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Caça às bruxas?

7 comentários
07jul

Por Marcus Tavares

Já assistiu ao comercial acima? Identificou alguma incoerência? Não? Mas saiba que existe e é grave. O comercial do McDonalds foi exibido, exaustivamente, nos cinemas, durante a exibição do filme de animação infantil “Rio”. A campanha – que “vende” brindes colecionáveis de personagens do filme – fala diretamente com crianças menores de 12 anos e acaba induzindo-as a consumirem o McLanche para ganhar os brindes.

Coisa de criança? Sim. Mas tal medida fere o próprio código de ética da empresa McDonalds e o acordo de autorregulamentação firmado junto à Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) e à Associação Brasileira de Anunciantes (Aba). Pelo documento, o McDonalds não poderia anunciar nenhum tipo de produto voltado para crianças menores de seis anos. O comercial foi exibido nas sessões do filme, que tinha classificação livre.

O departamento jurídico do Instituto Alana, em São Paulo, entrou com um recurso, em 14 de abril, junto ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), fazendo a denúncia e solicitando a suspensão da propaganda. O comercial, sem nenhuma manifestação do órgão, foi retirado do ar. Mas somente em 16 de junho é que o Conar se posicionou sobre o recurso.

Além da demora, o teor do documento chamou a atenção do Instituto Alana e de vários segmentos da sociedade que lutam pelo direito das crianças. Assinado pelo relator Enio Basílio Rodrigues, o parecer é, sem dúvida, ofensivo e equivocado, desrespeitando a democracia e, acima de tudo, entidades que estão na defesa dos direitos de crianças e adolescentes.

O parecer traz, entre outros, os seguintes trechos:

“(…) Já que estamos falando de crianças com menos de 12 anos e de uma representação ilustrada por um desenho animado infantil vale a fantasia de trocarmos o nome do instituto por outro mais característico – a bruxa Alana, que odeia criancinhas”.

“Ao contrário das bruxas do meu tempo que esperavam as crianças engordarem para devorá-la, a bruxa Alana – antroposófica, esverdeade e termogênica – prefere deixá-las bem magrinhas. Sim, a criança que ameaça ficar gordinha aciona imediatamente a vassoura digital da bruxa Alana”.

“Crianças foram feitas para azucrinar e para isso existe, quando necessário o famoso não!, sem precisar ameaçar a chamar a bruxa”.

“Creio que o Instituto Alana está olhando o Brasil de cabeça para baixo. (…) Suécia e Dinamarca têm  por base evitar que suas crianças de olhos azuis fiquem gordinhas, o Brasil tem por base acabar com a desnutrição dos nossos meninos moreninhos”.

“Cada vez mais crianças pedirão um brinquedo para o pai e este orgulhosamente dirá: sim, eu posso. Queira ou não queira a Alana”.

Em resposta, o Instituto Alana respondeu em seu blog: “O parecer de apenas duas páginas tem distorções e ofensas que jamais foram vistas em cinco anos de atuação do Projeto Criança e Consumo. E vale ressaltar: mesmo com tantos absurdos, o Conselho do Conar votou por u-na-ni-mi-da-de a favor do parecer. Por isso, pela total falta de respeito com que esse caso foi julgado, não reconhecemos mais o Conar como uma entidade séria e legítima para garantir a ética na publicidade brasileira. Entendemos que uma autorregulamentação como essa de fato não protegerá a infância brasileira dos abusos comerciais. É preciso uma legislação específica que proteja nossas crianças desses abusos. De novo: essa não é somente uma preocupação do Alana, mas também de 76% dos pais brasileiros que afirmaram em pesquisa do Datafolha que a publicidade de fast food prejudica seus esforços na educação alimentar de seus filhos”.

Segundo o Instituto Alana, a venda de alimentos com brinquedos vem sendo criticada em todo o mundo. No Brasil, o Ministério Público Federal instaurou inquérito em 2009 para investigar essa prática em três cadeias de fast food. A Assembleia de Belo Horizontre acabou de aprovar um projeto de lei que proíbe venda de lanches com brindes para crianças. Fora as várias proposições que tramitam no Congresso Nacional sobre essa questão.

Quem é pai ou mãe e tem condições de levar seus filhos ao cinema e depois financiar um lanche, sabe o quanto a publicidade voltada para as crianças influencia. Quem é pai ou mãe e não tem condições de levar seus filhos ao cinema e depois financiar um lance, sabe mais ainda. A promoção do McDonalds dos brindes dos personagens do filme “Rio” durou um mês. O McLanche Feliz trazia oito diferentes brindes. Para uma criança ter todos os brinquedos, ela teria que comprar o McLanche Feliz duas vezes por semana.

Leia na íntegra o parecer do Conar

7 thoughts on “Caça às bruxas?

  1. como publicitário e pai, me envergonho com a atitude do CONAR. Mas confesso que não esperava nada muito melhor que isso. É uma instituição cínica a serviço do lucro a qualquer preço, não tem fundamentos éticos, nem mesmo morais. Sua moral é líquida, ditada pelo mercado.

  2. Minha experiência com o Conar:

    Prezado(a) Sr(a). Marilda Campos Pereira

    Em atenção à sua reclamação recebida em 20/04/09 e referente ao anúncio: “SKY . TV É PODER INTERAGIR”, o CONAR informa que instaurou em 20/10/08 o processo ético nº 365/08 que foi levado a julgamento pelo Conselho de Ética do CONAR em 18 /10/08, tendo sido deliberado por unanimidade de votos o Arquivamento da representação.

    Segue abaixo um breve relato do julgamento extraído do site do CONAR – http://www.conar.org.br – Decisões e Casos – Resumo das Decisões – Ano 2008 – Dezembro/2008 :

    “Sky. TV é poder interagir”

    Representação nº 365/08
    Autor: Conar, por iniciativa própria
    Anunciante e agência: Sky Brasil e Giovanni FCB
    Relator: conselheiro José Tadeu Gobbi
    Segunda Câmara
    Decisão: Arquivamento
    Fundamento: Artigo 27, nº 1, letra “a” do Rice

    O diretor executivo do Conar abriu representação contra o anúncio veiculado em TV pela Sky. Segundo a denúncia, a mensagem apresenta exemplo de comportamento perigoso, ao mostrar o protagonista pulando a janela, após a locução “Ele pode voar! Voa meu super-homem!”. A preocupação é em relação aos telespectadores mais vulneráveis, em especial crianças e adolescentes.
    A defesa alega que o anúncio não sugere que o público “pule a janela”, mas apenas demonstra ser possível interagir com o conteúdo com um pouco de emoção, fazendo com que o telespectador sinta-se, dentro de seu imaginário, como protagonista dos filmes de ação.
    O relator deu razão à defesa, recomendando o arquivamento da representação, aceito por unanimidade. No seu entender, a ação está contextualizada e representa alegoria que não traduz uma situação real.

    Atenciosamente

    Secretaria Executiva

    CONAR – Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária

  3. O parecerista do CONAR não entendeu nada… misturou suas convicções políticas com as frustrações eleitorais e pariu uma peça surrealista, mal-educada e muito, mas muit mal-informada.
    Na contra-mão de tudo o que o mundo inteiro vem buscando em termos de alimentação e saúde das crianças.
    Poucas vezes li tanta besteira em tão poucas linhas.

  4. Estou em estado de choque com o que cabo de ler. Fiquei me perguntando se por acaso NÃO trocaram os documentos, pois as anotações preconceituosas e xenofóbicas me parecem extraídas de um diário de alguém em conflito, e em crise identitária. JAMAIS eu pensaria em se tratar de documento que compõe o ordenamento jurídico deste País.
    Mas, tal fato me faz reafirmar a importância de termos legisladores, operadores do Direito que venham das masssas e com elas sejam comprometidos.
    Há a real necessidade de criarmos a firme e forte convicção de que nós mesmos é que precisamos produzir exércitos de advogados, de juízes, de desembargadores e de legisladores que tenham a cara do povo, com ele se identifiquem, e para ele se sintam na obrigadação de voltar suas ações.
    Rute Albuquerque, mãe de criança de onze anos que se sente desrespeitada com esta barbárie travestida de posicionamento.

  5. O CONAR, uma entidade de classe que preza e defende as leis, deveria, pelo menos, respeitar a posição do Instituto Alana, que também defende e preza pelas leis. Lei existe para ser cumprida. Se ela é ruim, mude-se a lei. Em tempo: CONAR, toda unanimidade é burra.

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