Zica e os seus camaleões

Zica é uma menina como outra qualquer. Bem, mais ou menos. Ela tem como bichos de estimação três camaleões. Não é a jovem mais bonita da sala de aula, muito menos o ‘patinho feio’ que almeja ser princesa. Zica é feliz como é e entende que as pessoas são diferentes. Às vésperas dos 15 anos, está preocupada com a qualidade de vida. Cheia de atitude, acredita que a arte pode mover montanhas. Por isso, faz uso dela para mostrar sua visão peculiar de mundo do jeito que seu coração manda: grafita suas paredes, escreve, desenha, pinta e compõe músicas com seu inseparável violão. “A Zica nasceu em uma livraria, onde observando livros de arte, ilustração, quadrinhos e grafites, comecei a vislumbrar uma personagem que fosse multiartista. Estava em uma dessas megalivrarias que também vendem CDs, DVDs, Action Figures”, explica o ilustrador e diretor de animação Ari Nicolosi, criador da personagem.

A ideia deu frutos e muitos. Zica e os camaleões virou série de TV, que acaba de estrear na TV Brasil. Em breve, na TV Cultura. Ainda no segundo semestre de 2014, será exibida em outros canais da América Latina. Mas não é só isso: a personagem também já lançou um livro de contos, O Quadrado, um CD, reunindo todas as músicas prediletas de Zica e está prestes a protagonizar um game. Zica e os camaleões surge como um projeto transmídia, voltado para o público infanto-juvenil. “Se você fizer um check list dos principais conceitos de transmídia, verá que a Zica trafega bem por todos: a identificação com o público jovem gera vontade de compartilhar sua visão de mundo. A audiência pode mergulhar nas extensões da narrativa. Ela é plausível em qualquer plataforma”, explica Sérgio Lopes, produtor executivo.

Ari Nicolosi

Sérgio Lopes

O projeto – assinado pela Cinema Animadores e Conteúdos Diversos – passou por diversas consultorias em eventos nos últimos quatro anos. Especialistas em transmídia, como Mark Warshaw (da série Smalville) e Jesse Cleverly (consultor inglês que trabalhou no Fiction Lab da BBC) deram dicas que foram aplicadas no desenvolvimento da série.

A revistapontocom conversou com o criador da série Ari Nicolosi e Sério Lopes, produtor executivo.

Acompanhe:

revistapontocom – O que vocês pretendem com este projeto?
Ari Nicolosi Falar de verdade com os jovens sobre assuntos pertinentes que façam parte, de fato, do universo, da realidade deles. Já foi colocado pelo próprio público que já assistiu aos episódios que as histórias levantam questões que levam à reflexão. Questões relacionadas à sustentabilidade, consumismo, empreendedorismo, identidade, autoconhecimento, personalidade, mudanças, atitude. Enfim, questões relevantes para quem está em transição, em transformação. Adoraríamos abrir um canal de diálogo, através da série, com o público-alvo.

revistapontocom – É uma série que dosa, portanto, o ‘politicamente correto’ e o entretenimento?
Ari Nicolosi Sim, existe essa preocupação, pois sabemos da responsabilidade de colocar um conteúdo num veículo de massa. O que abordamos pode ter consequências. Conversamos muito durante a construção do roteiro sobre os caminhos que a história poderia tomar e que leituras ela poderia gerar. Mas também colocamos um tom de realidade. Por exemplo, a Zica não é perfeita nem dona da verdade. Ela erra, pisa na bola, mas procura reconhecer e consertar.

revistapontocom – De onde surgiu a história da Zica e os camaleões?
Ari Nicolosi –A Zica nasceu em uma livraria, onde observando livros de arte, ilustração, quadrinhos e grafites, comecei a vislumbrar uma personagem que fosse multiartista. Estava em uma dessas megalivrarias que também vendem CDs, DVDs, Action Figures. O local tinha todos os elementos para dar vida a essa personagem, que imaginei na figura de uma garota. Achei que uma menina teria uma pegada mais condizente com a minha ideia. Comecei ali mesmo a pensar que traço teria essa menina-adolescente. Que faria sua arte trancada no seu quarto, ao lado de um animal de estimação bem exótico. No início, era uma iguana, que acabou virando os três camaleões. Mas a essência dessa personagem era encontrar os seus iguais, falar com eles, dividir suas histórias, suas experiências de vida.

revistapontocom – Houve alguma pesquisa junto aos jovens para criar as histórias?
Ari Nicolosi – O projeto começou a ganhar espaço quando ganhamos, no AnimaTV, os recursos para produzir um piloto. Na ocasião, foi feita um grupo focal com 160 crianças. Saímos do encontro com um resultado bem satisfatório e entendemos mais sobre o projeto, seu público e a relação entre eles. Depois, quando iniciamos os trabalhos para a primeira temporada, reunimos um pequeno grupo de jovens cheias de opinião para selecionarmos assuntos, temas pertinentes.

revistapontocom – O que difere Zica de outros ‘conteúdos’ também voltados para o público infanto-juvenil?
Ari Nicolosi – A Zica tem uma característica de ser fora do padrão dos meios que frequenta. Ela não se incomoda com isso. Não é o “patinho feio” que almeja ser a princesa ou a garota mais bonita e popular da escola. Ela é feliz como é e entende que as pessoas são diferentes. Está mais preocupada em ser verdadeira, legítima, honesta consigo mesma. E desta forma, vivendo meio que na contramão. E, do seu jeito, ela acaba sendo bem popular. É uma proposta também diferente das séries norte-americanas. Temos um tom de humor, timming e estilo gráfico diferentes. Conceitualmente, a série é da própria Zica: são suas histórias, seu jeito de contar essas histórias, seu design, suas músicas. A ideia é que a série é feita por uma menina de quase 15 anos e seus amigos para outras meninas e meninos que estão passando ou vão passar pelas mesmas coisas.

revistapontocom – A série de TV está no ar na TV Cultura e TV Brasil. Além disso, deve estrear também em outros canais da América Latina. As histórias são universais?
Ari Nicolosi –Sim, as histórias e os personagens. Fora uma ou outra questão muito regional, a Zica poderia viver e fazer as coisas que faz em quase qualquer lugar do planeta.

revistapontocom – Série de TV, livro, game… O projeto é ousado, no sentido, de ser lançado em diferentes plataformas. Como isso foi construído, idealizado?
Ari Nicolosi – A Zica tem no seu DNA algo naturalmente transmídia. O conteúdo que ela é capaz de produzir – textos, histórias, desenhos, animações, games, músicas – pode ser explorado em diversas mídias. Qualquer superfície branca, vazia, seja no mundo real, digital ou virtual, é um lugar para ela partir do zero e chegar a algum resultado. E claro, uma coisa pode levar a outra, pode começar em uma mídia e continuar em outra e terminar em uma terceira.

Sérgio Lopes – O Ari Nicolosi é um criativo que já pensa seus projetos de maneira transmídia e isto facilita o planejamento para as diversas plataformas. Se você fizer um check list dos principais conceitos de transmídia, verá que a Zica trafega bem por todos: a identificação com o público jovem gera vontade de compartilhar sua visão de mundo e a audiência pode mergulhar nas extensões da narrativa. Ela é plausível em qualquer plataforma, pois é uma garota conectada que interage nas redes sociais, utiliza celular e todos os aplicativos que fazem parte da vida adolescente. Sua turma de amigos (e inimigos) permitem histórias paralelas e spinoffs [outros produtos] da série. Ela tem grande interesse por música e literatura. A série já começa, então, com um livro de contos (O Quadrado) de “sua autoria” e um CD com suas músicas, além do game que está em fase de desenvolvimento.

revistapontocom – Quais são os riscos de criar um projeto transmídia deste porte no Brasil?
Sérgio Lopes – Projetos de entretenimento têm um risco natural. Ninguém sabe se fará sucesso e cairá no gosto do público. Hoje já se consegue minimizar este risco com técnicas que eliminam alguns fatores subjetivos. No caso do entretenimento transmídia, o primeiro risco é não trabalhar a “verdade do personagem” nas diversas extensões e forçar a presença dele em plataformas que não são adequadas. Outro risco é a falta de maturidade do mercado para esta disciplina. Ainda se foca muito no sucesso da TV para haver interesse das outras plataformas e um bom projeto transmídia não deveria depender do conceito antigo de blockbuster. Hoje, você pode começar um sucesso pelo game ou pelo livro antes de chegar à TV, mas tudo fica mais fácil se isso já fizer parte de uma estratégia e não do acaso. O licenciamento se beneficia muito quando um projeto é transmídia, mas a visão corrente é esperar fazer sucesso em mídia de massa para licenciar. A parte legal também fica mais complexa, pois a propriedade intelectual se fragmenta com os direitos das emissoras de TV, distribuidora em cinema, editora de livro ou de música e licenciamento de cada atividade. A falta de planejamento diminui a rentabilidade dos investidores.