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Ajudas para aprender

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22fev

Por Virginia Ferrara Barbosa

É comum ouvir de professores que seus alunos são muito diferentes e que o trabalho em sala de aula seria mais efetivo se as turmas fossem homogêneas. Sabe-se que cada criança tem necessidades distintas, assim como os adultos apresentam dificuldades em dar respostas criativas e flexíveis às crianças que têm maneiras de ser e de se comportar nem sempre fáceis de serem compreendidas.

No livro Ayudas para aprender  – trastornos del desarrollo y práticas inclusivas, laureado com o prêmio Isay Klasse al Libro de Educación, o psicólogo e educador argentino Daniel Valdez ajuda pais, professores e demais profissionais da educação e da saúde a entender a diversidade em um mundo social e escolar inclinado à homogeneização e à condenação da diferença.

Acompanhe a entrevista e aproveite para refletir sobre a construção de uma escola inclusiva.

revistapontocom – O que são as ajudas para aprender?
Daniel Valdez – Vamos partir do seguinte ponto: todos nós precisamos de ajudas, em diferentes momentos de nossas vidas. As ajudas são pessoas que nos guiam na aprendizagem; são estratégias didáticas que criam ambientes educativos significativos e possibilitam compartilhar diferentes compreensões; são andaimes (como dito por Bruner) ou suportes para favorecer a autonomia, o autocontrole e os processos de autorregulação. As ajudas para aprender nada mais são que ferramentas para diminuir as barreiras em relação à aprendizagem e à participação nos grupos de trabalho. São instrumentos para melhorar nossa qualidade de vida e contribuir para a construção de uma escola inclusiva.

revistapontocom – De acordo com a importância das ajudas, que desafios a questão da diversidade suscita nas escolas?
Daniel Valdez – É importante analisar como as escolas se colocam frente àqueles alunos que “não encaixam” na sala de aula, que estratégias devem ser colocadas em jogo, que respostas criativas podem ser oferecidas diante do desafio do fracasso escolar. No século XXI, já não cabe pensar que o fracasso escolar é uma questão individual, atribuída somente ao aluno. Impõe-se a tarefa de recontextualizar o problema em termos de sistemas sociais complexos. As diversas maneiras de se abordar as diferenças mudaram, consideravelmente, nas últimas décadas. Desde o enfoque obsoleto baseado na “deficiência” ou “transformar em patologia aquilo que não é patológico [o entrevistado usou a expressão patologización], passando pelas propostas sobre necessidades educativas especiais e a integração, até chegar às atuais propostas de inclusão educativa e uma escola para todos que diminua as barreiras para aprender e participar.

revistapontocom – Qual é a diferença entre integração e inclusão?
Daniel Valdez – A Declaração de Salamanca de Princípios, Política e Práticas para as Necessidades Educativas Especiais, de 1994 – organizada pelo governo espanhol em cooperação com a Unesco e da qual participaram 92 países – incitou a comunidade internacional a concretizar os objetivos de uma “educação para todos”, evidenciando que a escola comum com orientação integradora representa o meio mais eficaz para combater as atitudes discriminatórias, criar comunidades que incluam a todos e contribuir para o êxito do ensino. Fez com que os governos se comprometessem em propiciar mudanças nas políticas educacionais, designar recursos econômicos, propor formação docente e participação da comunidade nas atividades escolares, atendendo às características de cada região. É evidente que a perspectiva das necessidades educativas especiais supera as visões reducionistas e tem efeitos políticos e sociais, visando não somente o nível “micro” (mudanças na interação professor-aluno e aluno-aluno, por exemplo), mas também o nível “macro” (mudanças decorrentes de políticas públicas). Nos últimos anos, se fala em escola inclusiva no lugar de escola integradora. A ideia que traz o cerne dessa mudança é interessante: não basta pensar em uma escola que “integre” e “normaliza” às crianças com necessidades educativas especiais ou com dificuldades de aprendizagem com a visão subjacente de que “somos todos iguais” (nesses termos até a pousada de Procusto poderia ser integradora). Isso supõe que o sistema propõe poucas mudanças, ou mesmo nenhuma, no que diz respeito às práticas educativas, seus valores, as formas de ensinar, de avaliar e de distribuir os saberes. Basta “assimilar” os diferentes, sem afetar muito a dinâmica institucional. Ao contrário, a ideia de inclusão supõe, a princípio, que “todos somos diferentes” e lança a escola no desafio de colocar em prática objetivos, conteúdos, sistemas de ensino e de avaliação que assumem essa diversidade, procurando incluir a todos no projeto educativo da comunidade. É evidente que essa proposta precisa de uma mudança de mentalidade profunda, mudança de valores que vão além da escola e que interpelam a sociedade como um todo.

nota: Procusto representa a intolerância do homem em relação ao seu semelhante. Procusto era dono de uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se as pessoas fossem muito altas, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-las à cama; as que tinham pequena estatura eram esticadas até atingirem o comprimento suficiente. Ninguém sobrevivia, pois nunca uma vítima se ajustava exatamente ao tamanho da cama. O mito do Leito de Procusto já foi usado como metáfora para criticar tentativas de imposição de um padrão em várias áreas do conhecimento, como na economia, na política, na educação, na história, na ciência e na administração.

revistapontocom – Quais são as características resumem o espírito da educação inclusiva?
Daniel Valdez – O movimento em direção a Educação Inclusiva pressupõe a reestruturação das escolas para responder às necessidades de todas as crianças e jovens. Exige-se uma série de mudanças metodológicas e organizacionais que incluem a formação dos próprios professores para que aceitem e aprendam a trabalhar com a diversidade, ao mesmo tempo em que as próprias instituições educacionais se reorganizam, com o objetivo de garantir um ensino de qualidade. O Índice de Inclusão (2000/2002), realizado pelo Centro de Estudos em Educação Inclusiva do Reino Unido e do Departamento Regional de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe, oferece uma caracterização da educação inclusiva que pode ser sintetizada em alguns pontos- chaves: a inclusão em educação envolve processos para aumentar a participação dos estudantes e reduzir sua exclusão na cultura, nos currículos e nas comunidades escolares; a inclusão implica na reestruturação da cultura, das políticas e das práticas das instituições escolares para que a diversidade de seu alunado possa ser atendida; a inclusão se refere à aprendizagem e à participação de todos e quaisquer estudantes vulneráveis à exclusão e não somente daqueles etiquetados como incapazes por motivos diversos ou aqueles denominados “portadores de necessidades educativas especiais”; a inclusão se refere ao aprimoramento das escolas, tanto de sua equipe como de seu alunado; a preocupação em superar as barreiras, para o acesso e a participação de um determinado aluno, pode servir para revelar as limitações mais gerais da escola, no momento de atender à diversidade de seu alunado; e todo estudante tem direito a uma educação no local onde vive; a diversidade não é entendida como um problema a ser resolvido, mas sim como uma riqueza para apoiar a aprendizagem de todos; a inclusão refere-se ao esforço mútuo das relações entre as escolas e a comunidade onde estão inseridas; e a inclusão em educação é um aspecto da inclusão social.

revistapontocom – Explique o que venha a ser este novo conceito de barreiras para aprender e participar.
Daniel Valdez  – O conceito de “necessidades educativas especiais” é substituído pelo termo “barreiras para aprender e participar”. Nesse contexto, a inclusão implica identificar e minimizar as barreiras que surgem no momento de aprender e de participar, fazendo uso de todos os recursos necessários que favorecem os processos de aprendizagem e de participação. Tanto as barreiras quanto os recursos para reduzi-las encontram-se em todos os elementos e estruturas do sistema: dentro das escolas, na comunidade e nas políticas locais e nacionais. O uso do conceito “barreiras para aprender e participar”, para definir os obstáculos que experimentam os alunos, implica em um modelo social em relação aos denominados alunos com dificuldades de aprendizagem e aos portadores de necessidades especiais. Para esse modelo, as barreiras para aprender e participar ”surgem da interação entre os estudantes e seus contextos: as pessoas, as políticas, as instituições, as culturas e as circunstâncias sociais e econômicas que afetam suas vidas. As dificuldades são barreiras para a participação dos alunos com deficiências físicas ou doenças crônicas. As necessidades especiais são criadas na interação entre atitudes, ações, culturas, políticas e práticas institucionais discriminatórias em relação às deficiências, à dor e às doenças crônicas”. Nesse sentido, as escolas têm o grande desafio de reduzir, consideravelmente, as dificuldades decorrentes de barreiras físicas, pessoais, sociais e institucionais de acesso e de participação.

revistapontocom – Como a idéia de redução das barreiras para aprender e participar reflete no trabalho concreto dos professores nas salas de aula?
Daniel Valdez – Acredito que a educação deve ser entendida como um processo constante de negociação entre professor e aluno. A negociação de significados e sentidos se torna essencial quando o objetivo é construir um espaço de compreensões compartilhadas entre professores e alunos. Isso implica não somente aspectos intelectuais, mas também supõe aspectos emocionais e afetivos que se revelam nas interações intersubjetivas. É um processo de negociação entre os significados e sentidos próprios dos alunos, seus conhecimentos prévios, suas formas de ver a realidade, sua maneira de conceber as outras pessoas, sua própria vida afetiva e emocional, os conhecimentos ligados a sua língua materna, a sua região e a sua cultura de origem e os significados e sentidos do adulto que ensina, expressos, em parte, por meio dos conteúdos conceituais, atitudinais e procedimentais do currículo. Tal negociação presume conhecer e respeitar os significados e sentidos de cada um; reconhecer as diferenças e valorizá-las como um fator de enriquecimento do processo de ensino e aprendizagem. De qualquer maneira, o adulto é o responsável por encontrar, na sua prática docente, os instrumentos de mediação semiótica mais adequados à construção de conceitos mentais compartilhados. Posto dessa forma, o desafio de lidar com a diversidade não deveria ser mera retórica da gestão educacional, mas sim ser considerado à luz do próprio processo permanente, interativo e interpessoal de negociação de significados e sentidos com alunos que demonstram grande heterogeneidade e desafiam os professores a utilizar instrumentos semióticos diversos, criativos, originais e, por que não dizer, inéditos. Instrumentos a serviço da comunicação, do enriquecimento mútuo e de compreensões compartilhadas.

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