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Estudo traça diagnóstico da mobilidade social no país e sua interface com a educação

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Publicado em Matérias
18maio

O Brasil tem uma das sociedades mais desiguais do mundo. Desde os anos 1960, o país lidera o ranking de pior distribuição de renda entre todos os países da América Latina. Mas os indicadores de renda são apenas uma das faces da desigualdade social. Pesquisa coordenada pelo professor Carlos Antonio Costa Ribeiro, do Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ressalta que a pobreza e a riqueza também são uma consequência da desigualdade de oportunidades, que variam de acordo com critérios como classe social, gênero e cor, e traça um perfil da mobilidade social da população brasileira.
 
Com o apoio da Faperj por meio do edital Jovem Cientista do Nosso Estado, o professor está concluindo a análise estatística de dados que revelam aspectos do processo de estruturação das desigualdades no país, coletados – a pedido do Iuperj – pelo Ibope-Inteligência. O levantamento foi feito em 8.048 domicílios em todo o país, de todas as classes sociais, entre setembro e outubro de 2008. “O objetivo do trabalho é analisar a dinâmica da desigualdade no Brasil, que está relacionada à mobilidade social, ou seja, à capacidade de ascensão social do indivíduo, considerando a sua trajetória desde a família de origem até a formação de um novo núcleo familiar com o casamento”, diz Costa Ribeiro.
 
De acordo com o sociólogo, existem dois tipos de desigualdade. “Existe a chamada desigualdade de condições, que diz respeito aos diferentes níveis de renda, e a chamada desigualdade de oportunidades, que se refere às chances que uma pessoa tem de mudar de posição na sociedade ao longo das gerações familiares e ao longo do seu ciclo de vida”, explica. “Alguns têm mais chance de sobreviver na infância, de entrar e terminar a escola, de ter boa ocupação no mercado de trabalho. Esse processo de reprodução ou de superação das desigualdades é o tema do estudo.”
 
Para o pesquisador, a desigualdade de condições pode até ser um mecanismo saudável da sociedade, já que parte das desigualdades salariais é associada às diferenças de remuneração entre as carreiras profissionais. No entanto, a desigualdade de oportunidades sempre é injusta, pois contribui para reproduzir a pobreza. “Dizer que o filho de um médico deve ter mais chances de se tornar médico do que o filho de um faxineiro é antidemocrático por si só. Todos deveriam ter oportunidades iguais de escolher a carreira que quisessem, se tivessem as mesmas oportunidades de saúde e educação”, pondera. 
 
Heranças da desigualdade

Apesar dos altos níveis de desigualdade econômica e de pobreza no Brasil – os 10% mais ricos desfrutam de um nível de renda cerca de 25 vezes maior do que o nível de renda dos 40% mais pobres –, as chances de mobilidade social estão melhorando. “Na década de 1970, o filho de um profissional liberal urbano tinha mil vezes mais chances do que o filho de um trabalhador manual de se tornar um profissional liberal. Já a partir da década de 1990, essa probabilidade foi declinando e passou para 250”, diz Ribeiro, justificando a ligeira redução da desigualdade de oportunidades devido a fatores como a melhoria de acesso ao sistema educacional.

Segundo a pesquisa, os pais da classe média alta têm muito mais recursos para propiciar melhores oportunidades a seus filhos, o que faz com que eles continuem no topo da pirâmide social. Porém, mudanças na estrutura da sociedade brasileira permitiram o crescimento dessa elite nos últimos anos, devido à ascensão social de pessoas originárias de classes sociais inferiores. “Nos anos 1970, cerca de 5% da população brasileira pertencia à classe média alta. Hoje, já são 14%. Essa mudança na estrutura de classes da sociedade é chamada de mobilidade estrutural, que é um fenômeno típico de sociedades que se industrializaram muito rápido”, explica Costa Ribeiro. Ele ressalta, entretanto, que a maioria das pessoas que tem origem familiar nas classes sociais baixas permanece nelas durante a fase adulta.

O estudo comprovou também que o acesso à boa educação formal, um fator que influencia diretamente nas oportunidades que o jovem terá na vida adulta, está em grande medida associado à origem econômica da família. “Os jovens que estudaram na escola privada ou pública federal, por ser de famílias ricas ou até de famílias um pouco menos favorecidas, mas que decidiram investir tudo na educação dos filhos, têm muito mais chances de ingressar na universidade pública do que aqueles que estudaram em uma escola pública não federal, seja ela da rede estadual ou municipal”, destaca o professor, lembrando que a educação é um trampolim para a ascensão social, mas está associada à posição da família.

Outro aspecto apresentado pelo levantamento relaciona a entrada do jovem no mercado de trabalho às classes sociais da família de origem. “Os jovens de famílias de classe média costumam demorar mais para entrar no mercado de trabalho, porque gastam mais tempo se qualificando, ou combinam menos trabalho com estudo”, diz o professor. “Além da renda familiar, as redes de sociabilidade, que incluem as relações familiares e de amizade no trabalho, por exemplo, podem ter algum impacto na conquista de melhores empregos e na melhoria das condições de vida”, completa.

A análise de dados confirmou que ainda existem diferenças de acesso à educação e de progressão no sistema escolar entre homens e mulheres. “O levantamento mostrou uma inversão na desigualdade educacional de gênero. As meninas hoje têm mais chance de progredir na escola do que os meninos porque, em geral, estudam mais. Mas, na fase adulta, apesar de trabalharem o mesmo número de horas do que os homens e ainda se dedicarem à família, à casa e ao marido, recebem uma renda inferior”, informa.

Para o professor, a desigualdade racial no país está diminuindo, embora ainda haja mais chances para os brancos de completar os anos de transição dentro do sistema educacional. “Brancos e não brancos (pretos e pardos) que têm origem nas classes sociais mais baixas têm chances iguais, porém ruins, de ter mobilidade social. Já nas posições mais altas da hierarquia social, os brancos têm mais chance de permanecer lá ou de subir um pouco mais”, destaca. “Pretos e pardos, em geral, ganham menos”, conclui.

Fonte – Faperj

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