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A TV na Espanha

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09abr

Por Marcus Tavares

Mesmo num mundo cada vez mais mediado pela internet e redes sociais, a televisão ainda ocupa um espaço privilegiado entre as crianças. Se você acha que estamos falando mais uma vez da realidade brasileira, errou. A cena também se repete em Barcelona, na Espanha. Pelo menos é o que afirma Doina Bird, coordenadora do Festival Internacional de Audiovisual de Barcelona, do Observatório Europeu de Televisão Infantil (Oeti). Em entrevista à revistapontocom, Doina falou sobre a importância e o impacto que a tevê ainda exerce no cotidiano das crianças europeias, em especial as que vivem em Barcelona.

O Festival faz parte das atividades do Oeti, que acaba de comemorar 15 anos. Em 1997, um grupo de produtores, ativistas e educadores espanhóis resolveu criar uma organização sem fins lucrativos, com o objetivo de promover e investir em programas de televisão educativos e de entretenimento, voltados para as crianças. A proposta desde então é ser um espaço de referência sobre televisão infantil para pais, educadores, políticos e profissionais da indústria mundial de mídia.

Com sede em Barcelona, o Oeti promove, anualmente, o Festival Internacional de Audiovisual, bem como os encontros – Fórum e Jornada – que, ao reunir especialistas de vários cantos do mundo, discutem as novidades, os desafios e os obstáculos da televisão voltada para crianças e adolescentes.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Qual é o poder das telas no mundo de hoje?
Doina Bird – Estamos sob a influência de um mundo em constante expansão de novas tecnologias: televisão por assinatura, games, MP3, internet, conexões, Bluetooth, uma lista extensa. Há benefícios deste progresso técnico, benefícios da ordem econômica e comunicacional. Mas há grandes desafios e perigos neste cenário, como o impacto desta mudanças no cérebro humano, não só na primeira infância, mas também nos adolescentes e jovens adultos. Um impacto tanto na forma como o cérebro humano se desenvolve e se transforma. Na verdade, não há nada de novo nisso: o cérebro humano vem sendo modificado e adaptado em resposta a estímulos externos durante séculos. Mas o ritmo das mudanças deste ambiente externo, de hoje, tem aumentando drasticamente. Trata-se de um impacto que afetará nosso cérebro durante os próximos 100 anos. É evidente que o mundo das telas, que envolve tanto os adolecentes quanto os adultos, está produzindo mudanças no comportamento. A falta de atenção das pessoas é maior, as habilidades pessoais de comunicação são menores e verifica-se também uma redução na capacidade do pensamento abstrato. Esta geração interpreta o mundo a partir das telas que lhe são mais amigáveis. As coisas só acontecem se passam no Facebook, no Bebo ou no You Tube. Era assim a relação da geração analógica com a TV. Só era considerado verdade, se a televisão exibisse. Mas, de qualquer forma, vivemos num cenário no qual as telas têm um potencial educativo muito alto, que podem e devem maximizar a criatividade, a aprendizagem e o conhecimento.

revistapontocom – Neste sentido, qual é o lugar que a televisão ocupa na vida das crianças da Europa?
Doina Bird – A televisão na Europa ainda tem um lugar importante na vida das crianças. As italianas lideram o ranking de consumo, com duas horas e 46 minutos por dia. Os dados são do primeiro semestre de 2011. São dois minutos a mais do que no mesmo período de 2010. Em segundo lugar, estão as meninas e os meninos espanhóis, com duas horas e 38 minutos por dia, seguido pelos ingleses, com duas horas e 24 minutos, dez minutos a mais que em 2009. Em quarta posição, as crianças francesas, com uma média de duas horas e nove minutos à frente da TV. E, segundo a pesquisa KIDs TV Report, o que é mais visto pelas crianças italianas, espanholas e francesas são as animações americanas e japonesas, como as séries dos Simpsons, Bob Esponja e Pokemon. Portanto, diria que a televisão continua, sim, sendo a mídia com maior penetração nas famílias, embora o consumo da tevê divide, cada vez mais, o espaço e o tempo com o consumo de outros meios de comunicação, com outras ‘janelas’, como a internet, o celular e o game. Uma coisa é certa: as crianças dedicam, por ano, mais tempo consumindo mídia – são 990 horas – do que se ocupando com os estudos escolares – são 960 horas.

revistapontocom – O que as crianças espanholas assistem na televisão?
Doina Bird – O panorama audiovisual televisivo na Espanha tem se modificado muito nos últimos anos, principalmente com a criação da Television Digital Terrestre (TDT), que passou a oferecer novos canais exclusivos de programação infantil e uma possibilidade de acessar essa mesma programação via web. Muitos programas estão presentes, inclusive, nas redes sociais. Os programas podem ser baixados pela internet e por meio dos celulares. Mas ainda há um grande caminho a percorrer para, de fato, conseguir transformar a mensagem unilateral da televisão clássica em uma mensagem que atraia, mais e mais, o interesse das crianças. As TVs precisam trabalhar muito para estabelecer uma maior interatividade com as crianças, que, cada vez mais, decidem o que querem ver, quando e onde. Os canais precisam aproveitar todas as possibilidades que as tecnologias oferecem. Na Europa, cerca de 80% dos jovens que estão online têm conta nas redes sociais, como revelou recente estudo da Eurostat. Dados de 2007 revelam que 70% dos domicílios da União Europeia têm internet, 30% a mais do que durante o mesmo período analisado, em 2006. Domicílos que têm crianças favorece a contratação de serviços de acesso à internet. No caso da Espanha, cerca de 60% das famílias espanholas estão ligadas à internet. A maioria dos adolescentes (67%) tem telefone celular.

revistapontocom –  As crianças espanholas, mais especificamente as de Barcelona, se vêem na TV?
Doina Bird –  Sim. Temos o Infok de Televisión de Cataluña. Trata-se de um informativo infantil e juvenil que é exibido diariamente, de segunda a sexta-feira, às 19h30, através do canal Super 3, o canal infantil da Cataluña (TV3). Este canal também produz séries que trazem atores infantis que retratam diferentes ambientes da vida de Barcelona, como o El cor de la ciutat, que durou anos. http://www.tv3.cat/pprogrames/infok/infkSeccio.jsp

revistapontocom – O que significa 15 anos do Observatório Europeu de Televisão Infantil (Oeti)?
Doina Bird – Os 15 anos do Oeti significa 15 anos de sensibilidade e alfabetização audiovisual com o objetivo de constituir crianças e jovens mais críticas e solidárias. Comemoramos a data em novembro do ano passado, com uma retrospectiva de nossa jornada. Celebramos com o XV Festival Internacional de Audiovisual de Barcelona, com a exibição dos vídeos que ao longo do período ganharam prêmios, e com o XV Fórum Mundial de Televisão Infantil e as Jornadas do Observatório, nos quais especialistas de todo o mundo se reúnem para discutir o presente e o futuro da televisão voltada para as crianças. O Oeti é um adolescente com muito futuro. Queremos potencializar o nosso trabalho, criando novas alianças em nível international. Somos poucos e há muito o que fazer. Vistem nosso site. Vejam nossa produção e participem do nosso grupo.

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