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Publicidade infantil

1 comentário
12ago

Desigualdade, violência, paz, consumo e política. Com o objetivo de dar vez e voz às crianças e jovens, a revistapontocom inaugura mais um espaço neste sentido: o Fala Jovem. Neste espaço, vamos publicar textos escritos por crianças e jovens sobre diversos assuntos. A ideia é promover a ‘fala’ destes cidadãos e ao mesmo tempo possibilitar que os adultos conheçam e ouçam suas histórias, sentimentos, comentários, avaliações sobre temas do nosso cotidiano. O texto de hoje é do jovem Felipe Vieira, de 18 anos. Em pauta: o consumo, a propaganda e a infância.

 

Da Laranja Mecânica à publicidade infantil
Por Felipe Vieira

Analisar a obesidade infantil como um problema social é de grande importância. É preciso entender que o problema não gira apenas em volta da criança que “quer comer” e do pai/mãe que “deixa comer”. Existem outros fatores que merecem ser identificados. Entre eles, a influência da propaganda. O filme Muito Além do Peso, de Estela Renner fala exatamente deste assunto, trazendo a opinião de pais, médicos, especialistas, funcionários do governo, publicitários e das próprias crianças. O longa deixa explícito a influência negativa da publicidade quando é utilizada de forma abusiva, parte de uma engrenagem de um sistema muito maior.

No filme, em um determinado momento, a entrevistadora pergunta o que as crianças preferem: água ou refrigerante. Todas respondem em metonímia: “Coca-­Cola”. É claro que isso acontece de forma inconsciente, mas o fato chama a atenção. A publicidade da Coca-­Cola, que não era e nunca foi direcionada exclusivamente às crianças, acabou atingindo cada uma delas de alguma forma. Segundo o documentário, dados revelam que a obesidade infantil está mais presente no grupo de crianças que assiste à televisão por um número maior de horas por dia.

Mais interessante ainda é quando um publicitário diz que as crianças são indivíduos que fazem parte da sociedade e que, por isso, devem ter direito à escolha. E que o pai que não consegue estabelecer limites no consumo dos seus filhos é um “incompetente”.  Os absurdos nessa declaração ultrapassam os níveis aceitáveis.

A criança está sob a tutela de responsáveis legais exatamente porque ela ainda não possui discernimento e senso crítico apurado para fazer escolhas que terão impacto direto sobre a própria vida. Alguém em sã consciência deixa um menino de nove anos votar nas eleições presidenciais? Não. Por que então esse mesmo menino poderia ser visto como um consumidor em potencial? Ele deve ser mais consumidor que cidadão?

Sim, o Estado deve permitir o consumo e a venda, porque, realmente, não cabe a ele decidir o que os indivíduos fazem ou não com o próprio corpo, mas também é papel do Estado informar sobre os estragos que esse consumo pode fazer e isso inclui regular a publicidade, não permitindo abusos de empresas que se aproveitam da inocência da criança para induzi-la a consumir algo.

Uma propaganda da marca de batatas fritas industrializadas Ruffles resume esse abuso em alguns segundos. No comercial, exibido no filme, um adolescente é submetido a um teste pelo qual cientistas descobrem no que ele pensa na maioria do tempo. Resultado: mulheres e sexo. O mesmo teste é feito com uma menina, de mesma idade. Descobrem que ela pensa, na maioria do tempo, em sapatos, maquiagens e afins. Assim que acabam os testes, os dois adolescentes são submetidos a uma espécie de “educação mental”, onde são treinados a associar seus prazeres à batata Ruffles.

O que impressiona é que essa ideia é utilizada como algo positivo pelas empresas, mesmo sendo um absurdo abusivo. Em uma cena do aclamado Laranja Mecânica, de Kubrick, o personagem Alex é submetido a um “tratamento” para diminuir seu instinto violento. Todas as vezes que ele assiste à cenas de violência ele é induzido a sofrer dor. Guardadas as devidas proporções, essa é a mesma lógica do comercial da Ruffles.

Os adolescentes não ESCOLHERAM consumir, foram induzidos porque o consumo foi associado a coisas boas. Alex não escolheu deixar de ser violento, ele simplesmente passou a evitá-la porque ela passou a ser associada à dor. Alex e as crianças e adolescentes foram adestrados. Não tiveram escolha. A partir do momento em que se adestra um ser humano, ele passa a agir de acordo com regras. Deixa de ser um ser humano pensante. Transforma-se num robô, comandado exclusivamente por fatores externos, sem reflexões sobre suas ações e os impactos que elas podem causar.

Um outro entrevistado no documentário diz que todos somos capazes de fazer boas escolhas. Porém, não há como fazer boas escolhas se, simplesmente, não existem as boas opções ao alcance. Não existe forma de competir de igual para igual com o poder televisivo e da propaganda abusiva. É preciso romper com essa cultura do consumo, do fast food, das comidas prontas. Mas, antes,é preciso romper com a cultura do livre ­abuso publicitário, em especial às crianças, porque a primeira coisa depende da segunda. Não há como chegarmos a uma sem a outra.

Até 1929, o liberalismo econômico era a maior maravilha do novo mundo. Depois da Grande Depressão, descobriram que não era bem assim. Viram que era preciso regulação, intervenção. Analogamente, quantas crianças com problemas de saúde vão ser necessárias para que as empresas e o próprio cidadão se deem conta de que é preciso vetar o abuso publicitário?

Um comentário sobre... “Publicidade infantil

  1. A obesidade infantil é um sério problema que vem afetando cada vez mais as crianças brasileiras. Atualmente, é o distúrbio nutricional mais comum durante a infância. A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um estudo que revela que mais da metade das crianças que já sofreu com obesidade infantil também se tornou adulto obeso. Entretanto, o distúrbio possui tratamentos, e todos eles devem ser iniciados pelos pais.

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