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Por dentro do projeto Uerê

6 comentários
03nov

 

Yvonne Bezerra de Mello dedica sua vida a ajudar crianças desassistidas e em situação de risco social. Essa reconhecida experiência tem servido para desenvolver métodos pedagógicos que recuperam crianças vítimas de todo tipo de violência e abandono. Nesta realidade, em que faltam perspectivas, o Projeto Uerê, criado por ela na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro (RJ), vem se consolidando como uma passagem possível para muitas crianças e adolescentes.

Acompanhe a entrevista que Yvonne concedeu à revistapontocom:

revistapontocom – Você coordena o Projeto Uerê, auxiliando crianças a superar traumas psicológicos e, sobretudo, estimulando a concentração. Qual o resultado com relação à superação de dificuldades para o aprendizado?
Yvonne Bezerra de Mello – Existem diversas formas de violência. A doméstica é recorrente na vida dessas crianças de comunidades carentes. Para se ter uma idéia, 80% das mães dos meus alunos são vítimas de agressão dentro de casa. E eles consideram isto normal. Vivem expostos a todo tipo de violência, porque crescem em um lugar onde tiros, mortes, conflitos e a miséria são comuns. Além disso, sofrem com o descaso e com a negligência da sociedade.

revistapontocom – Nesse contexto, o que mais atinge a parte cognitiva dessas crianças?
Yvonne Bezerra de Mello – Apesar de tudo, a inteligência permanece ilesa, mas o excesso de problemas gera uma estagnação no processo cognitivo. Elas param de aprender e perdem facilmente a memória e a capacidade de concentração. Algumas chegam a perder a fala e parte dos movimentos. Outras apresentam sintomas de doenças, tudo decorrente dos traumas.

revistapontocom – Como foi o início deste projeto?
Yvonne Bezerra de Mello – Comecei a trabalhar como voluntária na África, na década de 70, e notei que as crianças tinham várias dificuldades de aprendizado. Quando voltei, comecei a trabalhar com crianças de rua que apresentavam os mesmos problemas. A partir daí passei a desenvolver um método para que elas voltassem a aprender mais rapidamente e readquirirem aquilo que perderam. Essa é a pedagogia: recuperar o que ficou estagnado.

revistapontocom – Como as crianças chegam ao Uerê?
Yvonne Bezerra de Mello – Na maior parte dos casos chegam com diagnósticos absurdos! Mas quando colocamos a criança diante de um bloco de montar, ela constrói. Como pode ter retardo mental? É um problema de trauma que não foi trabalhado a tempo. Se uma criança não tem atividades desde os dois anos de idade e agora está com seis, ficou parada no tempo durante quatro anos, e é este espaço que temos que preencher. Isso acontece com milhões de crianças. Não é fácil, leva tempo.

revistapontocom – Como devemos agir quando nos deparamos com uma criança pedindo esmola na rua? 
Yvonne Bezerra de Mello – Nunca se deve dar dinheiro, porque eles estão pedindo esmolas, mas não são meninos de rua, isso praticamente não existe. São crianças que têm uma casa, mas vão para as ruas pegar dinheiro pressionados por algum adulto. Pergunte por que não voltam para casa? Porque ficam na rua até cumprir as determinações que foram impostas pela mãe ou pelo pai, senão apanham.

revistapontocom – Então podemos dizer que o problema está nas comunidades?
Yvonne Bezerra de Mello – Sim. Porém isto é conseqüência do descaso das autoridades e dos órgãos competentes. As instituições brasileiras não funcionam, pois se fossem realmente preparadas, as crianças não estariam nas ruas.

revistapontocom – Em sua opinião, o despreparo das instituições públicas e a falta de oportunidade motivam o jovem a se tornar um criminoso?
Yvonne Bezerra de Mello – Com certeza! Lá no projeto, há mais ou menos oito anos, não temos nenhum caso de gravidez precoce, nem de paternidade irresponsável. Todos os meus alunos sabem que com 15 anos vão fazer um estágio. Eles têm um propósito e isso faz com que sejam mais responsáveis com a própria vida. Precisamos ter isso de uma maneira mais global no nosso país.

revistapontocom – Então o que falta é vontade política?
Yvonne Bezerra de Mello – Vontade e pessoas capacitadas para formatar as políticas públicas adequadas, isso não existe hoje em dia, os políticos não possuem esta qualificação.

revistapontocom – Você se sente muito criticada? Há quem alegue que você está protegendo marginais. O que gostaria de dizer para essas pessoas?
Yvonne Bezerra de Mello – Fazem todo o tipo de comentário, mas não querem colocar a mão na massa. Vivem da teoria, e eu da prática. Sou formada e tenho doutorado em filosofia, sou uma especialista. Estudei para entender e descobrir maneiras de formatar políticas públicas eficientes no combate aos traumas da violência. Julgar é fácil! Dar aulas para crianças, todos os dias, de oito da manhã às quatro da tarde ninguém quer. No início, as críticas me atingiam muito. Atualmente acredito no meu trabalho, sei que contribuo para a melhoria de uma camada pequena da sociedade, mas é gratificante. Hoje tenho estagiários em todo o Brasil, buscando na minha metodologia uma maneira de ajudar a população carente de outras regiões.

revistapontocom – Diante de tantas dificuldades, onde você arruma tanta energia?
Yvonne Bezerra de Mello – Nos efeitos. Cada criança que fala e que aprende é uma vitória para mim! Passei por várias etapas para chegar ao resultado de um projeto que funciona. Infelizmente, o Brasil perpetua somente o que não presta. Neste momento estamos fazendo 12 livros didáticos com metodologia eficaz. Já estão prontos o de Português e o de Matemática. Isso é muito gratificante.

6 thoughts on “Por dentro do projeto Uerê

  1. Sou professora da rede pública de ensino e, é muito bom saber que uma doutora em filosofia, desenvolve um trabalho tão eficaz. Gostaria de me inteirar da metodologia, e como adquirir o material didático?

  2. sou mãe de um aluno, do projeto uerê e a dona yvonne é uma grande mulher meu filho melhorou muito depois que entrou ta lendo muito bem fico muito feliz! Toda criança poderia ter uma chance dessas!

  3. Sou professora de uma escola publica localizada en area de conflito e violencia . Gostaria de obter maiores informações a respeito dessa metodologia.Obrigada

  4. Gostaria de saber como posso ter acesso a essa metodologia tão bonita? E como faço para ve,r ou quem sabe ter, os livros para alunos e manual do professor?

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