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Os três moleques

7 comentários
13maio

Desigualdade, violência, paz, consumo e política. Com o objetivo de dar vez e voz às crianças e jovens, a revistapontocom inaugura mais um espaço neste sentido: o Fala Jovem. Neste espaço, vamos publicar textos escritos por crianças e jovens sobre diversos assuntos. A ideia é promover a ‘fala’ destes cidadãos e ao mesmo tempo possibilitar que os adultos conheçam e ouçam suas histórias, sentimentos, comentários, avaliações sobre temas do nosso cotidiano. O texto de hoje é do menino João Daniel, de 14 anos. Ficção ou realidade? Um texto denso, instigante, bem construído que prende o leitor do começo ao fim, fazendo pensar.


Os três moleques

Três moleques estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.
Três moleques que pagaram a passagem estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.
Três garotos, de não mais de 13 anos, estavam fazendo arruaça no BRT e foram expulsos.
Três crianças, moradores de rua, não souberam se comportar no BRT e foram expulsas.
Três indivíduos, vítimas da incompetência/negligência do estado, fizeram arruaça e foram expulsos do BRT.

5 fatos:
1- Você é um garoto de não mais de 15 anos.
2- Você acabou de fazer uma trilha durante um dia inteiro.
3- São 21 horas no Rio de Janeiro.
4- Vocês não pagaram a passagem.
5- Você é o único que está indo pra Zona Sul.

Você está a bordo de um BRT. Ao chegar a um dos pontos em que ele para, você vê, à frente, outro BRT parado no ponto com o pisca alerta. Várias pessoas entram no seu ônibus nessa estação. Você fica sabendo por meio de sua mãe, que soube por meio de um passageiro do ônibus parado, que naquele ônibus havia três moleques fazendo arruaça. Todos ficam com pena do motorista por ter que passar por isso.

4 fatos sobre os moleques:
1- Eles não deviam ter mais que 13 anos.
2- Eles foram expulsos pelo motorista e se recusaram a sair.
3- Diferentemente de vocês, eles pagaram a passagem.
4- Eles ameaçaram quebrar o ônibus.

O seu ônibus faz uma manobra e volta para a “via”.  Ao chegar à próxima estação todos veem os moleques esperando o ônibus passar no canteiro central. O ônibus para. Todos se levantam para olhar. O seu grupo fala para as pessoas saírem da janela, pois eles poderiam jogar pedras. Todos estão com medo. O ônibus continua a andar e passa pelos moleques. Todos reparam que os moleques não tinham mais de 13 anos. Eles viram crianças. Sua mãe comenta: “Esses daí dava pra colocar no colo e dar umas palmadas”. Todos riem. Em seguida ela fala para você: “Tadinhos, eles devem estar doidões”.

Alguém do seu grupo fala: “Isso é guerrilha”. Você não sabe ao certo se algum dos garotos falou isso ou se alguém inventou. Eles repetem isso algumas vezes, rindo dos garotos e ironizando: “Nós andamos no meio da floresta no escuro e estamos com medo desses meio-homens”. Sua mãe fala para você: “Eles disseram que não queriam descer por que tinham pago a passagem” e mais uma vez coloca eles como vítima da história, usando como sempre a piedade.

Você olha para a janela e sente uma imensa tristeza. Pensa o quão difícil deve ter sido para esses garotos arrumarem dinheiro para desperdiçar em passagens de ônibus. Você pensa na palavra “guerrilha” que o grupo não para de repetir e rir. E pensa que gostaria de estar do outro lado. Pergunta a si mesmo o que está fazendo ali. Pergunta-se porque se relaciona com essas pessoas tão desprezíveis.

3 sentimentos em forma de rajada:
1- Raiva
2- Vontade de vandalizar e fazer arruaça.
3- Pena

Você sente vontade de quebrar algo, porém isso viola as leis de conduta que os moleques não conheciam. Você pensa nisso, e isso apenas te motiva mais. Você tenta quebrar um pau que você usou como cajado durante a caminhada. O pau dobra, mas você não tem forças suficientes para quebra-lo, talvez por você ser fraco, talvez por você saber que a sua raiva não vai ter nenhum fruto. Você tem vontade de pegar o pau que você não conseguiu quebrar e bater na cabeça dos indivíduos rindo dos moleques ou rindo da impossibilidade dos moleques de machucarem eles. Você se contém e pensa que a ignorância é uma benção. E depois percebe que os indivíduos provavelmente não tinham tanto acesso ao conhecimento quanto você, e que o oprimido sempre oprime. Você sente pena.

O BRT chega ao seu ponto final. Você se separa do seu grupo, com sorrisos e apertos de mãos. Pega outro ônibus que lhe deixará perto da sua casa. Senta com seu irmão e mãe numa cadeira do ônibus. O cara da frente, um gordo com cara de bêbado e camisa do fluminense, puxa conversa com você e seu irmão. Pergunta se os cajados iriam virar arco e flechas. Vocês respondem que sim, que um deles vai virar. Ele comenta sobre o jogo do fluminense. Você decide fingir que é fluminense. Ele reclama sobre o Renato Gaucho que, faltando cinco minutos de jogo, mandou o time segurar e não avançar. Você pensa o quão importante um mero jogo de futebol deve ser para esse individuo. E responde com uma cara que não diz nem sim nem não, mas é o que o cara quer ver. Ele pergunta se eu vi na televisão a luta do brasileiro fortinho contra o Americano, mais bonito e mais forte. Você faz que não com a cabeça. Ele fala que o brasileiro fortinho deu uma surra no americano e que ele não era o favorito. Ele comenta que outro dia estava vendo televisão e parou no canal da missa, e que a missa foi uma coisa fenomenal. Você pensa que deve ser bom realmente acreditar nessas coisas. Ele fala que a fé da garotinha tinha sido tão grande que ainda sobrou mais um pouco. Ele faz uma conexão com a sobra de fé e a vitória do brasileiro fortinho. Ele desce do ônibus. Sua mãe comenta: “É tanta solidão. Ele não deve ter amigos, a vida dele deve se resumir a assistir à televisão”.

Você pensa que a situação dele lembrou muito a do “papai”, que não é seu pai de verdade, mas, sim, pai do seu irmão, que uma época procurou ser um pai de verdade, porém as coisas não foram muito bem e ele parou. Porém você não comenta isso. Você não acha que é necessário essa comparação. Ela traria coisas que não são necessárias.

Você chega em casa. Toma um banho. Faz um dever que valia nota do curso de inglês e que você havia esquecido de fazer, sentado em sua mesinha em frente ao computador. Você pensa que deveria escrever sobre os garotos. E depois deita na sua cama e dorme, numa paz tão solene que dá a impressão de que todo o resto do mundo está bem.

7 thoughts on “Os três moleques

  1. Super bem escrito, reflexivo, compassivo, maduro. Qualidades raras quando se tem 14 anos. Você não me conhece, porém serei mais uma a torcer por seu crescimento no campo literário. Parabéns, João Daniel!

  2. JD, achei seu texto excelente…. Me lembrou de um autor que gosto muito: Paul Auster, conhece??
    Você tem um talento e tanto mas dedicação é tudo….Se se dedicar você irá longe, tenho certeza….
    Grande beijo,
    Joaninha

  3. …Sensível, diferente, inteligente e humano.
    Você sente orgulho por conhecer este jovem talentoso e amado,
    João, Parabéns, adorei o texto e sua criatividade na escrita, bjim, Iane

  4. João, que alegria ler esse texto aqui!
    Que ele possa encorajar outros/as meninos/as (e você sabe bem do que estou falando…)
    beijo, parabéns, mais uma vez,
    Flavia

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