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Revistapontocom entrevista a historiadora e antropóloga Lilian Schwarcz

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02jul

Uma das principais expoentes na reflexão sobre o racismo estrutural e o autoritarismo no Brasil, Lilia Schwarcz aborda visão sobre racismo no contexto educacional

Com Flavia Perez.

Autora de diversos livros que abordam a cultura e a identidade nacional, com uma obra que inclui prêmios literários e reconhecimento nacional e internacional, a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz vem sendo uma das principais expoentes na reflexão sobre o racismo estrutural e o autoritarismo no Brasil.

Um dos pontos defendidos pela autora é o desenvolvimento de propostas e políticas públicas que propiciem ações antirracistas e inclusivas para uma realidade mais justa e igualitária. Em junho, um artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo sobre o tema Racismo é um impedimento ao desenvolvimento econômico brasileiro, tendo como autores Lilia Schwarcz e o empresário e economista Arnaldo Quintella, ganhou grande repercussão na mídia e nas discussões acerca do racismo no país.

A historiadora e antropóloga também é autora do livro Sobre o Autoritarismo Brasileiro (Ed. Companhia das Letras – 2019), no qual examina algumas das raízes do autoritarismo brasileiro, bastante antigas e arraigadas, embora frequentemente mascaradas pela mitologia nacional.

Para trazermos sua visão sobre racismo estrutural no contexto educacional, entrevistamos a historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz. Leia, abaixo, a entrevista na íntegra.


Lilia Schwarcz fala sobre artigo recém-publicado no jornal O Estado de São Paulo e do livro “Sobre o autoritarismo Brasileiro”. Foto: Renato Parada

Considerando o artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo sobre o tema Racismo é um impedimento ao desenvolvimento econômico brasileiro – assinado por você juntamente com o empresário Antonio Quintella, 20/06/2020 – como você percebe o autoritarismo e o racismo no ambiente educacional?

O racismo no Brasil é estrutural, é institucional. Então é possível vê-lo de muitas maneiras. Como ele é estrutural, o que a gente percebe é que ele cria um feixe de relações. O racismo é estrutural nesse sentido. No ambiente educacional, nós vemos que os dados são extremamente perversos com relação aos estudantes negros, que acabam repetindo muito mais e sendo retidos, ficando em classes com alunos que não têm a mesma idade e, por isso, acabam se desinteressando e saindo da escola, criando um grande círculo vicioso da desigualdade social. Também é possível dizer que há racismo no ambiente educacional uma vez que parte dos professores, coordenadores e diretores de escolas são brancos, e não negros. Isso é o racismo institucional, ou seja, o fato de que em geral pessoas brancas detêm as estruturas de privilégio e poder.

Recentemente, um caso de racismo ocorrido em uma escola particular, na cidade Rio de Janeiro, foi destaque na mídia. De que forma escolas públicas e privadas podem contribuir para reduzir o racismo tanto entre os estudantes quanto na relação com professores e gestores escolares?

Acho que nós vivemos em um momento no qual não basta mais dizer, como chama atenção a professora e filósofa norte-americana Angela Davis, que nós não somos racistas. É preciso praticar atos antirracistas. Só há uma maneira de erradicar o racismo, que é realizar um combate irrestrito à sua manifestação. De que maneira? Criando ambientes mais inclusivos para os estudantes e, ao mesmo tempo, abrindo espaços e locais para professores, gestores e educadores negros. Eu defendo isso não só por uma questão de cota, de ressarcimento, mas defendo isso porque me parece que conviver com a diferença, conviver com as diferentes experiências, só nos fará melhores, mais criativos e, sobretudo, mais atentos às diferentes realidades brasileiras.

Ver em Companhia das Letras

Quais fatores motivaram você a escrever o livro “Sobre o autoritarismo brasileiro”?

O livro foi considerado uma primeira reação à eleição de um líder retrógrado, de extrema direita, como Jair Bolsonaro. E logo no começo do livro eu explico que ele é pautado em dois elementos: o primeiro é demonstrar como o nosso presente está cheio de passado; de fantasmas do passado. O segundo é que, para aqueles que reagiram com grande surpresa em relação ao resultado das eleições finais de 2018, o que o livro mostrava é que nós sempre fomos racistas. Neste cenário, o livro analisa estruturas do passado para pensar em temas do presente, como escravidão e racismo, mandonismos, patrimonialismos, violência, corrupção e, por fim, intolerância.

Enquanto autora, quais os principais obstáculos que encontrou para criar a obra?

Como era um livro geral sobre o Brasil, existiam muitos temas que eu fui estudar, dentre eles a questão da educação e da desigualdade. Enfim, todo livro abre uma série de desafios. Neste caso, esse livro lida com questões que não são exatamente a minha especialidade, sobretudo a questão da educação e a questão da contravenção e da corrupção no Brasil. Contudo, a cada livro escrito, o escritor sempre acredita ao concluir a obra que saiu um pouco melhor, porque abriu a cabeça para outros temas, outras perspectivas, que o tornam assim um intérprete desse nosso país tão difícil de entender.

Como historiadora, antropóloga e professora, de que forma na sua opinião o ensino da história e das ciências humanas em escolas, faculdades e universidades pode propiciar a construção de narrativas inclusivas e antirracistas?

Eu como historiadora, antropóloga e professora tenho lutado muito para que nós de alguma maneira possamos questionar primeiro a naturalização do racismo no Brasil, que é um fenômeno tão perverso. Eu tenho dito que nós somos acostumados a ver, porque essa é uma faculdade biológica, mas não a enxergar porque enxergar é de uma maneira uma escolha cultural. E a sociedade brasileira prefere se enxergar como branca e prefere não ver outras cores, prefere não sair da sua cor. Eu como historiadora e antropóloga tenho, portanto, lutado contra esse tipo de definição, de história universal e perguntado: história universal para quem?

A nossa história é basicamente europeia, se refere à colonização europeia, tem heróis brancos em geral e, em sua maior parte, homens. É preciso, portanto, produzirmos uma história mais atenta às diferentes formações brasileiras, à nossa formação enquanto europeus, mas também como africanos; afinal estamos em um país que tem quase 56% da sua população, segundo o IBGE, composta por pretos e pardos, a segunda maior população de origem africana, depois da Nigéria, e mesmo assim temos uma história profundamente europeia.

Também precisamos de uma história mais indígena, uma história que diga respeito a essas nações que estavam no Brasil, que ainda estão, e que têm uma influência ímpar na nossa linguagem, na nossa cultura, na nossa formação. Também precisamos de uma história mais feminina, uma história das mulheres, que fizeram esse país, e também uma história das populações LGBTQI+, que são agentes sociais de suma importância na nossa contemporaneidade. Ou seja, como historiadora, eu pretendo uma história mais múltipla. Como antropóloga, tenho batalhado para combater as nossas invisibilidades, que são invisibilidades sociais e culturais.

Artigo publicado pelo jornal O Estado de São Paulo, em 20/06/2020:

Lilia Moritz Schwarcz é historiadora e antrópologa, professora da USP e em Princeton, curadora adjunta para histórias do MASP e autora de vários livros, sendo o mais recente “Sobre o autoritarismo brasileiro” (2019).

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