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O Menino e o Mundo pelo diretor

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10fev

Por Marcus Tavares

Sofrendo com a falta do pai, um menino deixa sua aldeia e descobre um mundo fantástico dominado por máquinas-bichos e estranhos seres. Uma inusitada animação com várias técnicas artísticas que retrata as questões do mundo moderno pelo olhar de uma criança. Esta é a sinopse de O Menino e o Mundo, o novo filme de animação de Alê Abreu, que estreou nos cinemas do país no dia 17 de janeiro de 2014. A animação pretende encantar crianças, jovens e adultos, promovendo reflexões e diálogos entre as gerações. 
“Tenho visto diferentes reações em adultos e crianças. Acho que o filme conversa com os dois e, mais do que isso, gera um diálogo entre eles, durante e após as sessões. Mas não podemos esquecer dos jovens, o filme também mexe com eles. Acho não foi à toa que recebemos o Prêmio da Juventude, de voto popular, na Mostra de Cinema de São Paulo”, contou o diretor à revistapontocom logo após o lançamento.

De lá para cá, foram muitos e muitos prêmios. No último sábado, foi escolhido como melhor trabalho independente do Annie Awards, uma das premiações internacionais mais importantes do gênero animação. Agora, a torcida é para a festa do Oscar 2016. O filme concorre na categoria Melhor Animação. ‘Este menino é cada um de nós, quando nos pegamos perplexos com o mundo à nossa volta’, diz o diretor.

Leia, abaixo, a entrevista que o diretor Alê Abreu concedeu à revistapontocom, na época do lançamento.

Acompanhe:

revistapontocom – Seus filmes sempre trazem uma reflexão sobre o universo da infância. Mas parece que esta reflexão está mais presente em O Menino e o Mundo. Estou certo?
Alê Abreu – É verdade: a criança sempre foi o tema central em meus filmes. Embora não sejam necessariamente infantis, todas as obras têm, no mínimo, uma criança como protagonista. O Menino e o Mundo talvez seja o mais solto e abstrato de todos os meus filmes, mas sua abordagem é muito realista, trazendo questões políticas e sociais, o que causa certo choque, ao meu ver muito positivo.

revistapontocom – Quem é esse ‘menino’ assustado com o mundo?
Alê Abreu – É um menino sem nome, sem boca, sem voz. Um menino especial que vê cores nos sons. Um dia ele vê seu pai partir para nunca mais voltar e resolve ir em sua busca. Arruma uma mala, onde coloca a única foto que guarda da família unida, e parte numa jornada, certo de que encontrará o pai. Como todas as crianças, ele acredita que tudo é possível. E acreditar que tudo é possível tem uma força indestrutível. É isso o que nos enche de esperança. Manter a esperança é manter a criança viva dentro de nós. No fundo, este menino é cada um de nós, quando nos pegamos perplexos com o mundo à nossa volta. Creio que quem assistir ao filme entenderá esta mensagem.

revistapontocom – Achei curioso a temática do pai. A falta dele no cotidiano da infância. É sintomático, não?
Alê Abreu – Sim. E já no meio de produção do filme descobrimos o quanto a busca do pai sempre foi um tema presente no cinema latino americano. Um pai no sentido de pátria, que nos dê base, sustentação, na imensa construção que compartilhamos.

revistapontocom – Quem vê o filme fica impressionado com a escolha estética da imagem e do som. Como foi esta construção?
Alê Abreu – Costumo dizer que O Menino e o Mundo nasceu dentro de um outro filme. Na época eu trabalhava no desenvolvimento de um anima-doc (documentário com animação) chamado “Canto Latino”, que lançava um olhar sobre a formação social, política e econômica da América Latina, do quanto nossos países têm uma história tão comum e de que forma ela chega na globalização dos dias de hoje. Este filme seria narrado, digamos assim, a partir das músicas de protesto dos anos 60 e 70. Durante as pesquisas do “Canto Latino”, encontrei um desenho em minhas anotações, a figura de um menino, que me chamava a atenção, mais do que pelo personagem em si, pela forma rabiscada, simplificada e urgente daquele desenho. Naquele momento eu sabia que tinha em mãos um MUNDO (o universo do Canto Latino) e aquele MENINO. Restava encontrar a história que unia os dois. Escrevi um primeiro argumento muito livremente, costurando ideias soltas: Cuca [nome dado ao menino] levado pelo vento, o encontro do menino com um velho, a partida do pai, mistério numa fábrica abandonada etc. Quanto ao roteiro, não houve bem esta etapa, pelo menos da forma que estamos acostumados a entende-la. Com o argumento em mãos fui construindo o filme diretamente na ilha de edição, já em forma de audiovisual, criando um novo animatic. Processo que levou pouco mais de um ano de trabalho. Fazia anotações, esboços em um caderno de rascunho e depois transformava estas ideias em pequenos trechos de história, que eram incorporados ao bloco do filme. Ao mesmo tempo experimentava sons e trechos de músicas como referência e já brincava com a própria montagem. Penso que talvez por isso o filme tenha se resolvido praticamente sem diálogos. A música é de Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, com participações especiais de Emicida, Naná Vasconcelos, Barbatuques e GEM – Grupo Experimental de Música.

revistapontocom – Fico me perguntando se o filme não vai encantar mais os adultos do que as crianças. Parece que é um recado – precioso – para os pais, não?
Alê Abreu – Este é um momento [da estreia] muito especial, quando descobrimos o filme que fizemos, a partir do olhar do espectador. E por mais que eu já tenha visto o filme mil vezes ao longo de sua montagem, outro filme se revela para mim à medida que eu o assisto com a plateia. Tenho visto diferentes reações em adultos e crianças. Acho que o filme conversa com os dois e, mais do que isso, gera um diálogo entre eles, durante e após as sessões. Mas não podemos esquecer dos jovens, o filme também mexe com eles. Acho não foi à toa que recebemos o Prêmio da Juventude, de voto popular, na Mostra de Cinema de São Paulo. Um dado curioso: nas sessões que realizamos para pesquisa, alguns adultos não entenderam a história que precisou ser explicada por uma criança.

revistapontocom – O Prêmio da Juventude foi um dos já ganhos. A obra chega ao cinema com outros quatro prêmios (Menção Especial do Júri de Ottawa, Melhor Filme de Animação do Festival Internacional de Havana, Menção Honrosa do Festival do Rio e o Seleção Oficial do Festival de Cinema de Paulínia). O que isto representa?
Alê Abreu – O filme ficou pronto em setembro de 2013 e foi exibido em quatro festivais até agora, e premiado nos quatro (dois deles, menções). O prêmio da Juventude, obtido na Mostra de Cinema de São Paulo, foi a partir de voto popular e nos mostrou que os jovens são um público importante. No Festival de Havana, recebemos o prêmio de melhor filme de animação, concorrendo com outras 33 produções latinas. Em Ottawa, um dos mais importantes festivais de animação do mundo, recebemos uma menção especial do júri com o seguinte texto: “Algumas das imagens mais belas que já vimos”. Este reconhecimento no meio é muito gratificante. Em relação ao mercado, sei que de alguma forma os prêmios “validam” o filme para uma parte do público que precisa destas referências. Mas ter prêmios não significa, necessariamente, sucesso de bilheteria.

revistapontocom – Da ideia ao lançamento se passaram seis anos, certo? Como anda o desafio de se produzir cinema para a infância no Brasil? Você que está há anos nesta estrada, que avaliação você faz das possibilidades da área?
Alê Abreu – Foram dois anos de desenvolvimento, três anos e meio de produção e 6 meses preparando o lançamento. Apesar do estigma que a animação carrega de ser infantil, quando realizo um filme normalmente não penso se é para a crianças ou para adultos. E isso já é parte de um certo “desafio artístico”, que é o de se libertar de algumas amarras, de gêneros ou padrões impostos pelo mercado, para que algo verdadeiro se revele, envolva e surpreenda o público. Quanto aos desafios da produção em si, me parecem os mesmo de qualquer outro filme: aprovar um orçamento, captar recursos, administra-los, prestar contas, atender às demandas dos patrocinadores… Já em relação à técnica de animação, os desafios podem ser mais específicos. Produzir um filme animado requer uma boa dose de paciência (é uma outra relação com o tempo), certo domínio artístico e recurso tecnológico, uma equipe bem preparada… Estou na estrada desde meados de 1991 quando iniciei o projeto de meu primeiro curta e pude acompanhar todas as mudanças da área, que só foram para melhor.

revistapontocom – O filme estreou no dia 17 de janeiro. Que dica/sugestão você daria para as crianças e os adultos que vão assistir ao filme?
Alê Abreu – O filme é cheio de segredos e pistas. Fiquem atentos nos detalhes.

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