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A infância do Brasil

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23set

Por Marcus Tavares

Um olhar diferente e original sobre a infância brasileira. É assim que o quadrinista José Aguiar contribui com o tema. Ele acaba de lançar a webcomic A Infância do Brasil. Ao todo, são seis capítulos que serão lançados até fevereiro do próximo ano. “Não é o papel deste projeto dar respostas, mas apresentar fatos e situações que nos façam refletir sobre como tratamos nossas crianças hoje, a partir da maneira como elas eram encaradas no passado. Afinal, nossas posturas atuais são consequências de ações que ecoam através do tempo”.

O primeiro capítulo foi lançado no dia 12 de setembro. Leia aqui

Em entrevista à revistapontocom, Aguiar, editor da editora Quadrinhofilia, destaca que os quadrinhos são uma das formas de arte mais interativas, versáteis e sinceras que existem.  “Nasceram como e sempre serão entretenimento. E o bom entretenimento é capaz de nos fazer refletir sobre nós mesmos sempre. Seja pela identificação ou repulsa a determinados personagens”.

Acompanhe a entrevista completa:

revistapontocom – De onde surgiu a ideia de produzir uma webcomic com este tema?
José Aguiar – Creio que é um pouco difícil para mim dizer exatamente quando essa ideia nasceu. Mas certamente o meu interesse pela infância veio com o meu primeiro filho. Ver uma criança crescer é abrir um portal com uma criança interna adormecida. Me fez buscar entender o que é uma criança. Que tipo de criança eu fui, que crianças foram meus pais, etc. Foi o início de uma viagem no tempo especulativa. A convivência com outros pais e filhos e outras formas de criar filhos me sensibilizou para a pluralidade que temos ao nosso redor. Fui acumulando relatos de histórias tristes ou felizes relacionadas à infância foram despertando em mim a vontade de pesquisar mais e desenvolver uma HQ com esse tema que se tornou tão especial para mim.

revistapontocom – Qual o objetivo do trabalho?
José Aguiar – Investigar a pluralidade do que foi e é ser criança no Brasil e através desses fatos, criar uma ficção histórica, uma HQ para refletirmos o nosso presente a partir do passado.

revistapontocom – Você deseja alcançar que tipo de público?
José Aguiar – O mais amplo possível, pois creio que vivemos num momento em que o povo brasileiro precisa refletir mais a respeito de si mesmo para se desconstruir e buscar um futuro melhor. Como o resultado não é algo hermético, voltado somente para acadêmicos, mas também não é algo didático, mas sim uma ficção histórica, creio que o leque é muito amplo. Para potencializar esse acesso, o site todo é traduzido para os idiomas inglês, francês e espanhol. Afinal, o mundo tem interesse em saber o que é o Brasil. Ainda mais se os temas abordados fogem dos lugares comuns como futebol, carnaval e corrupção. Por ter como suporte não o livro, mas a internet, não temos limitações de custo e logística para fazer o projeto chegar às pessoas. Além de que o acesso é gratuito.

revistapontocom – Que história você quer de fato contar? É uma história fictícia, mas histórica e contextualizada, certo?
José Aguiar – Cada um dos seis capítulos que compõem a HQ A Infância do Brasil é feito de personagens cotidianos, não de vultos históricos. É uma história sobre pessoas comuns, que viviam e pensavam de acordo com um contexto histórico muito específico. Pessoas que poderiam ter existido. Justamente no contraste dessas realidades com o nosso presente (que também é plural) é que reside o que quero contar.

revistapontocom – Como foi esse processo de criação do roteiro?
José Aguiar – Ao definir o recorte histórico que me interessava, pautei a historiadora Claudia Moreira, minha consultora, para buscar bibliografias que pudessem dar suporte a uma reconstituição histórica coerente dos períodos que eu queria retratar. A partir do estudo desse material pude criar tramas ambientadas em cada século de nossa história. O roteiro acabado era submetido a uma leitura crítica por parte da consultora. Não sendo encontrada nenhuma incongruência histórica, eu partia para o desenho.

revistapontocom – E sobre o processo de criação gráfico?
José Aguiar – Em todos os meus projetos eu sempre valorizo o projeto gráfico. Busco me associar a designers que possam dar uma cara ao projeto de acordo com os conceitos que tenho em mente. O pessoal da Editorial Design teve um desafio, pois a HQ era um ponto de partida para algo cheio de ramificações. Quanto ao meu desenho, optei por um traço mais cartunesco do que o tema poderia sugerir pois acredito que, se optasse por uma linha mais realista, seria mais difícil para o leitor “entrar” nos personagens. Conceitualmente falando, minha história é uma reconstituição de época a mais próxima possível, mas com espaços em branco para cada um preencher com sua imaginação. Faz parte da linguagem da HQ esse jogo de insinuar e instigar o leitor. Já nas cores, dirigi o Joel de Souza para um trabalho de luzes e texturas que também não remetessem ao real, mas sim a uma certa nostalgia.

revistapontocom – A infância no Brasil é uma webcomic, mas ela traz, em suas entrelinhas, um forte viés de denúncia, de reflexão, não é mesmo?
José Aguiar – Pelo menos é minha intenção levantar questões que possam ser debatidas. Não é o papel deste projeto dar respostas, mas apresentar fatos e situações que nos façam refletir sobre como tratamos nossas crianças hoje, a partir da maneira como elas eram encaradas no passado. Afinal, nossas posturas atuais são consequências de ações que ecoam através do tempo.

revistapontocom – Divertir e refletir: eis o poder dos quadrinhos?
José Aguiar – Quadrinhos são uma das formas de arte mais interativas, versáteis e sinceras que existem.  Nasceram como e sempre serão entretenimento. E o bom entretenimento é capaz de nos fazer refletir sobre nós mesmos sempre. Seja pela identificação ou repulsa a determinados personagens. Por isso as Histórias em Quadrinhos são a linguagem que escolhi para ser meu meio de expressão.

revistapontocom – Há alguma perspectiva de a infância no Brasil virar um projeto transmídia?
José Aguiar – Já temos uma data para uma primeira ação nesse sentido: dia 24 de fevereiro de 2016! Pouco depois do lançamento do último capítulo, A Infância do Brasil será levada ao palco do Teatro da Caixa, em Curitiba. Será a última apresentação da quarta temporada do Cena HQ, projeto de leituras cênicas de quadrinhos, do qual sou um dos idealizadores. Além do teatro, adoraria assistir uma adaptação para um audiovisual. Mas a curto prazo, gostaria de ver uma versão impressa e estendida da história, compilando o material extra produzido no projeto, para circular em livrarias e escolas. Aguardo apenas os parceiros para viabilizar esse potencial transmídia que A infância do Brasil possui. E para alguma dessas possibilidades se tornar real é importante contar com a audiência dos leitores ao longo do projeto. A difusão do site www.ainfanciadobrasil.com.br é o que vai permitir com que essas ideias se tornem reais. Conto com você que leu esta entrevista e agradeço muito pelo espaço para conversar sobre minha obra. Foi um enorme prazer!

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