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Mulheres na televisão brasileira

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11mar



Por Marcus Tavares

Seja como escritora, atriz, apresentadora, jornalista ou garota-propaganda, a mulher sempre esteve presente na TV brasileira. Desde que chegou por aqui em 1950, a tevê abriu espaço para o universo feminino. Por meio de suas novelas, programas, noticiários e intervalos comerciais, ela possibilitou que a sociedade pudesse debater sobre o papel da mulher. Mulher esposa, mãe, dona-de-casa, trabalhadora, mas também mulher objeto e símbolo sexual.

Exemplos não faltam na historiografia televisiva. Há as novelistas Glória Magadan e Janet Clair que, logo cedo, conseguiram emplacar seus folhetins e transformar a telenovela em sucesso de audiência, e que até hoje servem de inspiração para as novas gerações de autoras.

Há as atrizes, como Regina Duarte, interpretando a socióloga Malu, recém-separada que vive momentos difíceis como mulher e mãe, no final da década de 70. Ou Sônia Braga, na pele da heróina Júlia Matos, ex-presidiária decidida a recomeçar a vida, reconquistar a confiança da família e vencer com a força de seu trabalho.

Histórias que também são feitas pelas apresentadoras de programas. De Lolita Rodrigues, fazendo as honras da casa para receber as estrelas da TV, passando por Dercy Gonçalves, aos domingos no horário nobre, Marília Gabriela, no programa TV Mulher, nos anos 80, que discutia sexo e os direitos femininos, em plena abertura política, até Hebe Camargo, Ana Maria Braga e Luciana Gimenez.

Sem esquecer, é claro, das adolescentes e modelos que fizeram escola: Xuxa, Angélica, Mara Maravilha e Eliana. Como babás eletrônicas, em programas infantis, elas despertavam o interesse das crianças.

Há também o time de jornalistas que ganhou simpatia e credibilidade. Turma que conquistou lugares até então ocupados por homens, como Lilian Witte Fibe, que, em 1996, ao lado de William Borner, faz sua estreia na bancada do Jornal Nacional, da TV Globo. E tantas outras como Leila Cordeiro, Leda Nagle, Sandra Passarinho, Glória Maria, Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão.

Não podemos esquecer também das dançarinas dos programas de auditório. Quem não se lembra da Rita Cadillac, do Cassino do Chacrinha? Ou das modelos que participavam da prova ‘Banheira do Gugu”, do programa Domingo Legal? Ou ainda do quadro ‘Sushi erótico”, do Domingão do Faustão? E a Tiazinha, da Bandeirantes?

Mulheres também sempre foram sinônimo de carnaval. Que o diga a Globeleza Valéria Valenssa, musa das vinhetas da TV Globo. Com samba no pé e o corpo nu pintado, ela reinou por cerca de 12 anos, passando o bastão para outra jovem modelo.

Modelos e atrizes que também sempre serviram de garotas-propaganda. De cosméticos a carros de luxo, de cervejas a clínicas de estética, de produtos de supermercados a remédios de emagrecimento e roupas íntimas, elas usaram e abusaram de charme, sensualidade e persuasão, convencendo, influenciando e ditando moda

As babás eletrônicas

Até então pautados em histórias da literatura ou em apresentações artísticas, os programas destinados ao público infanto-juvenil aparecem repaginados na década de 80, reunindo desenhos animados e gincanas. É o período das babás eletrônicas. O primeiro do gênero é o Clube da Criança (TV Manchete), que traz à tela a jovem modelo Xuxa.

Depois de Xuxa, outras jovens surgiram, como Angélica, Milla Christie e Mara Maravilha. Dançando, cantando e brincando com as crianças, as apresentadoras infantis ficaram anos na tela da tevê ditando moda e modelos de comportamento, principalmente, para as meninas.

Que o digam as chuquinhas de cabelos e as botas da Xuxa. E a pintinha na perna da Angélica. Quase todas as garotas queiram ter. Sem falar nas roupas, mais curtas e decotadas, na maquiagem e no vocabulário: “beijinho, beijinho e tchau, tchau”.

Os programas femininos

A história é antiga e o crédito é de Maria Thereza Gregori, que inaugurou o horário vespertino dedicado às mulheres. De 58 a 71, ela esteve à frente da Revista Feminina, na extinta TV Tupi. No cardápio do programa: moda, beleza, pediatria, geriatria e noticiário.

Usar as tardes (e também as manhãs) da programação da televisão para conversar com as mulheres fez e continua fazendo sucesso. Um dos marcos, sem dúvida, é a estréia da TV Mulher, em 1981, na TV Globo. No comando, Marília Gabriela, ao lado de Ney Gonçalves Dias, fez da atração não apenas uma exibição de utilidades e entretenimentos, mas uma tribuna em defesa da mulher.

De lá pra cá, todas as emissoras apostaram no gênero, algumas abrindo espaço para o debate, outras para a fofoca das celebridades, sem esquecer a culinária e as dicas de beleza. Quem não se lembra da Cozinha Maravilhosa de Ofélia? Ou de Etty Fraser, que estave à frente do Boca do Forno, na Record?

Hoje, a disputa pela audiência continua acirrada.

A telenovela e a mulher

De mulheres românticas, submissas e obedientes as mulheres guerreiras, lutadoras, trabalhadoras e poderosas. Da sucateira Maria do Carmo (Regina Duarte em Rainha da Sucata) à famosa Odete Roitman (Beatriz Segall em Vale Tudo), passando pela a ex-presidiária Julia Matos (Sônia Braga em Dancing Days) e por Clara (Claudia Abreu em Barriga de Aluguel), a lista é grande.

Além de revelar grandes atrizes, a telenovela brasileira trouxe à tona diversos temas sobre o universo feminino, como emancipação profissional, busca pela independência, liberação e auto-afirmação. Mulheres vítimas de agressão física ou exploradas sexualmente ou ainda receosas de terminar o casamento também foram enredos de folhetins que conquistaram audiência.

Folhetins que também ditaram moda e costumes em todo o território nacional. Personagens como Babalu (Letícia Spiller em Quatro por Quatro), Jade (Giovanna Antonelli em O Clone), Darlene (Deborah Seco em Celebridade) e, mais recentemente, Bebel (Camila Pitanga, em Paraíso Tropical) encantaram o público, principalmente jovem, lançando novos acessórios e roupas.

Publicidade: o adeus a Amélia

As mulheres começaram como garotas-propaganda da TV, anunciando, ao vivo, os produtos dos patrocinadores dos programas. Entre elas destacam-se as atrizes Idalina de Oliveira, Odete Lara e Meire Nogueira, que já vendiam anúncios na década de 50.

Por meio da publicidade, é possível observar a transformação pela qual a mulher passou nas últimas décadas. De donas-de-casa a mulheres independentes, trabalhadoras e executivas. Mulheres exigentes, inteligentes e práticas, que dividem o tempo entre a casa, os filhos, a família, o marido e o trabalho.

Há comerciais históricos e que marcaram época como o “primeiro sutiã a gente nunca esquece”, da Valisère. Ou as campanhas da Duloren, nas quais as mulheres, em roupas íntimas, sempre aparecem superiores ao homem, em inteligência e sagacidade.

A exposição e a exploração do corpo são, na verdade, cada vez mais enfatizados pelos comerciais de TV. Há por parte de alguns segmentos um grande investimento na participação das mulheres, usando e abusando da sua sensualidade, do seu charme e do seu apelo sexual.

As campanhas de cerveja são um bom exemplo. Nelas, as mulheres aparecem em cenas sensuais, seminuas e, muitas vezes, a serviço dos homens.

A mulher negra na tevê

É fato: a televisão brasileira abre pouco espaço em sua grade para a mulher negra, embora os negros representem 40% da população brasileira. Quando aparecem nas novelas, muitas atrizes interpretam papéis que se perpetuaram no imaginário brasileiro: escravas, domésticas, mães-de-santo e cablocas, quase sempre pobres.É possível contar nos dedos quando uma mulher negra foi protagonista de alguma trama. Na antiga Rede Manchete, tínhamos Taís Araújo, na pele de Xica da Silva. A mesma atriz que incorporou a personagem Preta, em Da cor do pecado, na TV Globo, e Helena, de Manoel Carlos, em Viver a Vida. Episódios que, embora possam ser comemorados, foram alvo de críticas por reforçarem estereótipos e padrões de comportamento. Boas atrizes é que não faltam.

Na história das apresentadoras, poucas negras também se destacaram. Talvez, apenas três: Adriana Bombom, que comandava o programa Bom Demais, da Record; a atriz Adriana Lessa, que participa do programa TV Fama, da Rede TV!; e Anelis Assumpção, da TV Cultura.

No jornalismo, também são poucas representantes. Uma das mais famosas é Glória Maria. O time é bem pequeno: Joyce Ribeiro (SBT), Maria Júlia Coutinho e Luciana Barreto (TV Brasil), Lica Oliveira, Zileide Silva e Dulcinéa Novaes (TV Globo).

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