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Midiaeducação em debate

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17maio

“Na sociedade da informação, a mídia-educação torna-se ou pode tornar-se educação e, nessa perspectiva, a mídia-educação não seria apenas um campo de estudo e intervenção, mas uma postura midia-educativa que seria patrimônio de cada professor e educador”, destaca Monica Fantin.

Por Marcus Tavares

O que é midiaeducação? Um conceito? Uma ideia? A sua grafia escrita junta ou separada traduz algum significado? Existiria outro termo que definiria melhor a interface entre a educação e a mídia? Trata-se de um novo campo de estudo? A revistapontocom dá prosseguimento à publicação da primeira parte do Dossiê midiaeducação, na qual publica entrevistas com professores, estudiosos e pesquisadores sobre o tema. A cada semana, uma nova entrevista. Um novo olhar. Uma nova perspectiva sobre a interface mídia e educação.

Para a OSCIP Planetapontocom, midiaeducação é um conceito que se traduz em um trabalho educativo sobre os meios, com os meios e através dos meios. Sobre os meios, refere-se ao estudo e análise dos conteúdos presentes nos diferentes meios e suas linguagens. Com os meios, trata-se  do uso dos meios e suas linguagens como ferramenta de apoio às atividades didáticas. E através dos meios, diz respeito a produção de conteúdos curriculares para e com os meios, em sala de aula e, também, a educação a distância ou virtual, quando o meio se transforma no ambiente em que os processos de ensino-aprendizagem ocorrem.

Nilda Alves, Rosália Duarte, Eduardo Monteiro, Afonso Albuquerque, Paulo Carrano, Ismar de Oliveira, Regina de Assis, Inês Vitorino, Gilka Girardello, Rita Ribes, Guaracira Gouvêia são alguns dos nossos convidados/entrevistados da série. Nesta semana, você confere a entrevista concedida pela professora Mônica Fantin, coordenadora do Grupo de Pesquisa Núcleo Infância, Comunicação e Arte da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Organizadora do livro Liga, roda, clica: estudos em mídia, cultura e infância (Papirus Editora), Monica entende que o papel da educação configura-se em um instrumento educativo que visa à construção de competências de professores a trabalhar pedagogicamente com as mídias, tecnologias e suas múltiplas linguagens em contextos formais e não formais.

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Como podemos definir o conceito midiaeducação? 
Monica Fantin – A definição do conceito de mídia-educação vem se construindo ao longo dos anos como uma reflexão metodológica e epistemológica sobre a práxis de educar para, com e através das mídias. Assim, a mídia-educação pode ser entendida basicamente a partir de três dimensões: a) como um campo de conhecimento interdisciplinar na interseção das ciências da educação e comunicação, em construção; b) como disciplina curricular ou eixo transversal;  c) como prática social e cultural em diferentes contextos escolares e extra-escolares que signifiquem um trabalho de educação midiática. Ou seja, mídia-educação pode ser entendida como área de saber e de intervenção em diversos contextos: como práxis educativa com campo metodológico e de intervenção didática, e como instância de reflexão teórica sobre essa práxis. Considerando os desafios do fazer educativo hoje, para alguns estudiosos a mídia-educação pode ser entendida como a própria educação. Na sociedade da informação, a mídia-educação torna-se ou pode tornar-se educação e, nessa perspectiva, a mídia-educação não seria apenas um campo de estudo e intervenção, mas uma postura midia-educativa que seria patrimônio de cada professor e educador.

revistapontocom – De onde surgiu este conceito?
Monica Fantin – Considerando que todo conceito é por natureza múltipla, compreender o conceito é compreender suas articulações e seus movimentos. Assim, diversos países têm trabalhado pedagogicamente com as mídias antes de uma definição única e sistematizada a esse respeito. Tendo surgido como sensibilidade educativa no confronto com as mensagens das mídias (mas não ainda como movimento consciente), a mídia-educação, ou Media Education, nasce e se desenvolve paralelamente à indústria cultural, por volta dos anos 20.  Se nesse início o sentido predominante era o de educar para as mídias, aos poucos vai agregando o sentido de educar com e através das mídias articulando as perspectivas crítica, instrumental e expressivo-produtiva. Neste contexto, a primeira definição oficial do conceito de Media Education foi apresentada na França pelo Conselho Internacional de Cinema e Televisão  (CICT), órgão ligado a UNESCO, em junho de 1973, e referia-se ao estudo e aprendizagem dos modernos meios de comunicação como disciplina autônoma no âmbito da teoria e prática pedagógica, e reconhecia a escola como um lugar especifico da mídia-educação. Em 1979, esse mesmo conselho amplia o campo de intervenção das mídias como processos culturais e sociais, e consequentemente seu conceito, permitindo pensar na especificidade da mídia-educação como prática social e cultural, para além de uma disciplina curricular.

revistapontocom – Qual é o objetivo da midiaeducação?
Monica Fantin – Poderíamos falar em objetivos, no plural: formação de um sujeito crítico e criativo, um usuário ativo e responsável no uso das mídias, tecnologias; democratização de oportunidades educacionais no sentido de interpretação, acesso e produção de saberes na cultura digital; educação para a cidadania instrumental e de pertencimento cultural; e ampliação dos repertórios culturais e desenvolvimento da capacidade comunicativa e expressiva com o uso de múltiplas linguagens.

revistapontocom – Midiaeducação é a forma mais correta de nomear este conceito?
Monica Fantin – Pelo que mencionei acima, a construção de um conceito é algo em movimento e expressa os desafios de cada momento histórico. Hoje, por exemplo, o conceito de mídia-educação deve considerar a centralidade que as novas mídias e tecnologias ocupam na vida contemporânea bem como os novos desafios teórico-metodológicos que têm sido colocados à mídia-educação. Nesse sentido, há quem fale em New Media Education como um novo paradigma no sentido de responder aos desafios colocados a partir da centralidade das mídias, não como mais um aspecto da educação. Para alguns estudiosos a New Media Education necessitaria de uma “nova pedagogia” que poderia se expressar tanto na direção de uma redefinição ou “correção” conceitual da mídia-educação, quanto na mudança do paradigma no âmbito dos estudos da mídia e cultura. Aliado a essa possibilidade de redefinição conceitual podemos retomar a ideia da postura mídia-educativa, onde mídia-educação torna-se postura do professor e do educador (à medida que todos educadores enfrentam tais desafios) e a mídia-educação então, torna-se a própria educação. Nessa perspectiva, a mídia-educação também pode ser entendida como linguagem, ou melhor, como múltiplas linguagens ou multiliteracies. E isso diz respeito a uma concepção ecológica da mídia-educação, que seria o uso de todas as mídias: fotografia, rádio, cinema, televisão, internet, vídeo game, celular, redes sociais, na perspectiva da convergência digital sem esquecer a dimensão da corporeidade, do gesto, do olhar, e do movimento. A meu ver, parece ser uma concepção mais abrangente que inclusive pode envolver o sentido da New Media Education. Quanto à grafia, escrevo Mídia-Educação ou mídia-educação, com hífen, porque quando comecei a estudar a esse respeito era o termo consagrado pelo uso mais corrente da tradução de media education (em inglês), éducation aux médias (em francês), educación en los médios (em espanhol) ou ainda educação para os meios (em português de Portugal). Por ser um termo mais conciso, me parece que o hífen em mídia-educação expressa essa “palavra composta” que une os elementos dos dois campos mediante uma nova “composição” que vai criando neologismos e semânticas novas formadas ao sabor dos usos que fazemos. Afinal, como diz Wittgnestein em sua filosofia da linguagem, o significado das palavras reside no modo como são usadas.

revistapontocom – Qual é o papel da educação nesta relação?
Monica Fantin – Considerando que não existe educação sem comunicação, o papel da educação ou da mídia-educação seria tanto o de propiciar às crianças, aos jovens e aos professores o que se tem denominado alfabetização ou letramento midiático visando não apenas o domínio técnico e instrumental dos códigos dos meios, mas a formação de uma consciência da condição de “estar alfabetizado” nessas linguagens. Isso implica também a possibilidade de um pensamento crítico que permita aos sujeitos avaliar ética e esteticamente os conteúdos midiáticos de forma a construir um pensamento autônomo, mas também colaborativo, que, por sua vez, implica a capacidade de se expressar mídia-educativamente. O papel da educação configura-se como um instrumento educativo que visa à construção de competências de professores a trabalhar pedagogicamente com as mídias, tecnologias e suas múltiplas linguagens em contextos formais e não formais. Dessa forma, o papel da educação relaciona-se aos objetivos da mídia-educação mencionados acima e envolve tanto a presença da mídia-educação nas escolas e na formação inicial do professor como em outros âmbitos e contextos formativos.

revistapontocom – Qual é o papel da mídia nesta relação?
Monica Fantin – Considerando que a atuação dos profissionais da comunicação possui uma dimensão educativa, tendo-se consciência ou não, os comunicadores educam, “formam consciências” e constroem um capital simbólico do público. Dessa forma, a mídia-educação poderia atuar na perspectiva de instrumento cultural e educativo, tanto na formação prática-reflexiva dos profissionais da comunicação como na capacitação de educadores em geral (e professores em particular) oportunizando aos profissionais da mídia refletir sobre as atividades relacionadas a esse campo. Assim, jornalistas e publicitários, por exemplo, poderiam prestar mais atenção à dimensão educativa de seu trabalho quando produzem notícias e propagandas que desrespeitam o direito das crianças. Ou seja, poderiam prestar mais atenção no endereçamento de suas matérias e nos direitos de tal público em relação às mídias. Neste sentido, a formação em mídia-educação destes profissionais ou a presença de um mídia-educador nas empresas de comunicação ou agências de publicidade poderiam fazer a diferença. E essa ação colaborativa entre professores e profissionais da comunicação é uma possibilidade da mídia-educação.

4 thoughts on “Midiaeducação em debate

  1. tive o prazer de ler para compreender sobre este assunto em relevância para fazer um trabalho de sala de aula

    1. Acredito que, dentro deste conceito de midia-educação proposto pela profa. Monica, caberia acrescentar a importância de se analisar também uma crítica à respeito da má utilização das midias pelas pessoas. Por exemplo, postagens de cyberbulyings, noticias ‘fake’ que são publicadas, entre outras. Enfim mostrar que, apesar de ser um instrumento fantástico e ilimitado de possibilidades, existe uma certa limitação (?), ou uma certa ‘moralidade’, na utilização da ‘midiaeducação. Sem mais. Cordialmente. Amedeo Marcucci

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