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Cultura digital

2 comentários
25abr

Por Marcus Tavares

Fala-se hoje a todo instante que vivemos na cultura digital. Cercados de tecnologias de informação e comunicação, as chamadas TICs, somos impactados em todas as relações e contextos, da casa ao trabalho. Mas o que realmente entendemos por cultura digital? Aliás, o que significa cultura digital para a categoria do magistério que enfrenta o desafio diário de lidar com crianças e jovens cada vez mais conectados às mídias? Esta foi a pergunta central da dissertação de mestrado da pedagoga Luciana Santos. Intitulada de Imaginário tecnológico de professores: ser professor em tempos de tecnologias digitais, a dissertação foi defendida no início de abril, no Departamento de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

Luciana ouviu 15 professores da rede pública estadual e particular de ensino do Estado do Rio de Janeiro. Analisando as falas, o dito e o não dito, a pesquisadora aponta que os educadores entendem a cultura digital na escola como suporte para simplesmente qualificar a “ilustração do conteúdo”. Segundo o estudo, os profissionais de ensino acreditam que, embora os estudantes tenham, de fato, uma familiaridade maior com as tecnologias, eles não são capazes de transformar informação em conhecimento. E, neste sentido, os educadores têm pela frente um novo papel: o da mediação do conhecimento.

Os professores reconhecem que a profissão docente passa por mudanças devido ao contexto de massificação das TICs. Mas não se sentem preparados e muito menos qualificados. “Na verdade, esta mudança parece ainda não ter saído dos discursos destes professores para a prática efetiva. Para tanto, eles demandam uma formação mais apropriada para assumirem a posição de mediadores na seara da cultura digital”, destaca Luciana, orientadora educacional do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Acompanhe a entrevista:

revistapontocom – Por que estudar a relação entre professores e cultura digital?
Luciana Santos – Num primeiro momento, meu olhar estava na aprendizagem: quais seriam as especificidades desta em tempos de massificação do acesso aos meios digitais da comunicação e de intenso tráfego de informações? Entretanto, compreendi que, para chegar à aprendizagem, precisava passar pelo ensino. E, nesta vertente, o professor apareceu como um sujeito essencial de pesquisa, cujas questões giraram em torno da inserção das tecnologias na sala de aula. Nortearam o desenvolvimento do trabalho questões da relação professor, estudante e cultura digital. Por exemplo: de que forma o docente vem se aproximando das tecnologias, com as quais os alunos supostamente têm tanta familiaridade? O meu objetivo era captar a voz do professor. Queria que ele próprio me dissesse sobre suas impressões, sobre como vinha se sentindo ao exercer a docência nesse contexto, uma vez que, já há algum tempo, o educador vem sendo alocado como protagonista de inúmeras iniciativas de formação para a utilização das tecnologias em sala de aula.

revistapontocom – Provavelmente, para desenvolver a pesquisa, a senhora teve que conceituar a expressão cultura digital. A senhora partiu de qual definição?
Luciana Santos – A cultura digital diz respeito ao contexto contemporâneo das tecnologias digitais. Uma das abordagens do conceito enfoca a dinâmica das relações sociais, das práticas, das percepções e dos significados em torno do fenômeno e, não somente, seu aspecto tecnológico. Na perspectiva dessa vertente, é importante esclarecer que o advento da digitalização dos meios de comunicação não implica em profundas transformações tecnológicas e sociais, como uma espécie de revolução radical. Neste sentido, não se pode aludir a uma ruptura entre as tecnologias atuais e os meios de comunicação de massa. Muitos destes meios se encontram de forma maciça em nosso cotidiano, como é o caso da televisão, significativamente presente nos lares brasileiros e no envolvimento com as diferentes mídias, incluindo as digitais. De acordo com o professor André Lemos, um dos autores de referência da minha pesquisa, a cultura digital não seria um estado atual da evolução de tantos projetos anteriores, técnicos e tecnocientíficos. Para o autor, este fenômeno se caracteriza principalmente por uma nova e estreita relação com a sociedade, compondo um tipo de desenho sociotécnico, em que os sujeitos interagem intensa e amplamente através dos meios digitais, propiciando a circulação de informações sobre os mais diferentes aspectos e sustentando a formação dos agrupamentos sociais.

revistapontocom – É desta forma que os professores, entrevistados pela senhora, interpretam o conceito de cultura digital?
Luciana Santos – Muitos professores tentaram conceituar o fenômeno à luz da profissão docente. Por isso, a associação com a educação foi e é forte. A cultura digital foi entendida como um suporte para o processo de ensino e aprendizagem. Todos os professores que entrevistei destacaram o amplo acesso às informações como o grande marco das tecnologias. Neste quesito, eles acreditam que os alunos não estão conseguindo transpor o contato com informações em produção de conhecimento. Por outro lado, a cultura digital foi associada à linguagem. Uma forma de linguagem na qual os jovens seriam os protagonistas, pelo domínio que apresentam dos signos dessa cultura, enquanto o docente ainda precisa romper certas barreiras. Mais do que a questão do letramento digital, o que estes profissionais trouxeram como cultura digital relativo à linguagem teve a ver com os processos tecnológicos das ferramentas digitais.De acordo com a maneira como a maioria dos professores declarou se relacionar com as tecnologias, parece que eles concebem as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) como caixas pretas. Por sua vez, acreditam que os estudantes conseguem desvendá-las, descobrir o que tem dentro, ao dominarem os processos tecnológicos e a linguagem específica dos meios digitais da comunicação. Ou seja: os resultados da pesquisa indicam que o imaginário tecnológico partilhado por estes profissionais investigados apresenta aspectos do mito da digitalização, no interior do qual prevalece a percepção de que há um maior distanciamento entre gerações na conjuntura da cultura digital e a concepção de que os jovens são experts na utilização de tecnologias, frente a adultos pouco qualificados nesse âmbito.

revistapontocom – Esta visão seria de professores com mais tempo de carreira?
Luciana Santos –  A idade dos professores também foi um fator significativo para o que defini como utilização social das Tecnologias de Informação e Comunicação (o uso cotidiano), contexto no qual os docentes mais jovens, de fato, demonstraram maior proximidade com as tecnologias. Entretanto, quando a questão é inserir estes artefatos na sala de aula, envolvendo as tecnologias às práticas pedagógicas, a questão da idade não foi tão expressiva. Todos os professores investigados apontaram para uma distância entre a utilização social e o emprego das tecnologias na seara escolar. Além de questões como a precária infraestrutura da escola, formação insuficiente para o uso das tecnologias e a falta de tempo, o imaginário tecnológico parece ser também um fator que incide sobre a baixa utilização das tecnologias em sala de aula, uma vez que estes docentes, em sua maioria, se colocaram como menos especializados em tecnologias do que os alunos.

revistapontocom – Qual é o impacto desta interpretação dos professores na sala de aula?
Luciana Santos – Em sua maioria, os docentes qualificaram as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) como ferramentas de aprendizagem. Neste sentido, os aparatos tecnológicos foram entendidos como facilitadores desse processo, assumindo, na prática, uma função ilustrativa dos conteúdos. Na concepção destes professores, em decorrência de supostamente facilitar a aprendizagem, a cultura digital incidiu na perspectiva do ensino, qualificando-o, desde que saibam utilizar as tecnologias. Para os educadores ouvidos, as TICs conferem ao ensino um aspecto lúdico, contribuindo para aproximar alunos e professores. Por fim, uma das principais implicações da cultura digital no trabalho docente, apontada pelos professores, tem a ver com a mediação. Essa característica foi atribuída a outro lugar que o professor assume ou deve assumir na contemporaneidade. Deixando o papel do transmissor, do detentor do saber, o docente tem sido entendido como mediador, como facilitador da aprendizagem. Mesmo que essa condição não seja exclusiva do contexto da cultura digital, parece que, nos discursos desses profissionais, a ideia de mediação se adensa devido à existência de tecnologias digitais e devido à densa arena de informações desenhada na seara atual. Se o jovem que chega à sala de aula hoje, devido ao amplo acesso a informações, proporcionado pelas TICs, altera o lugar do professor, do centro do ensino para o mediador da aprendizagem, os próprios docentes entenderam que essa relação com as tecnologias é problemática. Desta forma, o estudante, no ponto de vista destes professores, não estaria conseguindo transpor a interação com as tecnologias em aumento do conhecimento, pois apesar do estreito contato com informações, as finalidades com as quais os alunos recorrem às tecnologias têm sido vistas, pelos docentes, como mais direcionadas ao entretenimento. Por isso, para os professores, caberia a eles intervir na interface estudantes/tecnologias, conduzindo estes a um melhor aproveitamento das informações. Ou seja, se por um lado, o aluno foi classificado como mais especializado tecnologicamente, por outro, no tocante as informações com vias a mediação tecnológica, o professor parece reassumir o centro. Apesar dessa concepção, outra perspectiva também surgiu. Enquanto para alguns docentes, na perspectiva da mediação tecnológica, as TICs foram concebidas como ferramentas que dependem de mediação para que o aprendizado se efetive, para outros, principalmente aqueles que partilham do mito da cultura digital (jovens experts em tecnologias em comparação aos adultos), parece haver uma ideia de que as tecnologias são capazes de alterar as relações cognitivas que estamos estabelecendo, condição que seria mais favorável aos jovens, considerações, portanto, contraditórias a noção de mediação. Em tempos de tecnologias digitais, a condição de mediadores da relação dos estudantes com as tecnologias e, em decorrência disto, com o conhecimento, revelou-se uma das principais marcas de mudança da função docente.

revistapontocom – Essa mudança então já está ocorrendo?
Luciana Santos – Na verdade, esta mudança parece ainda não ter saído dos discursos destes professores para a prática efetiva. Para tanto, eles demandam por uma formação mais apropriada para assumirem a posição de mediadores na seara da cultura digital. Ainda que o docente, nos discursos políticos, esteja sendo exposto como o cerne da questão, este profissional precisa ser apoiado com iniciativas mais completas de formação para o uso das TICs: não somente no que diz respeito ao contato e à capacitação técnica, mas também, com certa formação conceitual para as tecnologias. Além disso, os professores apontam que o não uso das TICs em sala de aula também ocorre devido a diferentes dificuldades, como a falta de suporte das esferas de nível macro da educação, a ambiência escolar que, por vezes, não favorece a utilização das tecnologias, a precária infraestrutura da escola, a carência de tempo para ingressar em iniciativas de formação continuada e para o preparo de uma aula que envolva as próprias tecnologias.

revistapontocom – A senhora acha que os professores têm uma visão distorcida do que seja a cultura digital? Essa visão traz que consequências para a sala de aula? 
Luciana Santos – Apesar de os professores não terem discordado da presença das tecnologias em sala de aula, duas perspectivas contraditórias surgiram de modo significativo. De um lado, certa resistência às TICs. Muitos deles percebem a própria relação cotidiana com as tecnologias atravessada pelo receio em se aproximar desses meios, pelo medo e preconceito. Por outro lado, numa postura de filiação, mesmo tendo sido pouco problematizada a relação entre tecnologias e educação, no sentido do entendimento de como a aprendizagem seria qualificada por meio das TICs, parece que, no imaginário de muitos desses professores, tem sido outorgada às tecnologias uma alta capacidade de resolução dos problemas da educação. Essa questão toca em um dos aspectos do mito da cultura digital: aquele que se refere às homilias de um mundo novo, a ser conquistado através da superação da condição humana. Na essência do mito, as tecnologias seriam a grande promessa para todos os males da humanidade. Não raro, esse ponto do mito vem atravessando o âmbito da educação: tanto em alguns discursos políticos quanto no imaginário desses docentes. Por isso, acredito que as iniciativas de formação para as tecnologias devem ser mais completas, abordando não somente a capacitação técnica para os meios, mas, principalmente, a formação conceitual. Para tanto, as iniciativas de formação devem garantir espaços de discussão, momentos em que o professor seja escutado.

2 thoughts on “Cultura digital

  1. Obrigada Ilana! Na verdade, essa questão do letramento digital não foi tão expressiva entre os professores entrevistados. Quanto à associação da cultura digital a uma forma de linguagem, o que surgiu, de modo mais significativo, foi a noção de habilidades com os processos tecnológicos dos artefatos digitais. Nisto, os docentes consideram que os alunos estão à frente, por desvendarem tais processos e, assim, interferirem neles. Mas, essa questão do letramento digital é de fundamental discussão e também me interessa. Podemos conversar mais.

  2. Que bacana, Luciana!
    Seu estudo muito me interessa. Estou tentando entender as fronteiras entre a cultura digital e letramento digital. Será q vc poderia nos dar alguns exemplos? Obrigada! Parabéns !

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