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“Em educação, observe três aspectos: acesso, permanência e qualidade”

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17ago

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com o diretor da Faculdade de Educação da UFF, professor Jorge Najjar.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“Recuar aqui ou ali faz parte do jogo da política educacional. O que me preocupa é aquilo que parece que nunca vai mudar no cenário da política pública educacional, que ninguém discute, que aparentemente já foi aceito, dado como certo e ponto final. Destaco dois não avanços na pasta da educação municipal do Rio: os recursos materiais para a melhoria das condições de trabalho do professor e o aumento das doenças nos profissionais da educação. Estes temas não são discutidos. São dados como certos e ninguém questiona. São problemas graves. Uma escola que adoece não pode ser uma escola boa para ninguém”. A observação é do professor e atual diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jorge Najjar.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade, o professor destaca ainda que o maior desafio hoje da rede municipal de ensino do Rio é o aumento do tempo de escolarização dos estudantes. Diz ele: “Temos uma escola de cerca de quatro horas de aula por dia. Em todos os países em que a educação deu minimamente certo, o tempo da escolarização é grande e ampliado, pelo menos são oferecidas sete horas por dia. Escolarização que passa, obviamente, não apenas pelo oferecimento de disciplinas regulares, mas por reforço escolar, esportes e artes. Como podemos comparar os resultados, por exemplo, do PISA, entre as escolas brasileiras e as europeias?”, indaga.

Acompanhe:

revistapontocom – Como o senhor avalia a política de educação do município do Rio de Janeiro?
Jorge Najjar – A cidade do Rio de Janeiro é muito grande e por isso tem diferenças significativas. Há escolas da rede privada que apresentam qualidade e outras, carências em quase tudo. Essas diferenças também são encontradas na rede pública, a maior da América Latina. Trata-se de uma rede bem organizada administrativamente em comparação à rede do Estado do Rio. Em relação ao Brasil, você tem um corpo docente razoavelmente preparado, com titulação, o que é bastante interessante. E programas recorrentes de formação continuada para os professores. Por outro lado, é uma rede que apresenta muitas carências. Há escolas em condições físicas ruins, embora não seja a maioria. Paga-se muito, muito pouco ao professor. O salário não é condição suficiente para estabelecer a qualidade da educação, mas, certamente, é condição necessária. Em decorrência da baixa remuneração, temos o professor itinerante, que trabalha em duas, três, quatro escolas diferentes para garantir uma qualidade de vida melhor. Enquanto não forem sanadas as questões estruturais, no que tange as condições de trabalho do profissional, a rede de ensino do Rio, mesmo bem organizada, não tem condições de apresentar um padrão de qualidade significativo e esperado. Soma-se a isto os problemas da cidade, que não são da escola, mas que acabam vinculados. Um deles, seguramente, é a violência. Temos muitas escolas localizadas em regiões de risco, onde a exposição de crianças e adolescentes ao tráfico é muito triste. Resumindo: temos uma rede com muita potencialidade, mas que precisa de atenção e investimentos para se tornar uma rede que ofereça uma escolarização de qualidade para a população.

revistapontocom – Nos últimos vinte anos, pode-se dizer que história da educação pública municipal do Rio foi marcada por avanços ou recuos?
Jorge Najjar – Diria que temos avanços e recuos. Entre os avanços, destaco um crescimento significativo de acesso à escola. Basta observarmos que, em 1950, de cada 10 crianças em idade escolar, apenas três ingressavam na escola. Na década de 90 e 2000, assistimos a uma universalização no atendimento de crianças em idade escolar. Não é uma peculiaridade do Rio de Janeiro. Sim, foi um movimento nacional, mas que foi feito em colaboração e com esforços locais. Outro avanço: a formação dos professores. Verifica-se um crescimento significativo da titulação dos profissionais de ensino. A grande maioria passa a ter Ensino Superior. Parece uma coisa óbvia, mas não é no Brasil. Destacaria ainda o esforço de construção da proposta curricular base da cidade do Rio de Janeiro: a MultiEducação. Foi um grande esforço positivo de discussão curricular, de questionamento, de arrumação. Hoje em dia, não se trabalha com a MultiEducação, ela não dá mais conta, mas os professores ainda recorrem à proposta. Por outro lado, há vários recuos. Posso citar, por exemplo, a recente medida de contratação de professores para a disciplina de religião. Não tenho nada contra religião, mas o Estado é laico. Este dinheiro poderia ser investido em outra coisa. Mas mais do que o recuo, o que me preocupa de fato é o que chamo de ‘não avanço’. Recuar aqui ou ali faz parte do jogo da política educacional. O que me preocupa é aquilo que parece que nunca vai mudar, que ninguém discute, que aparentemente já foi aceito, dado como certo e ponto final. Destaco dois não avanços: os recursos materiais para a melhoria das condições de trabalho do professor e o aumento das doenças nos profissionais da educação. Estes temas não são discutidos. São dados como certos e ninguém questiona. São problemas graves. Uma escola que adoece não pode ser uma escola boa para ninguém.

revistapontocom – Quais seriam hoje os principais desafios da pasta da educação do município do Rio?
Jorge Najjar – Listaria: a recuperação e manutenção da estrutura física de algumas escolas, a questão salarial dos professores, a formação continuada dos profissionais de ensino e a violência que perpassa o cotidiano das salas de aula. Mas creio que o aumento do tempo de escolarização dos alunos seja, de fato, o maior desafio, que de certa forma está ligado aos quatro primeiros que listei. Temos uma escola de cerca de quatro horas de aula por dia. Em todos os países em que a educação deu minimamente certo, o tempo da escolarização é grande e ampliado, pelo menos são oferecidas sete horas por dia. Escolarização que passa, obviamente, não apenas pelo oferecimento de disciplinas regulares, mas por reforço escolar, esportes e artes. Como podemos comparar os resultados, por exemplo, do PISA, entre as escolas brasileiras e as europeias? Em Portugal, as crianças estudam cerca de sete, oito horas por dia na escola. É o dobro do nosso ano letivo. Se não pensarmos desta forma, nossa educação não tem futuro. Pode-se ter até um bom professor. Mas pergunto: como este professor de Ciências, por exemplo, poderá ensinar bem em cinquenta minutos? Não dá. Pode-se ter também um excelente espaço físico. Mas com qual objetivo, se o estudante fica apenas quatro horas?

revistapontocom – O senhor acha que esses desafios podem ser vencidos por uma gestão de quatro anos?
Jorge Najjar – São desafios alcançáveis, não tenho a menor dúvida. Mas é sabido também que uma gestão de quatro anos não dá conta. Nada em educação se faz em curto prazo. Sabemos que um dos grandes problemas da educação no Brasil é o zigue-zague das políticas educacionais, que estabelece uma não continuidade de projetos e propostas. Comparando a rede municipal do Rio com a do Estado, tivemos certa continuidade de políticas educacionais, o que trouxe aspectos positivos. Talvez, não seja possível, em curto prazo, implantar em todas as escolas o horário integral. Mas é possível, sim, iniciar este processo, apontando para uma política de expansão, algo que possa, daqui a quinze, vinte anos, estar em pleno funcionamento em todas as escolas. Paulo Freire dizia: utopia é fazer hoje o que é possível para que amanhã a gente possa fazer o que não é possível hoje. Os novos gestores têm que ver a educação como um desafio. Não existe sociedade desenvolvida sem que as questões educacionais tenham sido sanadas.

revistapontocom – Quando o senhor fala de horário integral nas escolas, o senhor de certa forma está se referindo à política pedagógica do município do Rio. Como o senhor avalia a educação do Rio neste sentido?
Jorge Najjar – Faltam pesquisas sérias sobre a efetividade da política pedagógica do município do Rio. Há muita pouca coisa sendo pensada e escrita sobre o impacto desta política na aprendizagem. Há algumas semanas, a Faculdade de Educação da UFF teve um encontro com a atual secretária municipal de Educação, Claudia Costin, que nos chamou para conversar com o objetivo de constituir parcerias no que tange à formação de professores, mas também para induzir pesquisas na rede. Tal como eu, a secretária acredita que existem muitos “achismos” sobre a política e o seu impacto. Por exemplo: na educação especial, os pais são ouvidos no sentido de optarem por uma escola especial ou do sistema regular. Afinal, isso é bom ou ruim? A priori, você tem convicções muito fortes. Uns vão dizer que isso é muito bom e outros, que não é. Mas ninguém pesquisou sobre o tema. Faltam pesquisas que poderiam indicar se este procedimento tem impacto positivo ou negativo. Soma-se a isso, por outro lado, algo que é bem badalado nos dias de hoje, mas que vejo com muito cuidado: a vinculação da qualidade da educação a determinados índices e resultados. Talvez, o mais importante hoje em dia seja o do IDEB.  Acho que o indicador mostra, mas ao mesmo tempo, esconde coisas. Não diria que ele é o retrato da qualidade da educação, como vem sendo veiculado pela imprensa e por alguns educadores. Dito isso, se olharmos para os resultados do IDEB, o último tem aproximadamente dois anos, vamos ver que a taxa do Rio é relativamente baixa. Possivelmente, a taxa caiu em função do aumento do índice de reprovação, um dos indicadores do IDEB. Isto coincide com a mudança de governo que aconteceu há quatro anos, quando a chamada aprovação automática foi abolida e consequentemente o número de reprovados aumentou. Creio que em breve, ainda este ano, serão divulgados novos resultados do IDEB. Temos que prestar atenção para ver o que aconteceu. Esse novo resultado vai refletir o encaminhamento dado pela atual gestão da secretaria municipal de educação do Rio. Parece que deve aumentar um pouco. Mas mesmo assim deverá ser um aumento muito baixo para uma cidade do nível do Rio de Janeiro. Aumento que não expressa de forma alguma um qualidade de educação, uma escola de qualidade. Isso ainda está para ser construído e só pode ser construído, repito, a partir de pesquisas avaliativas sérias, principalmente, de processos e não de resultados.

revistapontocom – Neste sentido, o senhor defende uma maior aproximação entre o poder público e as universidades?
Jorge Najjar – Se a universidade estiver isolada da Educação Básica, ela perde o sentido de existir. Uma Faculdade Educação isolada é absolutamente inútil. É preciso jogá-la fora. Ela é cara. O dinheiro público investido poderia então ser aplicado com outra coisa. A Faculdade de Educação só tem sentido se estiver colada com a escola pública, aprendendo e dialogando. Sozinhas, as redes de Educação Básica não têm condições de dar conta de todo o trabalho administrativo e pedagógico que a educação exige. Pensar a Educação Básica por meio da prática, como se a teoria não tivesse sentido algum, é de uma imbecilidade enorme. E, de outro lado, achar que a teoria por si só se basta também não gera conhecimento e diálogo. Hoje, a universidade vem reconhecendo, cada vez mais, a sua responsabilidade social frente aos desafios do cotidiano. As instituições privadas visam ao lucro. As públicas precisam visar ao desenvolvimento social.

revistapontocom – Tendo em vista às eleições municipais deste ano, como a população pode e deve avaliar as propostas educacionais dos candidatos?
Jorge Najjar – As propostas de educação dos candidatos giram em torno de três questões: acesso, permanência e qualidade. A população deve observar o que as candidaturas estão propondo para a melhoria do acesso, que não se traduz apenas na garantia da vaga, mas na oferta de vaga próxima à residência, na facilidade do transporte etc. Com relação à permanência, é interessante examinar se os candidatos estão propondo um aumento na quantidade de horas que as crianças ficam na escola. Se há um projeto que garante a permanência dos meninos nas salas de aula. Estatisticamente, verifica-se que os meninos acabam deixando a escola muito mais cedo do que se pensa, muitas vezes pela necessidade de entrar no mercado de trabalho para ajudar no orçamento das famílias. O candidato tem alguma proposta para assegurar os estudos dos rapazes? É preciso ver também de que forma as plataformas educacionais estão pensando/planejando a estrutura física das escolas e os cursos de formação para os professores. Não precisa ser mestre ou doutor em educação para avaliar as propostas. Sugiro: avalie as propostas de acordo com o que você deseja para o seu filho em relação ao acesso, permanência e qualidade.

revistapontocom – Qual deveria ser o perfil do próximo secretário de educação do município do Rio de Janeiro?
Jorge Najjar – Que ele seja da área de educação. Tem crescido uma ideia muito perversa de que o problema da educação é de gestão, sequer de gestão escolar. E aí o que se faz: em vez de nomear educadores como secretários, empossam gestores. É o caso do Estado do Rio de Janeiro. O atual secretário não é educador, não quer ser e com orgulho fala que não é. São gestores que estão dando o tom da educação. Isso é o fim do mundo. Portanto, que o próximo secretário de educação seja uma pessoa da área, que goste, conheça e queira trabalhar com educação. Não é isso que eu vejo em muitos lugares. E mais ainda: que o próximo prefeito não veja a Educação como gasto e problema, mas como investimento e solução. Já tivemos na cidade do Rio de Janeiro candidatos/prefeitos que recebiam o apoio de muitos professores exatamente porque tinham, de fato, um projeto para a educação. A educação não era algo que vinha a reboque, mas estava à frente do projeto político.

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