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Índios: ignorados pelo país

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11dez

Por Marcus Tavares

Ao participar do V Encontro Internacional de Cinema e Educação da UFRJ, realizado no Museu de Arte Moderna do Rio, no fim de novembro, o coordenador do projeto Vídeo nas Aldeias, o cineasta Vincent Carelli, afirmou que o Brasil ignora a realidade dos indígenas. Disse que não se ensina nada nas escolas. E que os jornalistas, quando abordam o tema, falam de forma equivocada e cheia de clichês.

Vincent Carelli sabe do que está falando. O projeto Vídeo nas Aldeias surgiu em 1987, com o objetivo de apoiar as lutas dos povos indígenas para fortalecer suas identidades e patrimônios territoriais e culturais, por meio de recursos audiovisuais e de uma produção compartilhada com os próprios povos. De lá para cá, o programa cresceu e hoje conta com um acervo de aproximadamente 70 filmes produzidos pelos índios, por meio de oficinas oferecidas pelo projeto nas 30 aldeias em que trabalha.

Nas oficinas, os integrantes das aldeias têm aulas de utilização da câmera. A ideia é capacitar os participantes para que eles gravem suas imagens, construam seus filmes. Segundo Vincent, as obras não seguem um roteiro pré-estabelecido. “Não há uma temática central. Orientamos os alunos a escolherem um personagem de sua aldeia para mostrar o dia a dia dele. Valorizamos o espontâneo, o que não está pronto. Os imprevistos são ótimos. Não partimos de uma proposta pré-concebida da qual vamos extrair o conteúdo. Não há uma pressão para que os filmes sejam produzidos. Se eles acontecerem, aconteceram. A criação da história começa no momento da filmagem, mas ganha forma com a edição. Hoje, com o avanço da tecnologia, conseguimos editar na própria aldeia, o que nos permite voltar e gravar mais alguma cena”, destaca.

No dia a dia da filmagem, verifica-se que o projeto auxilia a aproximação das gerações. Muitas vezes, o cineasta indígena acaba conversando com uma pessoa mais idosa da aldeia, que lhe conta histórias do passado, da cultura e do povo. “O que é bem enriquecedor, pois grande parte dos alunos é professor de escolas indígenas. Os cineastas acabam se tornando pesquisadores. É um diálogo de auto-conhecimento de seu próprio povo”, afirma Vincent.

Com relação às técnicas, eles aprendem durante as aulas e a edição, que acompanham. Na prática, eles exercitam uma experiência de cinema, embora não tenham referência cinematográfica. Têm, sim, de televisão. Cerca de 99% das aldeias têm tevê. Vincent avisa: “eles são apaixonados por futebol e adoram filme de ação. Um dos grandes ídolos é Bruce Lee”.

Os índios não só produzem o material, mas também consomem. Os diferentes povos se interessam em ver a cultura de outra aldeia e a partir daí ficam, inclusive, incentivados a mostrar a sua. E ficam, extremamente, contentes quando são vistos pelo Brasil. “Quando era exibida a série de TV A’UWE  [programa de tevê apresentado pelo ator Marcos Palmeira, que trazia a produção dos índios], pela primeira vez, os índios tiveram a sensação de que o Brasil, do qual pertencem, estava olhando para eles”.

Para Vincent, o índio, no senso comum, ainda é visto e entendido pela sociedade como parte do mito da origem do Brasil. “O índio é uma ficção criada pelos intelectuais europeus, é o bom selvagem. Essa ficção se cristalizou tanto que há, até hoje, uma crítica da sociedade para o índio que não se veste e vive como índio. Índio que é índio tem que andar pelado e viver como tal. É preciso desconstruir essa imagem equivocada. Desfazer a imagem do bom selvagem”.

Para atender à demanda por materiais didáticos necessários para a implementação das leis 11.645 e 10.639, que incluem no currículo oficial escolar a obrigatoriedade do estudo das Histórias e Culturas Indígenas, o Projeto Vídeo das Aldeias criou a coleção Cineastas Indígenas: outro olhar, que reúne 20 documentários em DVD sobre cinco etnias brasileiras: Kuikuro, Huni Kui, Panará, Xavante e Ashaninka.

Os filmes foram concebidos e realizados pelos próprios índios. No portal do projeto (www.videonasaldeias.org.br), há ainda o Guia para professores e alunos, com sugestões de usos em sala de aula e um farto material de referência sobre os povos retratados. Os filmes, fruto de oficinas produzidas pela instituição nas aldeias do Mato Grosso e Acre, oferecem uma variedade de abordagens da temática indígena, que pode ser tratada nas aulas de História, Geografia, Meio-Ambiente, Cidadania, Ciências-Sociais, Filosofia e Artes. Confira, aqui, o material.

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