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Vítima da estrutura

2 comentários
23out

Por Victor Hugo Liporage
Estudante do Colégio Estadual José Leite Lopes – Núcleo Avançado em Educação
Do site Capivara Branca

Aos meus professores, que sejam eternamente educadores e não treinadores.

Aprendi no Enem que nosso propósito não é aprender, e que os dias 24 e 25 de outubro são uma grande peneira nacional. Não me entenda mal, esse texto não serve apenas pra malhar o exame; longe disso. Posso dizer que as questões as quais fiz com mais segurança foram de conhecimentos gerais, graças a minha curiosidade irrefreável que me faz ler notícias. E no quesito “conhecimentos gerais” o Enem vai bem. Quer dizer, mais ou menos.

Começo escrevendo minha dissertação com um parágrafo de uma linha, seguido por outro parágrafo que já parte pro que seria o “desenvolvimento”, e logo em seguida converso contigo, leitor, explicando minha metodologia de escrita. Assim, do nada. Não é que eu não concorde com a estrutura preestabelecida de uma redação, mas minha irregularidade serve como exemplo pro meu ponto de vista: somos vítimas da estrutura e o Exame Nacional do Ensino Médio é uma espécie de seleção natural regulada.

Nossa única oportunidade pra estimular o senso crítico é na redação, e o que define nosso ingresso numa faculdade de ponta é interpretação de texto e quantas fórmulas conseguimos gravar. Volto a citar o item “conhecimentos gerais”, algo tão priorizado pelo exame, mas que na maior parte das vezes fica refém de questões com grau de especificidade altíssimo, servindo apenas pra ajudar a mascarar sua importância.

A definição de Seleção Natural é assustadoramente condizente com o que é o Exame Nacional de Ensino Médio. Julgue-me sofista, mas ouso dizer: somos bichos batalhando por um lugar em nosso habitat natural.

texto enem

Nos tornamos selvagens e pulamos grades em busca da “comida”, mobilizamos holofotes na tragédia e somos reféns dos mais fortes.

Entenda bem, há mais fortes, e não mais capazes. Na teoria, somos todos capazes. Se o estudante de colégio privado tem toda uma estrutura que o ajuda é se sair melhor na hora da prova, isso acontece porque ele tem que ser diferenciado, afinal, há cotas raciais para alunos do sistema público de ensino. As cotas são justas? Esse não é o ponto. Mas se existem, a balança pende pra certo lado. A partir do momento que uma “ajuda” é necessária dentro de uma competição, vemos que essa competição não é sadia. E afinal, existe alguma competição sadia?

Nunca fiz pedagogia, muito menos dei aula. Tenho 17 anos e até hoje só fiz uma vez o Enem; quem sou eu pra julgar com unhas e dentes a metologia da prova? Mas falo como um ser humano que, de certa forma, tem experiência. Faço parte do sistema de educação há 15 anos, já não sou mais criança. Nem eu, nem nenhum dos Victor que estavam na minha sala. Nem eu, nem nenhum dos adolescentes que se reuniram por, no mínimo, duas horas pra prestar o concurso Brasil a fora.

Mas beleza, vou tentar. Confesso que tive prazer em fazer as questões de Ciências Humanas – não querendo ser clubista e puxar sardinha pra minha área, já o sendo – mas havia Paulo Freire (este criticando o próprio modelo educacional vigente), ao lado de Simone de Beauvoir e parágrafo formidável de Slavoj Žižek. O que falar de Ciências da Natureza? Infelizmente, minha mãe não pôde me pagar um cursinho. Mas sou grato aos meus professores que tentaram me ensinar da maneira mais didática possível.

Nós, adolescentes, temos muitas boas conversas pra trocar, não precisamos sentar em carteiras separadas. A gente tem muitos bons textos a escrever, não precisamos assinalar qual letra é a mais correta. Não somos terroristas pra ter quer passar por um detector de metais, mas vivemos numa selva onde a concorrência nos leva a querer dar um jeitinho e romper com nossa ética. Mas onde está a ética que o Enem quer que eu saiba definir? Qual é a moral da história?

Está bem, na vida não só faremos coisas das quais gostamos ou são as mais corretas. Se o Brasil é um “país de todos”, que a educação seja pra todos. Um povo com senso crítico leva o país pra frente. Meus professores já me ensinaram isso, mas essa pergunta não caiu no Enem. Não existe meritocracia quando a concorrência é desleal e o avaliador é falho. Cabe muito mais coisa nesse texto, porém fui condicionado a escrever em apenas 30 linhas, sou mais uma vítima da estrutura.

2 thoughts on “Vítima da estrutura

  1. Que lucidez e perspicácia!
    Depoimentos assim me impulsionam e me fazem acreditar que nosso País tem jeito!

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