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O negro nas revistas em quadrinhos

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22Maio


Por Marcus Tavares

O pesquisador Nobuyoshi Chinen acaba de defender a tese de doutorado O papel do negro e o negro no papel: representação e representatividade dos afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros, na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O estudo fez um levantamento da presença de negros nas HQs nacionais, publicadas no período de 1869 a 2011. Chinen encontrou poucos personagens. E muitos deles em papéis de subordinação, aparecendo como elemento cênico para provocar efeito cômico e sempre de forma estereotipada.
Embora não tenha sido possível traçar um panorama fidedigno, na impossibilidade de se conhecer todo o material publicado em HQ no período, a lista dos personagens é pequena. Destacam-se, Jeremias, Benjamin, Pererê, Azeitona. Os personagens celebridades: Pelezinho e Ronaldinho Gaucho. E os mais recentes, como Luana e Aú.

Na avaliação de Chinen, a falta de personagens negros nas HQs cria uma falta de identificação que pode ter gerado ressentimentos e a diminuição da autoestima por parte das crianças negras. “É uma suposição”, diz o autor, destacando que a pesquisa não avaliou o impacto junto às crianças.

Acompanhe a entrevista concedida à revistapontocom:

revistapontocom – O que você constatou com sua pesquisa?
Nobuyoshi Chinen –  A minha pesquisa teve o objetivo de fazer um levantamento de como os negros aparecem nas histórias em quadrinhos, tanto na representatividade, ou seja, na quantidade de personagens afrodescendentes, quanto na representação, no modo como eles são retratados. Tinha como hipótese o fato de que os negros eram pouco e mal representados nos quadrinhos. O que o estudo permitiu constatar foi que, de fato, historicamente, isso é verdadeiro, mas que em tempos recentes esse quadro vem passando por mudanças significativas. Pesquisei o máximo de títulos em quadrinhos nacionais, de todos os gêneros, publicados entre 1869, considerado o marco inicial dos quadrinhos no Brasil, até 31 de dezembro de 2011, que foi instituído pela Organização das Nações Unidas (Onu) como o ano Internacional do Afrodescendente, no qual tinha a expectativa de que fossem publicadas várias obras alusivas à essa comemoração, o que, de fato, acabou se confirmando. De uma caracterização muito estereotipada, predominante no passado, houve uma evolução com traços menos exagerados.

revistapontocom – É possível traçar o lugar do negro nas HQs brasileiras?
Nobuyoshi Chinen – Não existe um lugar específico, não encontrei dados suficientes que pudessem definir um espaço determinado até porque ele pouco aparecia. O papel que desempenhavam era sempre de subordinação, de funções subalternas. Normalmente como elemento cênico para provocar efeito cômico e sempre de forma estereotipada. Em trabalhos mais recentes há uma preocupação em trazer o negro como protagonista e até de valorização da cultura afro-brasileira. Apesar de estar mais presente, o personagem negro ainda é pouco frequente e o melhor teste que faço é perguntar para as pessoas quais personagens negros de quadrinhos elas conhecem. Infelizmente, a resposta se restringe a pouquíssimos nomes, isso quando há alguma menção. Apenas a título de comparação, é só analisar a série mais bem sucedida dos quadrinhos nacionais, a Turma da Mônica em que existe um único personagem negro, o Jeremias, que, aliás, eu considero como sendo terciário, pois aparece bem pouco nas tramas. Mauricio tem outros personagens negros: Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho, que entram no meu trabalho como celebridades que se tornaram personagens de quadrinhos.

revistapontocom – Mesmo com pequenos personagens, é possível traçar marcos na historiografia das HQs com relação à presença do negro?
Nobuyoshi Chinen – Existem personagens que foram mais marcantes, que fizeram mais sucesso e tiveram maior repercussão. O Benjamin, da série Chiquinho, publicado na revista O Tico-Tico foi um desses casos e que durou várias décadas. O Pererê, do Ziraldo, é um dos raros personagens negros a ter tido uma revista própria. O Azeitona, que compunha um famoso trio com Reco-Reco e Bolão, criado por Luiz Sá, também fez muito sucesso nas décadas de 1930 e 1940. Esses e alguns poucos mais podem ser considerados como marcos, constantemente citados pelos estudiosos dos quadrinhos, como Moacy Cirne e Alvaro Moya.

revistapontocom – Há alguma influência estrangeira sobre a produção das HQs brasileiras, impactando inclusive a presença/representação dos negros nas histórias?
Nobuyoshi Chinen – Sim e muita. Historicamente, os quadrinhos estrangeiros sempre foram os mais presentes no Brasil e dominaram o mercado, exercendo uma inegável influência no consumo, nos gostos e na maneira de se fazer quadrinhos. Nem haveria espaço aqui para explicitar e enumerar todos os casos, mas basta dar uma passada em qualquer banca de revista e ver a quantidade de super-heróis e de publicações de mangás para constatar. No caso específico de personagens negros, o estereótipo consagrado e que predominou durante as primeiras décadas do século XX derivou de uma representação inspirada nos minstrels, artistas brancos que pintavam o rosto de preto e realçavam a região da boca com um contorno exagerado. Segundo Harris, foi a partir dessa representação, em meados do século XIX, que se popularizou o tipo de representação que foi usada nos cartuns, desenhos animados e nas histórias em quadrinhos. Acho razoável supor que, se os desenhistas brasileiros de quadrinhos já tinham acesso ao material americano a ponto de decalcar o personagem Buster Brown, de Richard Outcault, e batizá-lo no Brasil de Chiquinho, provavelmente também se inspiraram na forma como eram desenhados os personagens negros nos Estados Unidos.

revistapontocom – De que forma esta historiografia das HQs com relação à presença do negro impactou a formação de gerações de crianças?
Nobuyoshi Chinen – Acho que pode ter havido um impacto pela ausência. Essa omissão cria uma falta de identificação que pode ter gerado ressentimentos e a diminuição da autoestima por parte das crianças negras, mas minha pesquisa não tinha o propósito de fazer esse tipo de levantamento. É uma suposição.

revistapontocom – Você disse que a presença do negro, nos dias de hoje, está um pouco melhor. A que se deve esta mudança positiva?
Nobuyoshi Chinen – Com toda certeza houve uma mudança positiva. E foi muita sorte ter feito a minha pesquisa exatamente nessa época e não há cinco anos. Há mais personagens negros em papéis de protagonistas nos quadrinhos e a representação estereotipada já não ocorre. Como exemplos cito a revista Luana, criada por Aroldo Macedo, e o álbum Aú, o capoeirista, de Flávio Luiz. Também tem havido uma valorização da cultura negra e, nesse aspecto dois exemplos são o álbum AfroHQ, de Amaro Braga, Danielle Jaimes e Roberta Cirne; e Orixás, de Alex Mir, Caio Majado e Omar Viñole. Um dos fatores foi a Lei 10.639 que instituiu o ensino da Cultura Afro-brasileira nas escolas de Ensino Básico, mas creio que também haja certa evolução da sociedade que tem menos tolerância a atitudes racistas. O que não quer dizer que o preconceito tenha sido totalmente extinto.

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