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Dicas para sala de aula

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Jornalista lança livro para os desafios da escola do século XXI

Por Marcus Tavares

Ensinar e aprender no século XXI é o nome do livro que a professora e jornalista Márcia Stein vai lançar no próximo dia 12, a partir das 19 horas, na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio. Jornalista Amigo da Criança, Stein há mais de 20 anos está envolvida com a formação de professores na interface entre mídia e educação. Na bagagem: muitas histórias, experiências e boas práticas que ela resolveu, agora, compartilhar.

Na visão da autora, que já integrou equipes da TV Cultura, MultiRio, antiga TVE-Rio, ensinar e aprender no século XXI devem ser um processo dinâmico, não-linear, colaborativo, compartilhado, multimídia e interativo. “Apesar de muitos pensarem que o cenário atual ameaça o lugar da escola e o do professor, nunca foi tão importante dispor de um espaço – a escola – onde as relações de ensino e aprendizagem estão em constante organização e sistematização”, destaca.

Acompanhe:

revistapontocom – Qual é o objetivo do livro?
Marcia Stein – São vários objetivos e a origem do projeto se confunde com eles. Acho que o principal é registrar e compartilhar com o maior número possível de colegas educadores minha experiência. São mais de 20 anos formando professores e desenvolvendo projetos educacionais dentro de uma perspectiva mídia-educativa e comprometida com o tempo em que vivemos. A ideia também é expressar o que penso sobre o lugar atual da escola e do professor, contribuindo para a atualização de paradigmas, abordagens e metodologias educacionais. Escrevi o livro para educadores de todos os segmentos e campos de atuação, até porque, de certa forma, o debate atravessa questões abrangentes da vida atual e tem a ver com a construção da cidadania, das identidades. Por ser uma publicação da editora SENAC, o conteúdo foi adequado ao público-alvo preferencial da instituição: o professor que atua no campo da formação técnico-profissional. Mas em sua origem, as discussões e atividades que estão ali já foram trabalhadas com professores da Educação Infantil ao Ensino Superior. Há trechos do livro em que eu digo coisas que servem inclusive para os pais. E ficaria muito feliz se eles também se interessassem pela obra. Quero dialogar com todo mundo que lida com a educação.

revistapontocom – O livro reúne uma série de propostas de atividades de midiaeducação para ser trabalhada na sala de aula. Todas as atividades já foram aplicadas?
Marcia Stein – Sim. Durante todos esses anos, em cursos, aulas e oficinas, venho trabalhando com estas atividades e com resultados bem interessantes. Muitas vezes, meus alunos me contam que já tiveram oportunidade de replicá-las com sucesso. É importante registrar que a maioria das atividades que está no livro nasceu em sala de aula. Foram estratégias que usei com crianças, jovens e com os próprios professores que ajudei a formar. O objetivo era atender suas demandas por meio de atividades instigantes que ajudassem a trazer jogos e programas de TV para sala de aula.

revistapontocom – Há pouca literatura nesta área?
Marcia Stein – Sim. A literatura na área educacional situa-se em dois extremos de certa forma limitadores. Por um lado, temos o segmento que ainda mantém um forte ‘sotaque’ universitário’. Ou seja: é aquela teorização hermética, que dialoga muito pouco com a prática do professor e com a realidade dos estudantes e mostra-se em geral muito crítica ao conteúdo da TV. De outro lado, há a literatura mais pragmática, voltada para dicas e orientações práticas. Na maioria com qualidade questionável. São uma espécie de livros de autoajuda. Mas há uma contracorrente bem bacana de novos autores que vêm pondo em cena uma abordagem mais atual e interdisciplinar das questões educacionais. Infelizmente, são na maioria estrangeiros ou não exatamente educadores, como Lévy, Jenkins, Marc Prenski, Clay Shirkis, Canclini, Martín-Barbero e Rivoltella. Aqui no Brasil temos Mônica Fantin, Rosália Duarte, Maria Rita Kehl, Regina de Assis, Ana Mae Barbosa. Não que não haja outros autores discutindo educação em perspectivas mais contemporâneas, mas este é o time com o qual mais me identifico. E não posso deixar de fazer referências a Vigotski, em cujos livros, escritos há cerca de cem anos, encontramos ideias com vigor e atualidade sempre impressionantes.

revistapontocom – Como você então definiria o seu livro?
Marcia Stein – Prefiro definir o livro como uma ferramenta que, como tal, pode ser uma resposta ao que cada um se propuser a extrair dele. O verdadeiro poder está na recepção, ou seja, na utilização da obra. Como defendo no livro várias vezes, “a utilização do professor é parte fundamental de qualquer proposta teórica ou metodológica”. É ela que vai consolidar e potencializar este ou aquele aspecto do que se está sendo proposto. É ela que vai dar vida à obra, tornando-a melhor ou mais adequada à prática e às reais demandas dos alunos.

revistapontocom  – Por que há toda esta corrente de querer integrar/aliar as mídias às salas de aula?
Marcia Stein – Afinal, não é na sala de aula que, em primeira instância, devem chegar as discussões e possibilidades de apropriação das técnicas? Não é na sala de aula que devem ser discutidos os dispositivos e linguagens utilizados pela sociedade, em cada época, para se comunicar, produzir e criar? Penso que sim. A escola é o lugar de aprender não somente os conteúdos curriculares, mas a forma de utilizá-los e de lhes dar sentido na vida cotidiana. E, hoje, o cotidiano inclui, de modo estruturante, a mídia e todas as formas de tecnologia de informação e comunicação.

revistapontocom – Que grupo ainda tem de ser convencido da importância da interface entre a mídia e a educação?
Marcia Stein – Todos aqueles que ainda acham que escola é uma coisa e a vida, outra. Em geral, são os mesmos que ainda acham que a tecnologia é uma ameaça para a escola e para o professor. Infelizmente, ainda são muitos.

revistapontocom  – O que é ensinar e aprender no séc. XXI?
Marcia Stein – Os processos educativos devem ser compreendidos do ponto de vista das interações e mediações. Com base nesse pressuposto, as relações de ensino-aprendizagem devem ser observadas como relações de comunicação. Devemos planejar currículos e práticas considerando os universos de desafios das interações sociais em cada contexto, época e lugar. Considerando ainda os interesses dos estudantes e suas relações com as linguagens, com os ambientes e com os meios. Na abordagem sociointeracionista, os processos educativos devem ser compreendidos do ponto de vista das interações sociais. Precisamos compreender a centralidade dos papéis da linguagem e das mediações no processo de desenvolvimento humano. Tal concepção de educação é fundamentada na perspectiva histórico-cultural de Vygostsky e interlocutores como Luria, Leontiev e Wallon, que estudam as relações entre cultura, pensamento, linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Estudos que dimensionam as práticas de ensino-aprendizagem como interações mediadas pelos ambientes de aprendizagem, meios, recursos e ferramentas com seus códigos próprios.  Fundamentada, principalmente, nestes teóricos, considero que é assim que devemos entender a aprendizagem, em qualquer tempo, inclusive no século XXI.

revistapontocom  – E o que deve ser ensinado e aprendido no séc. XXI?
Marcia Stein – Na escola devem ser desenvolvidos conhecimentos, valores e habilidades fundamentais para viver e conviver. Alguns destes itens são eternos e outros novos: cidadania, ética, sensibilidade estética, pensamento autônomo, habilidades de afirmar a própria singularidade, de aprender continuamente e de lidar com a mudança e com a produção em rede (trabalho colaborativo e autoria compartilhada). Cabem ainda: a valorização da identidade e do patrimônio nos níveis individual, familiar e comunitário, a preservação da memória, a habilidade de ler significativa e criticamente as informações e de criar novos universos simbólicos e campos semânticos e, por fim, a habilidade de se expressar criativamente por meio de diferentes códigos e linguagens. Isso tudo além de ler, escrever e falar de modo claro e correto na língua pátria, calcular, categorizar, abstrair, representar, conhecer o planeta e o patrimônio científico e cultural da humanidade. É muito coisa, não é? Por isso, temos que ter a vida toda para aprender.

revistapontocom – O que você espera com a publicação do livro?
Marcia Stein – Espero contribuir para a atualização de paradigmas e práticas educacionais. E lembrar a importância de pensarmos a educação em diálogo com conhecimentos de outros campos. Os professores, independentemente da disciplina que lecionam, têm que ampliar seus horizontes técnicos, científicos e culturais, pensando e se interessando pelo que se faz de melhor em seu tempo, nos campos da pesquisa científica e das artes, como cinema, quadrinhos, literatura, música, dança, artes visuais, teatro, filosofia etc. Claro que, para poder fazer isso, além de desejar, ele precisa ter condições materiais de acesso a todo um universo de informações que nem sempre tem. É a dimensão política do desafio educacional contemporâneo: sem professores devidamente revalorizados, bem formados, bem pagos, qualificados e em constante processo de atualização, vamos continuar condenados ao elo perdido entre escola e o mundo. E os jovens estudantes continuarão procurando na TV, na internet e nos games alternativas mais interessantes e atuais de aprender.

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