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A tela nossa de cada dia

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Publicado em Matérias
07ago

Dia 11 de agosto: dia de Santa Clara, padroeira da TV

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Por Marcus Tavares

Comemora-se no dia 11 de agosto o Dia da Televisão, em homenagem à sua padroeira, Santa Clara. Desde que foi inventada, em 1926, data de sua primeira transmissão, a TV revolucionou o mundo e as relações humanas. No Brasil, ela chegou nos anos 50, constituindo-se num forte elo de identidade nacional. Diante dela, os brasileiros se veem, se informam, aprendem, torcem, riem e choram.

A tevê está presente em praticamente todos os cinco mil municípios do território nacional, ao contrário de outras mídias, como o rádio, o cinema, o jornal e até mesmo o computador conectado à internet. Trata-se do sexto maior parque de receptores de tevê instalado no mundo. A TV é mais importante do que a própria geladeira. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/2007), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que 94,8% dos domicílios têm televisão contra 91,4% com geladeira.

É exatamente nos domicílios que a televisão ocupa lugar de destaque. Em muitas famílias, as atividades corriqueiras da semana, como a hora de dormir, de ir ao banheiro, de estudar ou de quando serão feitas as refeições, são realizadas, organizadas e mediadas de acordo com a grade de programação da TV, sempre à disposição, oferecendo companhia a qualquer hora do dia ou da noite, funcionando como um símbolo de identificação individual e coletiva.

De um simples eletrodoméstico dos anos 50, a tevê se transformou em um poderoso produto da indústria cultural, alicerce da sociedade de consumo, pelo qual são fornecidas referências que contribuem para a constituição do imaginário e da representação social de classe, de etnia, de nacionalidade. De família, de valores, de moda, de ações e pensamentos. De ser e estar no mundo. Do que é certo ou errado, do moral ou imoral. Do que é ser homem ou mulher. Menino ou menina. De identidade.

O poder da telenovela

E entre todos os produtos da televisão brasileira a telenovela é um dos que mais contribui para a criação e o estabelecimento dessas identidades. Inspirada no folhetim, na literatura originária da França, a telenovela propicia, diariamente, e em horário nobre, a expansão e o debate de dramas privados em questões públicas e de dramas públicos em questões privadas.

Em 1992, por exemplo, a TV Globo resgatou a história dos jovens brasileiros que lutaram e resistiram à ditadura.  No ar, era exibida a minissérie Anos Rebeldes, de Gilberto Braga, com os mesmos elementos da narrativa novelesca. Narrativa que, segundo a mídia da época, foi em grande parte responsável pela volta dos estudantes às ruas, sob o fenômeno que ficou conhecido como Caras Pintadas, que pedia o impeachment do então presidente da República, Fernando Collor de Melo.

Outro exemplo vem da novela Mulheres Apaixonadas, de autoria de Manuel Carlos, de 2003, também veiculada pela TV Globo. Parado na pauta de discussões do Congresso Nacional, o Estatuto do Idoso foi retirado da gaveta, reapresentado, colocado em votação e aprovado pelos parlamentares. O folhetim debatia o dia a dia de um casal de idosos que era desrespeitado pela própria neta dentro de casa. A narrativa mobilizou a imprensa, a sociedade e suscitou diversas discussões.

Na mesma novela, uma mulher era espancada pelo marido, com uma raquete. A emissora afirma que a trama ajudou a colocar na pauta do dia a formulação de uma nova legislação de combate à violência contra a mulher no Brasil. De fato, medidas foram tomadas. O Governo federal promulgou, inclusive, uma nova legislação. Na época, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou: “Mulheres do mundo, uni-vos contra os raqueteiros”, fazendo uma referência ao personagem da novela que usava a raquete para bater em sua mulher.

Na historiografia da teledramaturgia brasileira, exemplos não faltam de como a narrativa exerce influência sobre o cotidiano dos telespectadores. Em entrevista à Revista Época, em fevereiro deste ano, o economista Alberto Chong, que coordenou dois estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre o impacto da telenovela brasileira, afirmou que os folhetins vêm “moldando” as famílias em pelo menos dois aspectos: menos filhos e mais divórcios. De acordo com as pesquisas, quando a protagonista de uma novela era divorciada ou não era cassada, a taxa de divórcio aumentava, em média, 0,1 ponto porcentual.

Para celebrar a data e refletir um pouco sobre o tema, a revistapontocom entrevistou o ator André Arteche, 25 anos, que interpreta o personagem Indra, na novela Caminho das Índias, da TV Globo. André fala sobre o que pensa do produto número um da TV brasileira: a telenovela.

Acompanhe:

revistapontocom – A telenovela ainda exerce grande fascínio sobre os brasileiros?
André Arteche –
O Brasil é um país popular e a novela também. É um encontro perfeito entre gênero e público. A novela desperta temas que serão debatidos nas rodas dos bares, no trabalho, nas escolas…E a televisão feita no Brasil é referência mundial.

revistapontocom – O que é participar de uma novela das ‘oito’ da Rede Globo?
André Arteche –
É uma transformação. As pessoas passam a conhecer você e isto para o ator é fundamental. Permite que se abram outros campos também em teatro e cinema.

revistapontocom – Para que serve a telenovela brasileira?
André Arteche
– Entreter e questionar. A televisão não pode ser cobrada de sempre apresentar programas com fundo social ou cultural. Ela, muitas vezes, tem a única finalidade de entreter, porque a audiência também se sustenta assim, divertindo as pessoas. Mas é claro que isso deve ser mesclado com uma programação que disponibilize informação e conteúdo.

revistapontocom – Há sempre um grande debate entre educadores e produtores de mídia sobre o papel da televisão, e, no caso, da telenovela. Uns dizem que ela é puro entretenimento e que não tem nenhum objetivo de educar. Outros afirmam que ela, pela influência que exerce, mesmo não querendo, educa. Você certamente é de uma geração que cresceu assistindo à TV. O que você pensa sobre este assunto?
André Arteche
– Acho que ‘educar’ talvez não seja a palavra correta. Mas não tenho dúvida que a novela muitas vezes levanta questões importantes de serem debatidas. O Brasil é um país muito grande e saber que boa parte da população pode ter acesso ao mesmo conteúdo já é uma forma importante de comunicação e integração entre estados de um país tão diverso. Claro que existem falhas, mas no final acho o saldo positivo.

revistapontocom – Que tipo de falhas você se refere?
André Arteche
– Os excessos na programação que visam à busca da audiência. Acho que se deve estar sempre atento para que o share e o ibope não comandem a grade de programação. Criatividade é fundamental para isso.

revistapontocom – Você acha que o público ainda confunde bastante realidade com ficção?
André Arteche
– Acho que sim. Quando o público se identifica, ele acredita. Acho que essa confusão é sadia, faz parte da brincadeira. As pessoas querem ser surpreendidas, assim como no teatro e no cinema. Já levei algumas cantadas de confessas Norminhas.

revistapontocom – Pesquisas indicam que os jovens estão cada vez menos ligados à TV e mais à web e as mídias digitais e interativas. Neste sentido, o que você acha que pode vir a acontecer com as telenovelas? Elas terão que ser ‘reiventadas’?
André Arteche
– A ascensão da internet está, sim, associada à queda do ibope da televisão. Mas não porque as pessoas pararam de assistir à TV e, sim, porque agora assistem à TV pelo computador. Acho que a novela não vai acabar, mas, sim, passear em outras mídias. A rádionovela, por exemplo, migrou para a telenovela. Pode ser que no futuro venha a Cybernovela, vai saber?

revistapontocom – O que você pensa sobre a classificação indicativa dos programas de TV? Você acha que a classificação é necessária como forma de orientar pais na escolha e permissão do que seus filhos podem ou não assistir?
André Arteche
– Sem dúvida. Mas acho extremamente difícil, pois é complicador dizer o que é classificação e o que é censura, mas isto é uma questão que deve partir, primeiramente, dos próprios pais. A televisão estabelece a idade e avisa antes, mas quem determina realmente são os pais. Os órgãos reguladores apenas alertam de forma generalizada.

revistapontocom – A novela Caminho das Índias fala sobre traição, loucura, vingança… A obra não é indicada para menores de 12 anos. Você concorda com tal classificação?
André Arteche
– A novela fala sobre traição, loucura, vingança, mas também apresenta uma cultura diversa, alerta sobre discriminação, preconceito e outros temas importantes para uma criança ter contato. Quando eu era criança assistia ao Rambo e não tinha vontade de matar ninguém. Acho realmente que a educação – dentro de casa e nas escolas – influencia infinitamente mais do que um produto artístico, seja ele um filme ou uma novela.

4 thoughts on “A tela nossa de cada dia

  1. Muito elucidativa a matéria sobre a tv, com dados atualizados, que levam a refletir a sua abrangente importância e relevância para que sejam cada vez mais suscitadas discussões, debates e artigos. Não se pode pensar em educação ou mídia educação sem antes entender as potencialidades e problemas deste meio de comunicação. Parabéns!

  2. Acho que a entrevista (principalmente as respostas) é justamente a cara da televisão: superficial,sem
    opinião própria e autosuficiente. “O Caminho das Indias” é uma das coisas mais ridículas que já vi em televisão. Já assisti novelas, não sou contra o folhetim, mas esta das Indias encheu-me as medidas. Os personagens indianos fazem um sotaque ridículo, depreciativo dos indianos. Eu tenho vários amigos indianos, jovens e velhos e nenhum deles é tão ridículo.

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