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Corda Bamba: cinema, literatura e infância

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22out

Por Marcus Tavares

Eduardo Goldenstein é o roteirista e diretor do filme infantil Corda Bamba, que acaba de estrear no circuito nacional. O filme, baseado no livro homônimo da escritora Lygia Bonjuga, traz uma estética e tempo bem diferentes dos que a criançada está acostumada a assistir no cinema. Trata-se de uma obra em que “a garotada precisa pensar com o filme, precisa se engajar no sonho da protagonista, a menina Maria”.

Segundo Goldenstein, é uma produção trata a criança com maturidade, apostando na potência das fábulas e na capacidade de compreensão. “A maneira de contar esta história, com tempos dilatados, o uso de sombras e cores, o mistério que ronda nossa personagem, isto tudo foi uma aposta que fiz, ousada talvez, mas confiando na inteligência do público infanto-juvenil”, destaca o diretor.

Em entrevista à revistapontocom, Eduardo relata todo o processo de produção, nos mínimos detalhes, destacando os desafios e os encantos de se trabalhar com, sobre a para a infância.

Acompanhe (fotos de Guy Gonçalves):

revistapontocom – Como foi roteirizar e dirigir um clássico da Lygia Bonjunga? Quais foram os desafios enfrentados na roteirização e direção? Você teve algum contato com a autora?
Eduardo Goldenstein – Este filme surgiu a partir de uma imagem que me veio repentinamente à cabeça: uma menina andando sobre uma corda bamba no alto de um prédio. Imediatamente lembrei-me da fonte desta imagem: ela foi construída no meu imaginário quando li o livro Corda Bamba, da Lygia Bojunga, aos 10 anos de idade. Foi uma leitura que marcou minha infância, uma história densa e dramática, na qual uma menina precisa visitar seu próprio passado para poder seguir adiante. Enviei um e-mail para a editora da Lygia (Casa Lygia Bojunga), identificando-me como um leitor (li vários de seus livros na época do lançamento, como Bolsa Amarela, Casa da Madrinha e Os Colegas). Falei sobre minha intenção de adaptar Corda Bamba para o cinema, um livro belíssimo repleto de imagens cinematográficas. Ela é muito ciosa de sua obra, e foi muito sincera me dizendo que não costuma liberar os direitos. Mas foi muito generosa também ao deixar a porta aberta para nos conhecermos e conversarmos. Foi um processo natural, pautado pelo afeto. Mostrei a ela o 1º tratamento do roteiro, ainda muito parecido com o texto original do livro. Senti que ela me deu liberdade para adaptá-lo, para torná-lo mais “cinematográfico”. A partir daí trabalhei sozinho no texto, um trabalho muito árduo e que envolveu uma grande dedicação. Pensei muito este filme, cena por cena, diálogo por diálogo. Como a imagem tem um poder muito forte sobre o imaginário, ela está lá, dada, na tela, procurei revelar apenas o necessário, de modo a trazer o espectador para dentro da história, mais propriamente para dentro da cabeça da protagonista, a menina Maria, e fosse montando com ela o fio de sua vida. Creio que no cinema trata-se muito mais de “sugerir” do que “explicar”. A literatura trabalha com descrições e diálogos. Ela precisa trazer o leitor para o mundo que está sendo criado. Mas no cinema, a imagem está lá, já é um mundo. Então precisamos deixar espaço para a imaginação do espectador, deixá-la penetrar aquele mundo, construí-lo com o decorrer do filme.

revistapontocom – O filme traz a temática da perda, do conhecimento e da busca de si. Temas nem sempre trabalhados em profundidade com as crianças no e pelo audiovisual. Por que investir nesta temática?
Eduardo Goldenstein – Por que são temas que fazem parte da vida, temas existenciais com os quais teremos de nos deparar, uns mais cedo, outros mais tarde. A obra da Lygia é muito pautada por temas existenciais, como morte, separação, opressões e preconceitos. E de como podemos lidar com eles de modo a construir possibilidades para nossas vidas. O que me atrai na obra dela é a maneira absolutamente madura com a qual ela se dirige ao público infanto-juvenil, sem qualquer concessão à infantilização ou superproteção. E ela consegue fazê-lo através de um universo lúdico e poético, pautado pelo lirismo. Procurei, ao expressar nas imagens que construí este lirismo, contar esta história trágica de forma delicada, sem carregar no melodrama (o que seria uma solução fácil e talvez maniqueísta). De fato, Corda Bamba é um filme muito diferente de tudo que está aí, de tudo que se oferece para o público infanto-juvenil brasileiro. Nem podemos compará-lo à produção infanto-juvenil brasileira, pois a triste constatação é que ela é praticamente inexistente. O que é uma pena. Temos uma literatura riquíssima para esta faixa, autores como Lygia Bojunga, Ruth Rocha, Ana Maria Machado, reconhecidos internacionalmente pela qualidade de suas obras. Mas o que parece é que ninguém tem olhos para isto. Sem falar de nosso folclore, lendas, da cultura popular. Temos alguns fóruns anuais no Brasil que vêm pensando o audiovisual para crianças, como o Comkids, o Festival Internacional de Cinema Infantil (Fici) e a Mostra Infantil de Florianópolis. São instâncias que pensam com seriedade e dedicação o audiovisual para crianças. Mas sinto que ainda é muito difícil colocarmos um produto como Corda Bamba no circuito exibidor. É um filme sensível que faz pensar e que vem agradando tanto as crianças quanto os adultos. Exibimos muito o filme em festivais antes de ele chegar ao circuito. Um fato que me chamou a atenção foi que após cada exibição muitas pessoas vinham me abraçar, me agradecer por um filme onde não existe violência, sangue, efeitos mirabolantes, sexo ou palavrões. Infelizmente o cinema se banalizou demais nos últimos anos e por conta de pressões de mercado tornou-se extremamente apelativo. Então as pessoas ficam agradecidas quando podem usufruir de uma história bem contada nas telas. O público sabe identificar quando tem diante de si uma obra de qualidade. Levar Corda Bamba para as telas não foi apenas um empreendimento estético, mas também político. Uma espécie de grito, de alerta. Um grito suave, poético, mas que vem ressoando.

revistapontocom – Penso que você optou por uma narrativa bastante poética e simbólica para descrever todo o contexto da história e da menina. O que exige do público uma atenção maior para com a narrativa, o que leva a uma reflexão mais profunda. E o próprio filme dá esse ‘tempo’ para o expectador pensar, refletir. É um pouco isso mesmo?
Eduardo Goldenstein – Sim, é isso mesmo. No caso desta história, um drama vivido por uma menina de 10 anos que passa por um bloqueio de memória por conta de um acontecimento trágico, o grande perigo na hora de transpor esta história para a tela era cair numa mera “ilustração” ou simplesmente na reprodução do livro. Ora, no livro a autora trabalha muito “dentro do pensamento” da Maria, a personagem principal. Acompanhamos o que se passa dentro da cabeça daquela menina. No cinema seria muito cômodo ter utilizado o recurso da voz “off”, mas simplesmente acho que isto iria tornar tudo muito literário. Por meio das imagens e principalmente das expressões e olhares da Maria, procurei colocar o espectador dentro da cabeça dela, de modo que pudesse ir remontando sempre junto dela os fragmentos de sua vida, até chegar ao momento trágico com força suficiente para poder revê-lo. Então no início do filme, assim como a Maria, não sabemos ao certo o que a fez ir morar com a avó. Seria algum acidente, algum problema com os pais? Isto não é revelado de início. Quando Maria começa a sonhar, tampouco podemos dizer com certeza se ela sonha ou se aquilo é real. Aos poucos vamos entendendo que ela está sonhando e começamos a sonhar com ela. Posso dizer que Corda Bamba é um filme-sonho (e a natureza do cinema é intrinsecamente ligada ao mundo dos sonhos e ao imaginário), e que ele respeita o tempo do inconsciente, onde as coisas não são tão claras, onde o real se mistura ao imaginário, aonde as formas vão se construindo e desconstruindo sucessivamente. Quando Maria começa a sonhar, as cenas surgem para ela a partir da sombra, da escuridão. Exatamente como acontece quando sonhamos. Ao atravessar a corda no alto do prédio, Maria nos revela uma coragem, mesmo dentro do sonho. Afinal, é preciso ter coragem para sonhar. E graças ao mergulho no sonho ela vai poder acessar seu inconsciente e seguir adiante. Corda Bamba é uma bonita fábula e é também um processo terapêutico, a cura pelo imaginário.

revistapontocom – Neste sentido, o filme ‘exige’ mais da garotada, certo?
Eduardo Goldenstein – Claro, a garotada precisa pensar com o filme, precisa se engajar no sonho de Maria. É um filme que trata a criança com grande maturidade, apostando na potência fabulatória, que para mim é a capacidade natural das crianças de criar fábulas e histórias, de fabular… Uma das grandes satisfações que tive com esta produção foi observar como as crianças mergulham no jogo com muita facilidade, como elas se identificam com a Maria, construindo uma empatia com ela, e abrem com ela as portas que a levam ao passado. Um pequeno espectador chegou a me perguntar: mas isso aconteceu de verdade? Isto é um verdadeiro prêmio para um realizador, tornar verdadeiro um mundo ficcional. A maneira de contar esta história, com tempos dilatados, o uso de sombras e cores, o mistério que ronda nossa personagem, isto tudo foi uma aposta que fiz, ousada talvez, mas confiando na inteligência do público infanto-juvenil.

revistapontocom – Para qual faixa etária ele se destina?
Eduardo Goldenstein – Nossa faixa etária primordial é dos oito aos 12 anos, principalmente pelo caráter simbólico da história, um rito de passagem da infância para a adolescência. Maria tem 10 anos, está justamente se despedindo da infância e tendo que encarar um novo modo de vida. Mas vejo que o público adulto também se envolve e se emociona bastante com nosso filme. A faixa da 3ª idade tem demonstrado uma ligação muito afetiva com Corda Bamba. Eu diria que é um filme para toda a família.

revistapontocom – E o processo de produção? Como foi realizado?
Eduardo Goldenstein – O filme foi realizado com recursos do Edital de Longas de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura. Foi a 1ª vez que eles premiaram um projeto voltado para o público infanto-juvenil. Depois conseguimos captar mais recursos para a finalização do filme, junto à Lei do ISS/RJ. Captamos um total de R$ 1.400 milhão, o que para cinema não é muito. Planejei muito as filmagens. Trabalhei exaustivamente no roteiro. Posso dizer que a montagem do filme começou efetivamente no roteiro. Tudo que está lá foi filmado. Com exceção de uma cena que decidimos cortar na edição, tudo foi para o filme. Tivemos ainda excelentes colaboradores na equipe técnica e no elenco. Todos se engajaram com muita paixão no projeto. O que fez o filme alcançar um valor de produção muito maior do que o valor monetário efetivamente gasto. Desde o primeiro momento no qual decidi adaptar a história e levá-la para as telas, prometi a mim mesmo que iria cuidar deste material como se fosse uma pequena joia, uma daquelas caixinhas de música que damos corda e uma pequena bailarina começa a girar. Este afeto pautou todo o processo e certamente foi partilhado por todos que colaboraram para tornar este filme uma realidade.

revistapontocom – E quanto às dificuldades?
Eduardo Goldenstein – A maior dificuldade ao longo de todo o processo foi a colocação do filme no circuito exibidor. Não fosse pela parceira com a Copacabana Filmes, através da Carla Camurati e da Carla Niemeyer (a Copacabana é a produtora do FICI), não teríamos chegado ao circuito. Graças à tenacidade e sensibilidade delas conseguimos oferecer ao público este produto especial. O circuito exibidor é pautado pelo marketing e pelo poder midiático. No fundo me parece que eles nem se importam muito com a qualidade dos filmes, e sim com o tamanho da campanha, já que isso é que vai determinar o público da semana de abertura. Não conseguimos captar para a distribuição, apesar de termos tentado em várias instâncias. Então resolvemos lançar na guerrilha. É quixotesco mesmo, tentar colocar um filme infanto-juvenil, independente, brasileiro, no meio desta engrenagem gigantesca dos grande exibidores e dos blockbusters. Tivemos o apoio do Circuito Espaço (Adhemar de Oliveira e Patrícia Durães), que conseguem manter uma relação com a produção nacional e que desenvolvem ainda um belo Projeto Escola, o que nos permitiu construir um circuito para o filme. O Telecine também se interessou pelo filme e o adquiriu para exibição em sua grade de canais, concedendo-nos ainda a inserção de spots ao longo da semana de lançamento. É pelas frestas que atravessamos e pelas margens que vamos aos poucos construindo um público.

revistapontocom – Nos bastidores, como é trabalhar com crianças no set?
Eduardo Goldenstein – Foi tudo muito orgânico, muito natural. Se a criança entra no jogo, a veracidade da interpretação está garantida. E creio que conseguimos alcançar um resultado bem satisfatório com nossas crianças. A Maria foi interpretada pela Bia Goldenstein, minha filha. Desde que eu li a história para ela, quando ainda estava preparando o projeto, ela se identificou muito com a personagem, criou uma empatia por ela, uma vontade de protegê-la. E insistiu muito comigo para fazer a Maria. Relutei muito, o risco era enorme, mas a Bia conquistou o papel quando fomos fazer a primeira leitura do roteiro, com o elenco adulto já escolhido. Ainda não tínhamos encontrado nossa Maria, então minha esposa,Katya, que também produziu o filme, levou a Bia para esta leitura. Ela leu com muita compreensão, demonstrando um entendimento da história e já incorporando a Maria. Enfim, ela entrou no jogo. Ao terminarmos a leitura o elenco adulto, de forma unânime, apontou que nossa busca terminara ali, a Maria estava diante de nós. O Quico, primo da Maria, foi interpretado pelo João Madeira, filho do Augusto Madeira, que fez o Foguinho. Construímos uma verdadeira família. Este era o clima dominante no set. Uma família, como no circo. Preparamos as crianças ao longo de alguns encontros antes das filmagens, com exercícios de improvisação e laboratórios, deixando-os sempre muito à vontade. Não me preocupei tanto com o texto, preferi investir na construção de uma relação verdadeira entre os personagens. E realmente isto aconteceu. Fiquei muito satisfeito ao ver todo este afeto transposto para a tela.

revistapontocom – Qual era o seu objetivo ao criar o projeto do filme Corda Bamba? O que você realmente queira com o filme? Alcançou o objetivo?
Eduardo Goldenstein – Como eu já disse anteriormente, o filme chegou a mim, fui tomado por ele. Já tinha vontade de fazer um filme sobre o universo do circo, um documentário talvez. O circo tem um poder muito forte sobre nosso imaginário, ao mesmo tempo que diz tanto sobre a arte e os artistas – o trágico e o humor, o risco e a precariedade, o fascínio das cores e uma certa dose de melancolia. Quando Corda Bamba retornou do fundo da memória imediatamente percebi que ali estava o filme que estava procurando. Não foi algo planejado conscientemente, algo como “vou fazer um filme baseado num clássico da literatura infanto-juvenil brasileira”. O projeto nasceu do inconsciente mesmo, de maneira visceral e necessária. Procurei ser sincero e coerente ao longo de todo o processo e trazer para a tela uma visão singular da história. Outra preocupação que me pautou foi a de colocar o espectador dentro da cabeça da Maria, para que ele possa ir remontando junto a ela os fragmentos de passado que ela vai encontrando atrás de cada porta daquele grande corredor. Isto cria um suspense na narrativa, reforçado pelo jogo de luz e sombras e pelo ritmo dilatado das cenas. Assim como Maria, o espectador também quer saber o que aconteceu. Procurei ser claro sem ser didático, dar pistas em vez de explicações. É um filme denso, que exige a atenção do espectador, que o força a pensar. Fico muito satisfeito ao ver que ele se comunica bem tanto com as crianças quanto com os adultos. Cada espectador retira do filme aquilo que mais lhe interessa, que realmente o afeta. Exibimos o filme para alunos da Rede Estadual no Rio de Janeiro, dentro do programa Cinema Para Todos, e participei de debates após a sessão. Fiquei muito surpreso com o interesse e a qualidade das perguntas colocadas pelos alunos. Através das perguntas é possível medir a compreensão do público. Na semana passada fizemos uma sessão para alunos do Ceat, na faixa dos 10-12 anos, e mal tive tempo de responder a tantas perguntas. Acho que o filme tem um grande mérito, que é o de respeitar a inteligência das crianças. E o retorno que temos tido comprova que este objetivo foi alcançado.

revistapontocom – Os pais curtem também?
Eduardo Goldenstein – Sim, os pais curtem bastante, sinto que o filme os ajuda de certa maneira ao tocar em temas que são difíceis de serem abordados com os filhos. Após a exibição na Mostra Infantil de Florianópolis um pai emocionado veio falar comigo que sua filha tinha uma avó exatamente como a da história, com dificuldade de lidar com seus afetos e que achava que podia comprar tudo com dinheiro. No dia seguinte, ele nos presenteou com as memórias de Jung. No Rio, fizemos uma pré estreia no Centro Cultural Midrash, seguido de debate com uma psicóloga. O público predominante era de senhoras acima dos 60. Uma delas, muito emocionada após a projeção, nos relatou como é difícil para ela tocar no tema da morte de seu marido com a neta. E ainda temos toda a legião de fãs da obra da Lygia Bojunga, uma autora que marcou gerações de brasileiros. O retorno do público tem sido excelente, temos tido um ótimo boca-a-boca. Sinto que o filme tem sido muito bem acolhido, sinto também que existe uma demanda reprimida por este tipo de produto, um filme artesanal que conta uma história de maneira lírica e delicada. Infelizmente nosso mercado não está preparado para colocar este tipo de filme em suas prateleiras, então precisamos ir construindo nosso público. Temos oferecido sessões exclusivas para as escolas e para isso preparamos um material pedagógico com sugestões de atividades. Nossa parceria com o circuito Itaú e o Cine Espaço também se mostrou muito positiva, já que eles oferecem o programa Escola no Cinema, tocado há tantos anos com muita dedicação pela Patrícia Durães. Acho que as escolas podem aproveitar muito nosso filme. É uma oportunidade para se trabalhar com os alunos temas que raramente vem à tona no currículo oficial, mas que realmente fazem parte da vida de todos nós.

revistapontocom – Cinema infantil nacional praticamente não existe. Na cinematografia brasileira, nem 10% dos filmes destinam-se à infância. Destes, nem 10% se basearam na literatura infantil brasileira, referência mundial por sua qualidade. Como você avalia este cenário?
Eduardo Goldenstein – É um cenário quase inexistente, mas que vem demonstrando nos últimos anos uma certa vontade de ressurgir. No ano passado o jornal O Globo publicou uma matéria sobre a renovação do cinema infanto-juvenil brasileiro, na qual além de citar o Corda Bamba, apontou também para outras produções que já entraram em cartaz (Meu pé de laranja lima, do Marcos Bernstein) e outras que virão em breve, como “O Menino no Espelho”, do Guilherme Fiúza, baseado no livro do Fernando Sabino, e o “Pluft”, da Rosane Svartman, baseado na peça da Maria Clara Machado. São textos importantes que deverão elevar a qualidade da produção infanto juvenil brasileira.

revistapontocom – Mas como concorrer com os blockbuster americanos?
Eduardo Goldenstein – Precisamos aproveitar o riquíssimo material proveniente da nossa literatura, do folclore, da cultura popular. Temos ótimas histórias para serem contadas. Nunca vamos conseguir bater os americanos no campo deles, que é o campo da tecnologia e dos efeitos especiais. De fato, os filmes americanos se assemelham cada vez mais a uma montanha-russa. São tantos efeitos, explosões, tantos ângulos diferentes de câmera, que muitas vezes saímos do cinema ainda tontos. É um cinema sensorial, que, no entanto, não deixa espaço para a reflexão ou para a emoção. É claro que existem exceções, filmes como Toy Story, Up, Wall-e trazem belas histórias. Mas a regra geral parece ser cada vez mais entreter o público como num parque de diversões. Precisamos então contar nossas histórias, apostar na identificação do público com aquilo que é nosso, afirmar o patrimônio cultural brasileiro. O audiovisual é um recurso estratégico para a formação cultural de um povo, para a circulação de ideias, para a valorização da autoestima. Vivemos num mundo povoado de imagens e o acesso a elas é cada vez mais imediato. As novas gerações já nascem com diversas telas ao seu alcance. Mas o cinema ainda tem o grande privilégio de reter a atenção do público numa sala escura ao longo de duas horas. Este tempo é precioso, pois permite às crianças engajarem-se numa narrativa, construir articulações e darem um sentido à experiência fílmica. Precisamos de apoio dos entes públicos no desenvolvimento de uma política de incentivo à produção e distribuição de filmes brasileiros voltados para a infância e a juventude, já que a briga para colocar um filme em circuito é extremamente cruel para a produção independente nacional. O Brasil é um país gigantesco e tem uma cultura muito vasta, que merece e precisa ser vista em nossas telas. 

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