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As crianças que trabalham na tevê

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30abr

Inês Vitorino Sampaio é professora da Universidade de Fortaleza, onde se dedica a estudar a relação entre a criança e as diferentes mídias. Autora do livro Televisão, publicidade e infância (Ed. Annablume) e coordenadora do Grupo de Estudos da Relação Infância e Mídia (Grim), ela diz que a infância dos bastidores de TV e sets de cinema perde um elemento importante para o seu aprendizado: o caráter lúdico da atividade de representar.

“Creio que o ingresso precoce da criança em um universo permeado pela lógica da mercantilização da cultura (…) a expõe indevidamente a tensões que ela poderia lidar com mais serenidade na idade adulta. Esta é para mim a principal perda dessa relação (infância, juventude/bastidores, sets), a perda do lúdico, em que a criança podia simplesmente cantar, dançar, representar, enfim, apenas para se divertir e não para ser eleita a melhor por uma equipe de profissionais, uma banca de calouros ou o público de um país”, afirma a professora, entrevistada pela equipe da Revista Nós da Escola, uma publicação da MULTIRIO dirigida aos professores da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Acompanhe:

O que caracteriza a infância e a juventude dos bastidores de programas de TV e sets de cinema? Inês Sampaio – A atividade de representar para a criança é algo muito natural. O ingresso no mundo da imaginação, onde ela se transforma em incontáveis personagens – assumindo papéis referentes a mundos próximos (pai ou mãe) ou distantes (o xerife ou a bruxa), constitui parcela importante do seu aprendizado. Ao brincar, como postulam Walter Benjamin, Jean Piaget, entre outros estudiosos, a criança descobre o mundo e suas regras, seus limites e possibilidades. Brincar de representar para ela é, nessa perspectiva, um enorme aprendizado, que se situa no terreno do lúdico, da gratuidade, do prazer. Creio que o ingresso precoce da criança em um universo permeado pela lógica da mercanti­liza­ção da cultura, ou seja, voltado, predominantemente, para a obtenção de lucro, a expõe inde­vi­da­mente a tensões que ela poderia lidar com mais serenidade na idade adulta. Esta é para mim a principal perda dessa relação (infância, juventude/basti­dores, sets), a perda do lúdico, em que a criança podia simplesmente cantar, dançar, representar, enfim, apenas para se divertir e não para ser eleita por uma equipe de profissionais, uma banca de calouros ou o público de um país como a melhor. Particularmente nas duas últimas décadas, têm sido recorrentes as matérias jornalísticas que retratam as situações vivenciadas por crianças, expostas a filas em processos de seleção para agências e/ou emissoras que lhes pro­metem a fama; obrigadas, muitas vezes, a enfrentar horas em sets de gravação submetidas à intensa iluminação e alta temperatura.

O que ganha a criança com esta busca frenética pela fama?
Inês Sampaio – Em um país de profundas desigualdades sociais, em que a mídia se apresenta como uma possibilidade de mobilidade social mais evidente que os bancos escolares, costuma-se ouvir a alegação de muitos pais de que a exposição da imagem da criança na mídia constitui a possibilidade real de se garantir para ela um futuro promissor. Como muitos profissionais da comunicação podem atestar, essa promessa de futuro melhor, extensiva à família em alguns casos, vem a se constituir em mais uma sobrecarga de responsabilidade posta sobre os ombros das crianças, que passam a sustentar com seus vencimentos os demais membros da família, em uma inversão clara da relação criança-adulto.

A atividade que crianças e jovens exercem ao fazer programas de TV, cinema, publicidade etc. se caracterizaria por ser um trabalho de ‘manifestação e expressão artística’ ou ‘trabalho infantil’?
Inês Sampaio – As duas possibilidades não são excludentes, a não ser que estejamos pensando em uma arte inteiramente autônoma, o que não tem se configurado como realidade, mesmo considerando o período que antecede ao processo recente de sua massificação a partir da indústria cultural. Receio que esta questão não deva ser tratada de forma indiscriminada, envolvendo todas as crianças que atuam hoje na TV, no cinema ou na publicidade. Há diferenças importantes do ponto de vista das quantidades de horas que a criança dedica às atividades de comunicação, exigências específicas a que ela está submetida, como participar de desfiles, show, etc. O fato de que este deta­lha­mento seja feito mediante contrato, já constitui um indicativo de que a criança passa a ser projetada num universo institucional pautado por relações comerciais, que ultrapassa sensivelmente o seu mundo de brincadeiras.

Em que medida a legislação que temos hoje relativa à infância e adolescência, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), protege essas crianças e jovens que trabalham na TV e no cinema?
Inês Sampaio – O Estatuto da Criança e do Adolescente tem sido um instrumento fundamental de proteção à infância no que se refere as suas atividades no contexto da comunicação midiática, estabelecendo horários especiais para o desenvolvimento das atividades infantis, exigindo a sua freqüência obrigatória na escola, proibindo o trabalho para menores de 14 anos. Vale, contudo, ressaltar que nem sempre o que está previsto na lei vem sendo cumprido. Além disso, é necessário que se estabeleçam novas discussões acerca de aspectos legais, na medida em que a dinamicidade do campo comu­nica­cional cria novas situações não previstas por esta lei.

O que normalmente é produzido, em termos de programas de TV e cinema, em nome das crianças?
Inês Sampaio – A questão da qualidade na produção cultural para a criança não me parece estar associada ao fato de ser um adulto ou uma criança seus idealizadores e executores. Há bons programas produzidos por adultos, tanto quanto por crianças. Não se trata também apenas de uma questão de ouvi-las. Há muitas formas utilizadas pelas emissoras para buscar entender a criança e os seus interesses, tais como cartas e pesquisas. A questão mais grave, me parece, é a própria concepção hegemô­nica da criança como consumidora. É a partir desta lógica que parcela expressiva dos programas são feitos, o que acaba comprometendo a sua qualidade. Não é de admirar que as produções da televisão pública, neste contexto, destaquem-se como referenciais de qualidade. Nas escolas, ONGs, centros culturais, por sua vez, vemos crescer uma tendência importante de participação de crianças e adolescentes na elaboração de filmes, documen­tários, vídeos. São manifestações culturais articuladas, muitas vezes, com o próprio resgate da identidade cultural de um bairro ou região, onde se verifica uma boa dose de experimen­talismo, na medida em que tais experiências são situadas, muitas vezes, à margem do mercado. É preciso, neste cenário, apostar nesta garotada, dar-lhe condições de se en­vol­ver com a comunicação e a arte numa outra perspectiva, algo que está fortemente associado à definição de políticas públicas no terreno da comunicação.

Entrevista concedida em 2005

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