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Espiritualidade e educação

2 comentários
30jul

Por Marcus Tavares

De 1º a 5 de outubro, o Núcleo de Educação e Espiritualidade da Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com o Instituto de Formação Humana, vai promover o encontro A condição humana: olhares da espiritualidade, educação, saúde e tecnologia. O objetivo é aproximar a temática da espiritualidade da formação humana, como um novo campo do estudo acadêmico.

“O ser humano precisa se humanizar, desenvolver mais plenamente possível suas possibilidades e capacidades. Este entendimento de formação humana deve se incorporar aos objetivos educacionais, que só serão atingidos por meio da consideração dos aspectos mentais, emocionais, corporais, relacionais e transcendentes do ser humano”, destaca o coordenador do evento, o professor José Policarpo Júnior.

Em entrevista, por e-mail, à revistapontocom, Policarpo afirma que a falta desta comunhão entre a educação e a espiritualidade pode explicar os aumentos de violência e a falta de estímulo e comprometimento da juventude. Segundo ele, a educação foi reduzida historicamente “a um processo de desenvolvimento apenas cerebral, lógico, cognitivista, sob nomes pomposos de construtivismo e mesmo de educação integral”.

Acompanhe:
revistapontocom – Qual é o objetivo do evento?
José Policarpo Júnior – Na verdade, são três eventos reunidos por uma temática única A condição humana: olhares da espiritualidade, educação, saúde e tecnologia. Os eventos são o I Encontro Internacional de Educação e Espiritualidade, o I Encontro Brasileiro de Formação Humana e o VI Encontro de Filosofia da Educação do Norte e Nordeste. Os objetivos de tais eventos encontram-se dispostos na página eletrônica www.formacaohumana.org/eventos, mas podemos dizer, em síntese, que o principal objetivo é fortalecer e, talvez, instituir a temática da espiritualidade e da formação humana como um campo da ciência, do estudo acadêmico sistemático, quer em termos teóricos, quer de intervenção. O Brasil, em termos do tratamento científico e acadêmico dessas temáticas, está ainda muito pouco desenvolvido em relação a alguns países, como os EUA. É preciso demonstrar à comunidade acadêmica brasileira – e já há alguns cientistas e estudiosos brasileiros que têm tomado para si tal responsabilidade – que as temáticas da espiritualidade e da formação humana não são assunto apenas da religião ou da moral.

revistapontocom – O que o senhor quer dizer com o binômio educação e espiritualidade?
José Policarpo Júnior – Quando dizemos que o ser humano é racional, certamente não queremos significar que ele o é completamente. Sabemos, por experiência própria e alheia, que há vários aspectos em nós que, como dizia o filósofo Aristóteles, resistem a obedecer à razão. No entanto, ao dizermos que o ser humano é racional, estamos indicando que todo ser humano tem em si a potencialidade de desenvolver-se racionalmente e procurar guiar-se desse modo – isto não significa excluir ou abandonar os outros aspectos/dimensões do humano, mas alinhá-los, sem violência, aos princípios da razão. Sabemos o quanto isso é difícil e que agir racionalmente pressupõe que alguém tenha sido cultivado para tal atitude. Pois bem, a analogia se presta também ao entendimento da espiritualidade. Ao dizermos que o homem é espírito, entendemos que nem tudo nele o é, mas, sim, que o ser humano é chamado a orientar-se de acordo com o entendimento do que é espiritual. Meu colega e amigo Ferdinand Röhr, também um dos organizadores desses eventos, costuma compreender a tarefa formativa como a orientação de todos os aspectos do humano (mente, emoções, comportamento) pela espiritualidade, a qual, para ele é uma dimensão em si. Podemos também entender que o ser humano é espírito ao compreendermos que o que há de mais sublime nas realizações humanas (os valores humanos como a solidariedade, a compaixão, a igualdade, a paz; o amor; o altruísmo etc.) é por nós chamado de espiritual, no sentido, por exemplo, que a filósofa Hannah Arendt atribuía a todas as atividades humanas invisíveis, como o pensar, o julgar, o querer. A espiritualidade é aquilo que, em nós ou além de nós, nos toca incondicionalmente a vivermos de um modo que supere a visão estreita dos nossos desejos e preferências egocêntricas. A compreensão disso acontece por meio de uma razão que se abre ao acolhimento do que é sábio e equânime. Quando compreendemos que esses valores não são inventados por nossa mente, mas acolhidos de algo que transcende a nossa própria mente, estamos próximos a reconhecer a natureza espiritual do humano. Esta compreensão, portanto, de espiritualidade contribui para o entendimento do que vem a ser a tarefa formativa da educação. Reconheço, entretanto, que não é estritamente necessário que alguém aceite tal compreensão para entender a tarefa formativa educacional, embora aquela compreensão em muito facilite o entendimento desta última.

revistapontocom – Por que é preciso discutir, em pleno século XXI, a ‘formação’ humana, sob o ponto de vista educacional, emocional e relacional. Isso já não seria um consenso?
José Policarpo Júnior –
São partes intrínsecas da condição humana os aspectos emocionais e relacionais. As emoções do ser humano são uma herança ancestral que perdura até agora. Não se conhece, nem se concebe, ser humano sem emoções/sentimentos, nem sem relacionamentos – por mais que tais aspectos possam se encontrar em estado bruto, sem burilamento ou formação em qualquer ser humano em particular. Portanto, esta não é uma questão do século XX, XXI ou do século V a.C. Esta é uma questão do humano, assim como o são os aspectos da razão e de sua corporalidade. O que talvez seja novo (não no sentido de que isso fosse desconhecido por outras culturas, sociedades e civilizações outras, e até mesmo pela civilização ocidental em algumas de suas épocas definidas) seja o fato de a ciência começar a se interessar e passar a levar em consideração, no seu modo de proceder, as contribuições de sabedoria e prática que já anunciavam há muito tempo que o homem precisa, pode e deve conhecer o seu interior, que se relaciona ao modo como se expressa exteriormente.

revistapontocom – Quando se fala em condição humana, o senhor destaca o aspecto educacional, o emocional e o relacional. Todos têm a mesma importância?
José Policarpo Júnior –
Sim. Aliás, a formação humana é um processo que visa a desenvolver e humanizar aquilo que no ser humano precisa de atualização ou se encontra em estado bruto ou não humanizado. A educação é uma parte da formação humana que se caracteriza pela intenção explícita de promover tal desenvolvimento em todas as dimensões e áreas do humano que dele necessitam. Neste sentido, as dimensões emocional e relacional são algumas das dimensões humanas que necessitam de cultivo. O ser humano precisa se humanizar, desenvolver o mais plenamente possível suas possibilidades e capacidades – este entendimento de formação humana deve se incorporar aos objetivos educacionais, que só serão atingidos por meio da consideração dos aspectos mentais, emocionais, corporais, atitudinais, relacionais e transcendentes do ser humano.

revistapontocom – O senhor acha que a escola está afastada desta discussão?
José Policarpo Júnior – Sim, infelizmente, e principalmente no Brasil. A origem latina da palavra educação alude a educere e educare, termos que fazem referência a trazer para fora ou desenvolver e alimentar e cultivar – em suma: fazer desenvolver o que o ser humano já traz em si, por meio do cultivo e cuidado apropriados disponibilizados por alguma instância capacitada a fazê-lo. Se a escola possui função educacional, é claro que deveria primar pela compreensão e comprometimento com o desenvolvimento integral e individual de cada ser humano. Acontece que a educação sistemática, devido a inúmeros fatores (familiares, sociais, econômicos, culturais e políticos), foi reduzida historicamente, especialmente nas últimas três décadas no Brasil, a um processo de desenvolvimento apenas cerebral, lógico, cognitivista, sob nomes pomposos de construtivismo e mesmo de educação integral. Sob tal entendimento, a educação, do ponto de vista majoritário dos pais, dos governos, das escolas e das empresas, reduz-se à introjeção, pelos seres humanos singulares, das formas lógicas de uma inteligência desencarnada e objetificante apenas. Isto acontece porque a educação foi reduzida à função de disponibilizar tais formas entre os sujeitos para fins de reprodução e competição econômicas. Os pais, escolas e governos querem seus filhos, alunos e cidadãos mais aptos a incorporar as formas lógicas da inteligência matemático-linguístico-conceitual, mesmo que tais crianças, adolescentes e jovens sejam criados em meio a um grande analfabetismo interior e individual. Tudo isso, entretanto, cobra um preço e não deveríamos nos impressionar com os aumentos de violência, de falta de estímulo e comprometimento da juventude com tais metas. Isto é o resultado da vasta incompreensão que se abate sobre os formuladores de políticas educacionais, sobre as escolas e os pais.

revistapontocom – A proposta de uma educação pautada na espiritualidade não altera o encaminhamento da educação dos dias de hoje? Isso não seria uma utopia?
José Policarpo Júnior
– Sim, altera. Aliás, seria difícil encontrar alguém, mesmo entre os opositores radicais da ideia de espiritualidade, que defendesse a educação sistemática do modo como está. Em minha opinião, entretanto, a compreensão que deriva da espiritualidade, encarnada em atitudes congruentes, seria algo que estaria mais próximo à realização de algumas das próprias metas que as estruturas escolares e os governos fazem a si mesmos. Logicamente, uma educação espiritual é respeitadora daquilo que o ser humano é e pode vir a ser e, em tal sentido, não pode se comprometer com metas homogeneizadoras dos governos e das agências internacionais, a despeito de que compreendamos que um ser humano em formação que progressivamente entre em contato aprofundado consigo mesmo e com os demais estará mais propenso, inclusive, a atingir melhor performance naquilo que o sistema dele costuma exigir. Entretanto, é preciso desde logo deixar claro que isto não é utópico. Inclusive já temos muitos instrumentos que podem ajudar nesse empreendimento, embora o cognitivismo disseminado na educação contribua para seu desconhecimento ou para a indisposição em procurá-los. Só para dar um exemplo, podemos certamente ensinar as crianças e adolescentes, com nível significativo de comprovação por rigorosos meios científicos, a entrar em contato com seu interior, a familiarizar-se com a economia de suas emoções, a saber reconhecer e monitorar seus estímulos, a entender os modos adequados de estabelecer relações, amizades e projetos em comum, a tolerar frustrações e saber ser flexível e persistente diante de obstáculos etc. Em relação a tais aspectos, por exemplo, nestes eventos estaremos lançando, oficialmente, o currículo “Educação emocional e relacional para crianças – pensamento, afetividade e trabalho com habilidades sociais (PATHS)”, de autoria de Carol Kusché e Mark Greenberg. A obra foi traduzida e editada no Brasil pelo Instituto de Formação Humana. Se um material dessa qualidade, que já foi traduzido em mais de 10 idiomas e aplicado em mais de 10 países, fosse certificado, por exemplo, pelo Ministério da Educação, seria possível que a publicação fosse disponibilizada para qualquer professor. O Brasil tem recursos para isso. Faltam discernimento e esclarecimento das autoridades, dos gerentes, dos pais e professores – menos destes últimos e muito mais dos primeiros – para se comprometer com iniciativas que levem a tais finalidades.

revistapontocom – O seu grupo de pesquisa Educação e Espiritualidade, criado em 2009, vem mostrando o quê neste campo de estudo?
José Policarpo Júnior –
Grande parte do que falei aqui vem sendo estudado – de modo teórico e com intervenções balizadas cientificamente – pelo Núcleo e também pelo Instituto de Formação Humana. Já temos teses e dissertações defendidas e artigos publicados que expressam tais ideias. Alguns desses estudos, por exemplo, já empreenderam análise de intervenções concretas junto a jovens e crianças para a promoção do desenvolvimento emocional, relacional, compreensão da individualidade e do sentido pessoal próprio de vida no mundo. Aliás, a própria edição brasileira do PATHS acima mencionado, apesar de ser uma realização do Instituto de Formação Humana, mantém relação com as preocupações e reflexões geradas no âmbito do referido Núcleo.

revistapontocom – O senhor poderia dar um exemplo de um dos estudos do seu grupo?
José Policarpo Júnior – Uma de minhas ex-orientandas, Paula Cordeiro, defendeu uma tese de doutorado que estudou um componente curricular por ela mesma composto, com minha orientação, com o objetivo de desenvolver a ideia de individuação, de monitoração das emoções, de cultivo da empatia e da escuta, de estabelecimento de metas e de relações positivas entre jovens do Ensino Tecnológico. Um dos vários resultados da intervenção demonstrou o quanto esses jovens (que não conferiam importância a tal formação em seu início) passaram a compreender e valorizar a importância de escutarem a si mesmos, de entender a dinâmica das emoções e a aprender a como monitorá-las e direcioná-las, deixando, portanto, de caírem como suas vítimas, de controlar sua impulsividade, inclusive percebendo o ganho de concentração e capacidade de desenvolver tarefas e atividades complexas, que antes eram simplesmente percebidas como dificuldades exteriores, de atribuir para si mesmos metas dignas e significativas, de estabelecer relações pessoais mais sadias. Enfim, os jovens (como igualmente as crianças e adolescentes) passaram a entender mais o que significa sincronizar os valores, suas metas, pensamentos, sentimentos, comportamentos, e a perceber o ganho pessoal e a realização existencial de o fazer.

2 thoughts on “Espiritualidade e educação

  1. Gratidão!!! Maravilha saber que existem tantas pessoas com o mesmo propósito que nós.

  2. Amei, sem palavras. Quero defender minha monografia com esse tema.
    Gostaria de maiores contato e referências, poderiam me mandar?

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