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Design for change

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Publicado em Entrevistas
03mar

Despertar a criatividade de crianças e adolescentes é uma das principais marcas do projeto Criativos da Escola. A iniciativa é dirigida a educadores, pedagogos e a todas as pessoas interessadas em transformações. Sentir, imaginar, fazer e compartilhar são os pilares dessa ação que faz parte de um movimento global destinado a oferecer às crianças e jovens a oportunidade de transformar a realidade que os rodeia, com apoio de educadores. A iniciativa nasceu na Índia pelas mãos da designer Kiran Bir Sethi que, em 2006, criou o Design for Change, hoje presente em mais de 30 países. Em 2014 o Instituto Alana tornou-se o representante dessa ideia no Brasil.

Conheça a proposta

No evento de lançamento, no dia 25 de fevereiro, o fundador do grupo de palhaços Doutores da Alegria, Wellington Nogueira, instigou a plateia a ser criativa e não ter medo de falhar. “A criatividade é muito redentora porque ela permite que a gente erre. E ela pode nos levar para onde a gente quiser”, disse. A Diretora de Comunicação do Instituto Alana, Carolina Pasquali, dividiu com o público o que já foi feito, o que ainda falta fazer e convidou todos a participarem da construção desse sonho. A partir de agora, os educadores interessados podem se inscrever no Desafio Criativos da Escola, que premiará as melhores iniciativas de transformação da realidade.

Leia abaixo a entrevista que Kiran Bir Sethi concedeu ao jornal Estado de S. Paulo

Por Sonia Racy
Estado de S. Paulo

Ela costuma dizer, brincando, que adotou o “yes, we can” muito antes de a frase se tornar o slogan da campanha de Barack Obama à presidência dos Estados Unidos, em 2008. De tanto ouvir seus filhos, ainda pequenos – Raag e Jazz têm hoje 24 e 20 anos –, reclamarem das milhares de regras da escola, a designer indiana decidiu, em 2001, fundar seu próprio centro de ensino.

A Riverside nasceu em Ahmedabad, na Índia, com apenas 27 alunos, incentivados por ela a deixar as salas de aula para fazer do conhecimento um meio de transformar a realidade em que vivem. Para se ter uma ideia do que isso significa, há alguns anos, enquanto estudavam os direitos das crianças, alunos da quinta série foram estimulados por Kiran a rolar incensos durante oito horas para que o trabalho infantil se tornasse tangível para eles. “Isso os transformou. Eles deram início a uma jornada para mudar o mundo. Foram para as ruas da cidade convencer as pessoas de que o trabalho infantil tinha de ser abolido. E isso não poderia acontecer somente na sala de aula”, disse ela durante palestra no TED Talks realizado na Índia, em 2009.

O trabalho de Kiran extrapolou as paredes da Riverside e ganhou o mundo a partir de 2006, quando ela criou o Design for Change (DFC). O movimento, que dá poder às crianças, incentivando-as a dizer o que querem – e de que forma querem – mudar no mundo, já chegou a 25 milhões de crianças em 35 países. E hoje Kiran está entre os dez finalistas (escolhidos de uma lista com quase 5 mil indicações de todo o mundo) do Global Teacher Prize, da Fundação Varkey – que tem como presidente honorário Bill Clinton. O prêmio, no valor de e US$ 1 milhão, reconhece, a cada ano, um educador que tenha tido uma ideia inovadora capaz de impactar seus alunos e a comunidade em que vivem. O vencedor será conhecido dia 16 de março, em Dubai.

Agora, o Design for Change está no Brasil. Foi lançado pelo Instituto Alana, no dia 25 de fevereiro, em São Paulo. Batizado como Criativos da Escola, o projeto pretende espalhar, pelo país, a ideia de que as crianças podem – e devem – ser as protagonistas das mudanças que desejam para o mundo.

Para tornar o projeto possível em solo brasileiro, uma equipe trabalhou, durante dois anos, para testar a abordagem proposta por Kiran em algumas escolas que se dispuseram a abrir suas portas à experiência. Deu certo. “Queremos celebrar o que de mais legal acontece nas escolas e, com isso, espalhar esse movimento para cada vez mais crianças, jovens, educadores e escolas”, diz Carolina Pasquali, diretora do Alana. “Todos podem ser protagonistas de uma grande mudança.” Como incentivo, o instituto premiará, no fim do ano, as melhores histórias de mudanças desenvolvidas a partir da abordagem de Kiran.

A seguir, os principais trechos da conversa com a designer indiana, publicados pelo jornal Estado de S. Paulo:

– Quando você percebeu que o movimento que acontecia dentro da Riverside extrapolava as paredes da escola? Teve algum episódio específico?
Tudo começou muito cedo – quando meus alunos estavam no 2º ano. O primeiro projeto que eles fizeram foi criar um roteiro de viagem para as pessoas que vêm visitar a Índia, o que significou que eles tinham que entrevistar os visitantes, visitar as agências de viagens e reunir-se com o departamento de turismo. O aprendizado foi tão incrível que se tornou, em seguida, parte do currículo regular na Riverside. Mais até do que isso, a nossa proposta é incentivar os alunos a olhar para o que está ao seu redor e sugerir mudanças – e isso não precisa ser apenas na escola. Pode acontecer em qualquer lugar onde as crianças estejam. Essas mudanças mexem com toda a comunidade ao seu redor, ultrapassando os portões da escola. Isso a gente observou que vinha acontecendo desde o começo, e nosso interesse era incentivar que acontecesse cada vez mais.

– Quando fundou a Riverside imaginava que ela poderia dar vida a um movimento como o Design for Change (DFC)?
De forma alguma! Mas quando começamos a ver os resultados do uso do processo de design com as crianças na Riverside, percebemos que tínhamos que compartilhá-lo com o mundo – e assim se deu o nascimento do Design for Change. O design, então, tornou-se um laboratório que estimulava as crianças a realmente fazerem parte do seu próprio processo de aprendizado. Isso pode acontecer dentro da Riverside ou de qualquer outra escola. Basta dar voz aos próprios alunos, de qualquer faixa etária. Para que o modelo de fato funcione em qualquer lugar, em qualquer país, em lugares e em condições completamente diferentes daquelas que temos na Riverside, a metodologia do Design for Change é bastante flexível, não temos nada engessado. A ideia é deixar que cada educador estimule os projetos locais, adequados às demandas curriculares de cada escola.

– A Riverside é uma escola particular. Seria possível mantê-la sem cobrar dos estudantes?
Sim, a Riverside é uma escola particular. O modelo que adotamos na escola poderia não ser possível sem a receita proveniente das mensalidades. Vale destacar, também, que 25% dos alunos que estudam na Riverside possuem bolsa integral. De qualquer maneira, quando sistematizamos a proposta do Design for Change, fizemos as coisas de maneira a torná-la interessante a qualquer realidade.

– As crianças tornam-se protagonistas. O professor fica em segundo plano? Ou o papel do professor/orientador é fundamental nesse processo?
Neste ponto você tem razão: as crianças são protagonistas das mudanças que elas próprias propõem. Por outro lado, o professor é uma parte muito importante do processo, ele age como facilitador e colaborador de todas as ideias que nascem das crianças. Ele provoca, desafia, inspira e dá apoio durante o percurso inteiro. Porque, no fundo, o que se busca é que as mudanças propostas façam de cada lugar um espaço ainda melhor para todos. Nossa proposta é que todo o processo envolva todo mundo – alunos e educadores – até porque é assim que cada um descobre a importância do outro ao longo do processo.

– A partir do momento em que a criança passa do “disseram-me o que fazer” para “eu faço minhas próprias escolhas”, vocês também têm uma preocupação com limites?
Acredite você ou não, mas quando você capacita as crianças, os limites são autorregulados. E o que queremos é que elas percebam– e vivenciem – o fato de que as mudanças são totalmente possíveis. Isso sim é que é o mais importante: as crianças verem, saberem e sentirem que elas podem mudar a realidade ao seu redor, sendo quem elas são.

– Quando você mostra às crianças as suas possibilidades, existe algum risco de que elas tomem caminhos que se oponham ao que o DFC representa, como se tornar uma pessoa egoísta, por exemplo?
Isso não é uma possibilidade, pois o primeiro passo do DFC é “sentir”. O que significa que elas precisam se abrir para trabalhar com as pessoas afetadas pela situação. Este é o ponto de partida do conceito de empatia. E isso se torna um comportamento contagioso. Ou seja, quando você ouve o outro, se coloca em seu lugar, fica impossível criar a partir de um lugar egoísta.

– No Brasil temos uma geração de crianças e jovens pouco preocupados uns com os outros. O dividir, o compartilhar, não faz parte do pensamento de grande parte deles. Existem culpados nesse processo? É possível mudar esse quadro?
Esta é uma grande questão, porque são muitas as peças deste cenário. Acredito, porém, que a educação e a abordagem do Design for Change têm um poder transformador muito grande. Precisamos apenas ter fé no processo de sentir, imaginar, fazer e compartilhar, que são os quatro verbos que sintetizam o Design for Change. No fundo, estes quatro verbos significam que você está dando poder às crianças e incluindo no processo, além do pensar, o coração e a mão na massa. E, quando você as empodera, você está reafirmando sua importância e lhes dizendo que elas também são parte da comunidade. E que, portanto, são cidadãs. Pode parecer bobagem, mas isso tem um grande impacto para elas. E é aí que as crianças entendem que elas também podem fazer parte das mudanças que elas buscam no mundo.

– Como o DFC se adapta à cultura de cada país? Esses quatro verbos – sentir, imaginar, fazer e compartilhar – têm o mesmo significado nos diferentes lugares do mundo?
Quando esses quatro verbos são plenamente compreendidos, eles se tornam uma estrutura única. E, portanto, cada país pode adequar esta estrutura ao seu contexto. As quatro etapas têm o mesmo poder em cada situação e é por essa razão que o DFC se espalhou tão rapidamente para tantos países.

– Em recente entrevista ao Estado, a presidente do Alana, Ana Lucia Villela, disse que vivemos em um mundo onde se ensina que o legal é ter milhões de amigos no Facebook… Mas isso não quer dizer, lembrava ela, que na vida real essas crianças e jovens tenham milhões de amigos. Elas têm passado cada vez mais horas trancadas no quartos em frente ao computador. Como o Design for Change trabalha com as tecnologias?
A tecnologia é uma boa aliada no desenvolvimento do Design for Change. Ela ajuda a compartilhar as histórias para mais pessoas e também captura mais histórias. Tudo depende da maneira como a tecnologia é trabalhada. Ela não é, em si, inimiga.

-Pela experiência que adquiriu, diria que o Design for Change tem impacto diferente em cada classe social?
O DFC é um programa extremamente abrangente, uma vez que ele não tem qualquer relação com o lugar de onde você vem, o que você sabe, como você fala ou quanto você ganha. Ele começa com uma simples pergunta: “O que incomoda você?”. E isso significa que qualquer pessoa pode chegar a uma solução.

No Brasil, ainda temos um grande número de crianças que não vão à escola e nossa educação tem obtido, nos padrões internacionais, uma classificação muito baixa. Nossos professores não estão motivados e muitas escolas não possuem infraestrutura básica. É possível mudar mesmo nestas condições? De que maneira, a seu ver, o DFC pode ter um impacto no cenário brasileiro?
Estou otimista! Tenho um grande respeito pelos professores em todos os lugares! Só precisamos das histórias certas para compartilhar – histórias sobre crianças que são agentes da mudança, de professores que apoiam estas crianças e de comunidades que estão reconhecendo esses professores. Precisamos compartilhar mais do “positivo” para melhorar as coisas. E o DFC é uma ótima maneira para começar.

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