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O lugar do cinema com o advento da multidão equipada

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19jun

(fotos da mostra: Universo Produção)

Por Marcus Tavares

Desde que foi criado, em 2005, o YouTube vem ocupando cada vez mais tempo e espaço na vida das pessoas. Dados da empresa contabilizam que são postadas na plataforma, a cada minuto, 100 horas de vídeo. Mais de seis bilhões de horas são assistidas a cada mês. Isso representa, aproximadamente, uma hora para cada pessoa na Terra e 50% a mais do que o número registrado no ano passado.

A análise feita pelo professor Cézar Migliorin, da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao participar da mesa Cinema, política, estética e pedagogia, no dia  16 de junho, durante a 8ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, talvez explique os dados apresentados acima. Segundo ele, o mundo contemporâneo convive hoje com a chamada multidão equipada, uma geração que, de posse de tecnologias de comunicação, produz quantidade incessante de imagens baseadas em registros e experiências. De acordo com Migliorin, são marcas registradas de um novo ethos da sociedade contemporânea, que a constitui e é constituída por ele.

Na opinião do professor, para pensar essas novas formas de ‘estar no mundo’, os cineastas estão frequentemente usando tais imagens. “Se antes os diretores precisavam estar no lugar da vida das pessoas, hoje existe outra camada de mundo, de produção incessante, que, por sua vez, está vinculada à estratégia de mercado, às estratégias tecnológicas das grandes empresas, aos modos de controle, a formas de engajamento da atenção”, destacou.

Como exemplo desta produção, Migliorin citou o filme Fragmentos de uma Revolução, obra composta de imagens feitas por anônimos. “É impressionante o que essa multidão equipada nos permite ver. Talvez a conexão mais forte que eu tenha tido com o Irã, em toda a minha vida, foi a partir deste filme, onde o cineasta operou com as imagens feitas por essa multidão equipada. O que me parece essencial é que isso [essa produção] é constituinte. É essencial pensar como essas imagens e informações estão operando na vida das pessoas. No Rio de Janeiro, grandes fenômenos culturais surgiram por conta de imagens compartilhadas. Se pensarmos, por exemplo, o que aconteceu com o funk, a dança do passinho e com as expressões estéticas ligadas à favela, vamos ver que muito do que foi desenvolvido foi pautado pelas imagens produzidas pela multidão equipada”.

Migliorin diz que essas imagens produzidas constituem, portanto, uma forma de estar no mundo e que, portanto, estão no campo estético e político ao mesmo tempo. “Essa produção da multidão equipada provocou [vem provocando] uma mudança do estatuto da imagem nos dias de hoje. O cinema foi tocado por uma grande virada, digamos assim, estética e política, nos últimos anos. Aqui não cabe a pergunta se esta profusão, potencializada pelo compartilhamento, é bom ou ruim, se representa um avanço ou um retrocesso”, informou.

Segundo Migliorin, é preciso dialogar com estas imagens. A questão que se coloca, hoje, é como agenciar e tomar posições das imagens dos outros? Com operar com as imagens alheias?

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