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Cine revistapontocom

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22set

Por Marcus Tavares

A revistapontocom indica esta semana o filme Pro dia nascer feliz, de João Jardim. O longa estreou em 2006. Na ocasião, eu fiz uma resenha sobre o documentário e tive a chance de entrevistar, inclusive, o diretor. Para quem não assistiu, é uma boa oportunidade. Para quem já conferiu, sabe que vale a pena.

Leia, abaixo, uma crítica minha sobre a obra, e, em seguida, a entrevista que o diretor concedeu.

Seja no interior de Pernambuco, em um dos municípios do Rio de Janeiro ou em uma cidade afastada do Centro de São Paulo, a escola ainda é um lugar significativo na vida de jovens, mesmo com todos os problemas que possa apresentar. Um espaço de identidade e diversidade, de encontros e desencontros, de sonhos e realidades, de pressões e emoções, de valores. É o que revela Pro dia nascer feliz, novo filme de João Jardim, que estréia na próxima semana nas salas de cinema do eixo Rio-São Paulo.

Nas palavras do diretor, trata-se de um documentário investigativo que mostra que não existem padrões de escolas, mas realidades complexas que envolvem alunos, professores e sistemas públicos e privados de educação. De certa forma, o conteúdo das cenas não é muito diferente das histórias que já foram publicizadas pela mídia. Mas, o fato é que elas estão todas ali reunidas numa costura narrativa simples, objetiva e sem ser piegas.

Ao captar depoimentos de jovens estudantes, diretores de escolas, docentes e alguns pais, o filme prende a atenção. Não há como o público não se identificar, ao menos uma vez, com as situações apresentadas. Há o descaso de alguns professores e o amor de outros pela profissão. Há a indisciplina dos estudantes e a pressão daqueles que vivem para ‘passar de ano’.  Há dificuldades e sucessos. Há o dito e o não dito.

A câmera percorre escolas de diferentes cidades brasileiras: Manari, em Pernambuco, uma das localidades mais pobre do país; o município de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro; a capital de São Paulo, representada pelo rico bairro de Alto de Pinheiros; e Itaquaquecetuba, no interior paulista.

Em cada local, várias histórias de adolescentes e professores são apresentadas por uma câmera que revela os antagonismos que os dois grupos vivem dentro da escola. “Trabalhei muito para fazer um filme interessante e cativante sobre o tema escola que é chato e que, de início, já suscita uma desconfiança das pessoas”, destaca João Jardim.

Pro dia nascer feliz foi eleito, pelo júri popular do Festival de Gramado/2006, como o Melhor Filme. O mesmo festival concedeu ao longa o Prêmio de Melhor Trilha Sonora e o Prêmio Especial do Júri. O título também conquistou o Prêmio de Melhor Fotografia de Documentário, pela Associação Brasileira de Cinematografia e o Prêmio Especial do Júri, na décima edição do Cine de Pernambuco.

Em entrevista, o diretor disse que o filme levou quatro anos para sair do papel e que ele espera que o longa possa, pelo menos, promover uma reflexão sobre o tema. “Muitas coisas precisam ser feitas para melhorar a educação no país. O filme é um pequeno grão de areia”.

Confira a entrevista:

Marcus Tavares – Por que contar esta história?
João Jardim –
 Pela própria realidade que a gente vê. É muito pertinente fazer um filme sobre o funcionamento da escola e do comportamento do adolescente. Inquieta-me você ter uma escola que não consegue dar condições para o indivíduo, de qualquer classe social, crescer e se realizar. Da mesma forma, me inquieta você ter um jovem que não está interessado em fazer com que a escola seja boa para ele mesmo. Ou seja, esse antagonismo entre o adolescente e a escola me inquietava bastante. Quis mostrar uma realidade que me incomoda.

Marcus Tavares – O filme mostra a realidade de algumas escolas do Rio, de São Paulo e de Pernambuco. Como se deu a escolha destas instituições, dos alunos e dos professores?
João Jardim –
 Na verdade, tínhamos escolhido temas centrais que queríamos trabalhar no filme: a questão da desigualdade; o comportamento dos adolescentes na escola, a violência entre meninos e meninas; a questão dobullying, a implicância do jovem; e o desinteresse dos professores e também dos alunos pela escola. A partir daí, procuramos personagens que pudessem se encaixar nestes temas. Foi uma procura longa, uma pesquisa de mais de seis meses, para achar pessoas que falassem de maneira interessante e cativante sobre esses assuntos. Mas, na prática, o filme acabou também falando sobre outras questões, como a auto-afirmação, o rito de passagem da adolescência, a precariedade da escola… 

Marcus Tavares – Não havia então um roteiro pré-determinado?
João Jardim –
 Era um roteiro de temas, idéias, perguntas, coisas que podiam ter… Um roteiro aberto. A forma de fazer o filme variou de acordo com cada situação. Tem muito depoimento e observação. Minha função era ficar o mais invisível possível, provocando o mínimo de alteração, para que pudéssemos registrar a realidade como ela era.

Marcus Tavares – Qual das histórias apresentadas mais sensibilizou você?
João Jardim –
 Não tem a mais. Todas as histórias de uma forma me emocionaram e por isso estão no filme. De alguma forma, me identifico com todas elas: com o menino de Duque de Caxias que está à margem da marginalidade, mas que não virou marginal; com a menina que se sente rejeitada na escola; com a professora que é, no sentido figurado, violentada na escola pelos estudantes. Enfim, todas as histórias que estão no filme têm um pouco de mim mesmo.

Marcus Tavares – As escolas que você percorreu são bem diferentes das que você estudou?
João Jardim –
 Têm similaridades e diferenças. Tem coisas que não mudaram, como a sala de aula, o quadro-negro… A forma de ensinar sempre foi, de vez em quando, interessante; e desinteressante na maior parte das vezes. Isso não mudou. Por outro lado, as pessoas estão diferentes. O mundo está diferente, mais violento, mais radical.

Marcus Tavares – Que escolas, professores e alunos são esses que você mostra no longa-metragem?
João Jardim –
 Não dá para generalizar. A resposta acabaria rotulando as escolas, os professores e os alunos. A intenção não é esta. Deixo esta análise para quem for assistir. É um tema muito difícil, dúbio, que não existe certo ou errado. O filme mostra que não existe uma escola desta ou daquela forma. Mas, uma realidade muito complexa que envolve elementos intensos e também complexos: o aluno aos 15 anos, o professor que lida com esse estudante e o sistema educacional. Hoje em dia, acho que nem os educadores conseguem responder a essa questão. Que escola temos na atualidade? Esta é a grande pergunta. Eu não tenho respostas. Procurei fazer este filme por isso. Trabalhei muito para fazer um longa interessante e cativante sobre o tema (escola/educação) que é chato, e que, de início, já suscita uma desconfiança do público.

Marcus Tavares – Você acha que as pessoas consideram escola e educação temas chatos?
João Jardim –
 Acho não, tenho certeza. É só ver a audiência da TV Educativa e da TV Cultura. As duas emissoras, por exemplo, têm uma programação ótima, mas, pelo fato de estarem associadas à educação, seus programas afastam os telespectadores.

Marcus Tavares – Neste sentido, por ser um filme sobre educação, você encontrou dificuldades na obtenção de apoio e patrocínio?
João Jardim –
 Encontrei dificuldade, mas nem mais nem menos do que o normal.  Na prática, o tema, de vez em quando, dificultou. Em outras horas, ajudou. Acho que ficou no meio do caminho.

Marcus Tavares – O que você pretende com este filme?
João Jardim –
 Provocar uma reflexão sobre o tema para ver se, de uma forma bem humilde, as pessoas começam a se tocar de que a escola precisa ser prioridade. O tema precisa ser discutido de uma outra maneira. Outros aspectos devem ser debatidos, como a questão da subjetividade e do comportamento. Educação não é só número e dinheiro. O objetivo é trazer uma outra visão para uma coisa muito conhecida. É um trabalho a longo prazo. Na verdade, muitas coisas precisam ser feitas para mudar o quadro que se apresenta. Pro dia nascer feliz é um pequeno grão de areia.

Saiba mais sobre o filme no site
www.prodianascerfeliz.com

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