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Sem internet

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08abr

Por Marcus Tavares

Depois de terem lido, na Folha de S. Paulo, a experiência de um escritor que ficou sete dias sem acessar a internet, um grupo de alunos do Colégio José Leite Lopes – NAVE, no Rio de Janeiro, resolveu fazer o mesmo. A ideia do quarteto formado por Felipe Vieira, Lívia Pimentel, Thaynara Fernandes e Ágatha Rodrigues entusiasmou também um dos professores da escola: Daniel Gaivota, de Filosofia. “A experiência não foi nada fácil”, recordam os estudantes que têm, na escola, computadores com acesso à internet nas salas laboratório e na chamada área de convivência, onde podem navegar à vontade. A jornada começou no domingo, dia 31 de março.

Na Revista Sem Nome, uma publicação digital de notícias também criada e produzida pelos alunos, os participantes relataram o processo de abstinência. No meio do caminho, alguns desistiram.

Outros tentaram – e conseguiram – desviar o desejo para outras atividades e ações.  A proposta do grupo era chamar a atenção, de cada um dos participantes e de seus amigos, de como a internet é essencial na vida das pessoas e como elas estão cada vez mais dependentes.

“Dias antes da experiência começar, eu já estava a ponto de me jogar precipício abaixo. Tenho toda uma história de amor com o meu computador e principalmente quando ele está conectado à internet. (…) Resolvi me organizar pra não entrar em desespero em pleno domingo, um dia antes de a experiência começar (o que não significa que eu consegui me privar disso). Já era esperado que eu tivesse uma crise existencial no domingo, que se estendeu até a segunda e que eu procurei aliviar com a comida. Não adiantou muita coisa, mas me acalmou muitas vezes. E sim, eu exagerei na crise existencial, mas juro que senti algo muito próximo disso”, Ágatha Rodrigues.

“Estou indo para o colégio com uma aula meio planejada, mas sei que de última hora, não vou poder acessar instantaneamente alguma informação de que talvez precise. Por isso desenterrei os dicionários de filosofia que já estavam mofando.”, professor Daniel Gaivota..

“Todos receberam um caderno de campo onde, a princípio, fariam seus registros a cada três horas, mas ficou a critério de cada um fazer num intervalo maior ou menor. Boa parte desta trajetória postamos na nossa revista”, destacou o grupo, cujos alunos fazem parte do curso de Narrativas Digitais do NAVE.

Leia alguns relatos da semana sem web:
– Segundo dia
– Terceiro dia
– Quarto dia
– Quinto dia

E o que ficou desta experiência? Com a palavra os participantes:

“Quando fui convidada para participar, tenho que confessar que pensei bastante antes de aceitar. Foi uma decisão meio complicada. Pode parecer bobeira falando assim, mas a internet hoje em dia está tão penetrada na vida da humanidade que quando surge a proposta de ficar apenas uma semana sem a presença dela a gente para e pensa. É como se fosse uma das decisões mais difíceis de tomar. Para falar a verdade, não me arrependo de ter aceitado e conseguido ficar até o fim da experiência. Pude perceber e notar o quanto somos dependentes da tecnologia. Antigamente, as pessoas tinham livros de pesquisa em casa e aqueles cadernos enormes de telefone onde você encontrava qualquer número que quisesse. As pessoas interagiam mais umas com as outras e, quando queriam se falar, usavam telefone e não Facebook. Claro que com a chegada da internet muitas coisas ficaram mais acessíveis e fáceis, só que as pessoas acabam meio que se viciando naquilo de ficar na frente do computador fazendo suas coisas. Quando fiquei sem internet foi bastante complicado arrumar alguma coisa para fazer. Eu sempre pensava em algo divertido, mas quando eu ia ver… tudo precisava de internet. Pensei em ouvir música, mas precisaria do youtube. E quando tinha trabalho do colégio para fazer tudo ficava mais ainda complicado. Precisava pesquisar o conteúdo e acabava não tendo como fazer. A única ferramenta que eu tinha era o Google e não podia usá-lo. Achei um absurdo não ter um livro de pesquisa em casa. Quando eu queria o telefone de alguma loja ou restaurante, normalmente eu pegava na internet, não na lista telefônica. Depois dessa experiência podemos dizer que muita coisa mudou em mim. Consigo me ver um pouco menos dependente da internet, embora ela seja totalmente indispensável. Claro que ainda necessito dela para a maioria das coisas, mas também quando não a tenho, muitas vezes, consigo dar um jeito. Eu super recomendo a todos essa experiência. Com certeza vai ser produtiva. Tem muitas coisas para se fazer sem a internet. Eu gastei o meu tempo lendo, desenhando, cuidando da casa, pintando e saindo muito com os amigos. São coisas que ajudam bastante na hora da distração. Por mim, faria a experiência de novo, porque, de fato, foi muito bom” – Lívia Pimentel, 17 anos.

“Quando me prontifiquei a participar da experiência imaginei que seria fácil, achava que eu não teria problemas com essa privação. Mas durante os dias, para falar a verdade no primeiro dia, bateu aquela vontade de largar tudo e abrir o navegador. Afinal ficar numa sala cheia de computadores com acesso livre à internet, onde só eu não podia usufruir, foi um problema. Fiquei muito deslocada. Aí vi que eu estava absolutamente desconectada. Com o tempo, fui substituindo a viciante internet por outras ferramentas que foram desprezadas com o crescimento da web, como o dicionário, que foi uma grande vítima esquecida na prateleira de casa. Senti-me em retrocesso, mas de forma positiva e proveitosa, pois se eu usasse a web para pesquisa, eu iria desviar a atenção para outros assuntos, desfocando a principal razão do seu uso. Sem a internet, me senti mais focada. Pude terminar trabalhos em pouco tempo, estava mais produtiva. Porém, havia algo que eu não pude administrar bem: o contato com os amigos/conhecidos que só se comunicavam comigo via rede social ou e-mail. Isso foi uma das coisas mais chatas. Ainda mais quando eu me sentia perdida em assuntos gerados nesses locais, onde eu não podia “estar”. Ouvir algo como “você viu aquele link que te mandei?”, “você viu o tal vídeo muito engraçado, né?”. Não, eu não podia responder, eu não tinha visto. Comecei a perceber/vivenciar como meus pais se sentem às vezes numa conversa entre minha irmã e eu. Não vou negar que quando chegou o último dia, fiquei contando as horas para me conectar. Quando terminou, fui logo verificando o e-mail, abrindo a conta na rede social para recuperar toda informação e acontecimentos perdidos. A ansiedade que antes eu sentia não tinha valor algum. Comecei a mudar a concepção do uso que antes eu fazia da rede. Acho que, agora, posso usar melhor o tempo em coisas mais produtivas do que antes, quando eu perdia tempo atualizando status e mudando fotos” – Thaynara Fernandes, 17 anos.

“O período de preparação foi bem fácil e legal. Foi aquele momento em que a gente acha que vai ser muito bom e fácil. Mas quando começou fiquei desnorteado. Admito: me tornei muito dependente da internet, não consigo mais ficar um dia sem. A experiência em si é algo que eu acho que todo mundo deve fazer, pelo menos uma vez. Eu não consegui dessa vez, mas vou ver se tento de novo qualquer dia” – Felipe Vieira, 17 anos.

 

 

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