação sistemática promovida pela Rede Globo a partir do início da década de 1970. É quando neste período, o da industrialização do gênero no Brasil, tem início a “Moderna Telenovela Brasileira”.

revistapontocom – Então a telenovela vem se transformando ao longo das décadas? Existem marcos?
Mauro Alencar –
Sem dúvida alguma, assim como o Brasil e o mundo. Novelas que inovaram por algum aspecto (de texto, direção ou tecnologia) são consideradas marcos do gênero. Com mais de 500 produções, a contar da primeira diária, em julho de 1963, são inúmeras as novelas que marcaram época. Seleciono algumas [clique aqui] . A partir de 1969, há uma segunda revolução na história da telenovela brasileira com o início da modernização e industrialização promovidas pela produção da Rede Globo. Revoluciona-se não apenas o conteúdo e forma, mas sim o sistema de produção de novelas no Brasil (e em termos da nascente indústria mundial da telenovela) com reflexos intensos na sociedade em seus diversos aspectos –  econômico, político e cultural. É notável também como cada autor, em diversas novelas, procurará revolucionar um aspecto da narrativa. É isto, aliás, que  encanta (e diferencia) as produções brasileiras no mundo inteiro.  Dentro de mais de 500 produções da história da telenovela diária, elegi algumas que considero essenciais ao processo de renovação e que de algum modo transformaram a narrativa ficcional televisiva.

revistapontocom – Telenovelas no século XXI ainda encantam?
Mauro Alencar
– Sem dúvida alguma. Além da Globo, claro, basta verificar o esforço da Record, SBT e Band em produzir novela. Estudos das áreas da psicologia e antropologia comprovam que não podemos viver sem uma boa dose diária de ficção. E ao dizer “diária”, claro está que a novela é o gênero mais adequado e forte dentro da sociedade em que vivemos.    

revistapontocom – Quem consome telenovela? Crianças, jovens ou adultos?
Mauro Alencar
– Todas as idades e todas as classes sociais. Por sua extensão e periodicidade permite uma total e ampla identificação e projeção que sustentam qualquer gênero de ficção.

revistapontocom – Classificação indicativa das telenovelas brasileiras: uma medida sensata?
Mauro Alencar
– Há que se confiar no bom senso dos autores, diretores e produtores.

revistapontocom – Mas em nome da ficção e do entretenimento tudo vale?
Mauro Alencar
– Deste modo radical, não. Como afirmei: há que ter bom senso do autor, diretor e produtor.

revistapontocom – Telenovela e escola/educação combina?
Mauro Alencar –
Dentro do gigantesco universo da telenovela, há diversas ramificações, estilos de dramaturgia literária. Por exemplo, basta darmos uma olhada superficial para enxergarmos a contribuição educativa que diversas produções da Globo trouxeram ao adaptar romances para telenovela: Gabriela, Helena, Senhora, A Moreninha, O Feijão e O Sonho,  Escrava Isaura, A Sucessora, Ciranda de Pedra, Sinhá Moça… Lembro-me que o romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, estava fora de catálogo desde o início do século XX. Com o êxito da produção da Globo, em 1978, a Editora Ática relançou o romance que deu origem à novela Maria, Maria.  Isso sem contarmos na mensagem educativa impressa em praticamente todas as novelas. Claro está que quando me refiro em “educação” estou englobando a cultura de um povo, pois, a novela é um gênero de ficção que representa o indivíduo na prosa diária do mundo. Por seu caráter diário e longevo, há tempo suficiente para compartilharmos as semelhanças e diferenças com os personagens no amplo leque social e histórico no qual estamos inseridos no tempo presente ou por meio da memória.   

revistapontocom – Qual é o futuro da telenovela?
Mauro Alencar
– Seguir retratando o cotidiano de nossa gente, num equilíbrio entre ficção e realidade, e adaptar-se às novas tecnologias e exigências do mercado, sem perder de vista que o princípio de tudo é uma boa história com personagens envolventes, fato comprovado por Sherazade nas suas Mil e Uma Noites.

4 thoughts on “Telenovela: muito mais do que ficção

  1. Olá. É sempre bom ouvir (neste caso, ler) relatos e afirmações de quem entende do assunto.
    Também estou fazendo minha monografia relacionada a esse tema. Bom, minha dúvida é a seguinte: Vocês citam na apresentação do Mauro Alencar que ele é autor de livros sobre o tema, mas não deram nenhum título. Será que seria possível me passar o nome de algum livro escrito por ele que tenha a ver com esse assunto?

    Agradeço desde já!

  2. Minha monografia será “A TELENOVELA BRASILEIRA SENDO DISCUTIDA COMO LINGUAGEM DAS ARTES CÊNICAS EM SALA DE AULA”. Estou a procura de Mauro Alencas há alguns dias. Se a equipe da reportagem puder me ajudar…

    Grato!

  3. Muito legal a entrevista de Mauro Alencar, é sempre bom ver opiniões de quem realmente entende de teledramaturgia como ele. A matéria tá ótima e a união das telenovelas com a literatura sempre deu certo como ele citou na entrevista. Como esquecer das adaptações perfeitas de Escrava Isaura, Ciranda de Pedra e Sinhá Moça produzidas pela TV Globo.

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