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O poder do erro

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09mar

Por Isabel Gardenal
Do Jornal da Unicamp

Uma sociedade que busca colocar a regra acima do ser humano nunca vai ser livre e feliz. Essa foi a conclusão da dissertação de mestrado de Rodrigo do Prado Bittencourt, desenvolvida a partir da releitura da novela “A estória de Lélio e Lina” e presente na obra Corpo de Baile, do escritor João Guimarães Rosa [1908-1967]. “A regra pressupõe a falha e a punição da falha. Isto se torna perigoso, quando levado a extremos em que as pessoas vivem sob uma grande pressão para não falharem, não errarem nunca”, reflete o pesquisador no seu estudo, apresentado recentemente ao Instituto de Estudos da Linguagem (IEL).

Segundo ele, a História mostra que muitas vezes o que é chamado de erro, e repudiado num momento histórico, pode passar a ser correto em outro. “Mas o que é ser ‘normal’? Existe alguém ‘normal’?”, indaga o autor da dissertação, na mesma direção da personagem Lina na estória: o normal é relativo.

Comumente, as pessoas são obrigadas a sacrificar a felicidade para ceder às pressões sociais. “Fazemos isso o tempo todo no trabalho, na família, na universidade e em outras esferas. É preciso criar uma sociedade em que a felicidade de cada um seja a regra maior, e isso só se faz com liberdade, com espaços que comportem a variedade política, econômica, cultural, social, sexual”, defende o autor da pesquisa, sob orientação do professor do IEL Mário Luiz Frungillo.

Guimarães Rosa, natural de Cordisburgo, em Minas Gerais, aborda a relação entre o jovem vaqueiro Lélio e a idosa viúva Lina. Os dois vivem uma intensa amizade que, na verdade, se mostra bem mais que uma mera afeição.

Lina, em sua sabedoria, ensina Lélio a ser mais humano. Convida-o a sair de si mesmo e descobrir-se, sem medo, no contato com o diferente. Na visão dela, os erros não deviam levá-lo a se repudiar ou a repudiar alguém e sim buscar entender o que há de mais humano em si próprio. “A democracia pressupõe o ‘erro’, a liberdade de ser diferente”, observa Rodrigo.

Lélio chegou a uma fazenda de gado no sertão de Minas Gerais na primeira metade do século XX, provavelmente na década de 1950. Foi contratado e iniciou ali uma nova vida. Sem família, era um solitário, e a procura por um novo lugar era também a busca pela felicidade.

Por insegurança, ele não se abria facilmente e não conseguia se envolver profundamente com ninguém. Lina, vizinha da fazenda onde Lélio trabalhava, seria a pessoa com que conseguiria romper essa barreira? Seria para o vaqueiro alguém importante?

A amizade entre Lélio e Lina causou estranheza às pessoas do local, sobretudo ao filho dela, que era um sitiante ganancioso que tentava pôr fim ao relacionamento dos dois. Eles resistiram e seguiram se encontrando, apesar de tudo.

Nessa fazenda, Lélio sofreu desilusões amorosas, conflitos com seus amigos, dúvidas sobre seu futuro e toda a sorte de angústias, que somente Lina conseguiu aplacar.

Quando essa propriedade foi vendida, Lélio desejou se mudar dali. Ficar seria um sofrimento, pois ele viu amigos morrerem, outros se mudarem, um enlouquecer, outro adoecer… Resolveu levar Lina consigo, sem alarde, para uma outra fazenda do sertão, como se estivesse roubando uma moça para se casar com ela.

Ao longo da narrativa, percebe-se, o vaqueiro foi se tornando cada vez mais confiante: já não precisava renegar seus desejos em nome de regras sociais opressoras ou viver do passado, sem experimentar as oportunidades do presente. Tudo isso Lina conquistou por meio do quê? Ela não era rica, famosa ou bela. O que tinha ela a oferecer? A palavra! Lina, como seu criador, cultuava a beleza da palavra.

Sociedade

Em determinado trecho da dissertação, Rodrigo menciona a pertinência das ligações entre o texto rosiano e a História do Brasil. Conforme ele, nos textos de Guimarães Rosa são encontradas referências místicas, intertextuais, filosóficas, estéticas e inclusive históricas.

Há sempre algo mais que os fatos históricos, mas eles também estão lá. Isto fica evidente em Grande Sertão: Veredas, com as referências a lutas jagunças, que de fato ocorreram, porém não se limitam a esta obra. Em “A estória de Lélio e Lina”, verifica-se um sertão em contato cada vez mais intenso com a modernidade, e este processo foi muito bem descrito por Guimarães Rosa, que fez parte da terceira geração do modernismo.

Ele publicou essa obra em 1956, em um momento de maturidade pessoal, literária, profissional e política, explica Rodrigo. Já era pai; já estava em seu segundo casamento (que duraria até o fim de sua vida); já tinha deixado a profissão de médico (para ingressar na diplomacia); já tinha publicado um livro (Sagarana) e tinha ganhado um prêmio literário (pelo livro de poesias Magma, que ele não quis publicar).

Além disso, o escritor passou pela experiência da Segunda Guerra Mundial, sendo cônsul em Hamburgo (1938-1942), onde, junto com a segunda esposa, ajudou muitos judeus a fugirem do nazismo, uma importante e profunda experiência política.

Assim, Guimarães Rosa traz uma bagagem bem mais sólida que a de Sagarana, publicada dez anos antes. Os textos dos livros de 1956 (Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas) são muito mais maduros e muito mais “universais”. Focam-se mais naquilo que ele acredita ser o humano em si, fugindo do pitoresco e do exótico, ainda presente em alguns contos de Sagarana e muito evidentes nos contos de sua juventude, publicados na revista O Cruzeiro.

Não há dúvida de que essas experiências de vida influenciaram suas obras e nota-se isso nelas. Há muita violência em “A estória de Lélio e Lina”. Pode-se dizer que ela subjaz a toda a narrativa. Lélio sempre desejou resolver seus conflitos por meio dela e foi Lina quem lhe mostrou o caminho da aceitação do outro: da tolerância e do diálogo.

O pesquisador discutiu em seu trabalho a relação entre as regras sociais e a liberdade. Guimarães Rosa dá uma lição de tolerância e de defesa do direito de cada um de ser como quiser e de fazer o que quiser com sua vida, desde que não prejudique os outros.

Lina é quem está sempre a defender que a felicidade deve estar acima de qualquer coisa: religião, posição política, moral, interesses econômicos. As regras sociais, para ela, não devem ficar acima do humano, obrigando todos à perfeição.

A perfeição não é um atributo humano; exigi-la é desumano. Além do mais, Lina sugere a Lélio que a visão que o vaqueiro tinha de perfeição era muito questionável. Ela defende Manuela, que perdera a virgindade antes do casamento (algo que, no sertão, poderia resultar até em morte), e garante a Lélio que não havia moça melhor para lhe fazer feliz.

A concepção de que se pode separar as pessoas “boas” e “perfeitas” das “erradas” e “desprezíveis” é o princípio do nazismo e de várias outras formas de sujeição e opressão historicamente conhecidas, comenta Rodrigo.

Como esta fronteira não pode ser fácil e claramente delimitada, ela é vista por Lina como sem sentido. Afinal, não se pode condenar alguém pelos seus erros. É preciso ver cada um em sua completude, em tudo aquilo que tem de humano. Com efeito, é pelo erro que o ser humano cresce, avança. Em “A estória de Lélio e Lina”, o escritor sintetiza bem isso: “E ninguém não sabe: talvez o céu não cai só mesmo por causa do voo dos urubus…”

Estética

Quando descreveu a relação do social e da estética no trabalho, Rodrigo quis dizer que a estética trabalha a partir da sociedade. Se os códigos estéticos não forem antes de tudo sociais, a obra de arte torna-se inapreensível.

“Tente explicar Hamlet para uma tribo africana tradicional, como Laura Bohannan tentou fazer, e você verá que uma obra só faz sentido dentro de um contexto”, esclarece o pesquisador. Assim, a união amorosa entre um jovem e uma idosa devem ser analisados pelo ponto de vista do contexto em que se insere. Apenas deste modo pode-se compreender a importância deste fato dentro da obra, sua “contação estética”.

Os pilares sobre os quais se assentaram sua pesquisa foram principalmente dois: um de matiz sociológica, voltado sobretudo para as contribuições de Bourdieu à Sociologia da Literatura, e outro propriamente de Crítica Literária, baseado no que há de fortuna crítica sobre a obra rosiana.

É ampla e variadíssima a fortuna crítica sobre Guimarães Rosa, que foi contista, novelista, romancista, além de diplomata. Esta pesquisa se estabeleceu na vertente que busca perceber os elementos políticos e históricos dentro da sua obra, representada por autores como Heloisa Starling, Walnice Galvão, Luiz Roncari e Willi Bolle, tradição que não é nova no Brasil e que foi iniciada por aquele que ainda é considerado um dos maiores críticos da história do país: Antônio Candido.

O texto avaliado ensina muito sobre a sociedade e sobre o indivíduo, e mesmo sobre a Filosofia. Lendo-o, percebe-se o quanto o contato com o outro pode revelar mais sobre mim mesmo. “Por isso nos remete à Psicanálise de Lacan, que explora o sujeito não como um ser isolado e inteiriço – a mônada concebida por Leibniz –, porém como um ser em constante relação com outros seres e que não existe senão no interior destas relações”, constata Rodrigo. “É no contato com o que descubro meu. E só assim eu posso melhorar e me tornar uma pessoa mais feliz. O outro é um desafio, mas também um presente.”

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