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Toca aí DJ

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09out

Por Marcus Tavares

A tia faz o bolo. Os docinhos ficam por conta da avó. As bebidas na geladeira. Os salgadinhos fritos na hora. Ah, sim, e as bolas? Bem, é só chamar a garotada e tudo fica pronto para a hora da festa. Som ligado, comida e bebida. Pronto: agora é só deixar a criançada se reunir e brincar à vontade. Aniversário assim é coisa do passado, de álbum de família. Hoje, na maioria das grandes cidades brasileiras, festa infantil é sinônimo de espetáculo que se adequa aos diferentes gostos e bolsos. O número de casas de festas se proliferou nos últimos anos. Lucro certo para dar assas a imaginação das crianças e, principalmente, sem dúvida alguma, dos pais das crianças.

Impressiona ver e sentir o quanto a comemoração do aniversário dos cidadãos de primeira viagem se transformou, nas últimas décadas, num grande e disputado evento, com uma programação extensa, requintada e cheia de etiquetas. A cada hora um show, uma apresentação, uma atividade, muitas vezes com direito a teatrinho, karaokê, mágica, palhaços, animadores e, sem esquecer, é claro, a um miniparque de diversões. Barraquinhas de cachorro-quente, pipoca, algodão doce e sorvete compõem o cenário. A mesa do bolo, com todos os enfeites é algo cinematográfico. Um mundo de sonho, no qual os personagens dos desenhos animados ganham vida – ao vivo e a cores – para espanto, admiração e alegria das crianças. Foi-se o tempo que os personagens se contentavam em aparecer apenas nos copos, pratos, guardanapos, chapéus ou no grande painel da mesa do bolo.

Isso sem esquecer, é claro, dos flashes e das câmeras das filmadoras e dos celulares, atentos a cada reação das crianças. Tudo perfeitamente registrado e documentado em áudio e imagem, que logo se transforma num DVD ou capa de jornal e ou revista, distribuído para os familiares e amigos.

Além da agenda lotada, o que vem chamando a atenção é a trilha sonora das festas infantis. Você já reparou nisso? Para começar, as festas contam com a figura dos DJs, que, ao que parece, não têm muito trabalho. As músicas que tocam são praticamente as mesmas das baladas. Transformação que vem ocorrendo desde os anos 90.

Quem não se lembra, por exemplo, da dança da garrafa? Bebês e crianças descendo, descendo na boquinha da garrafa. E pensar que nas décadas anteriores, os hits eram do Carequinha, Toquinho e Vinícius de Moraes, com o famoso e inesquecível Lá vem o pato. Quanta mudança, não?

Silvia Düssel Schiros que o diga. Ela não esquece um episódio que aconteceu há nove anos. “Quando minha mais velha, que hoje tem 12 anos, tinha três anos, fui a um aniversário em uma casa de festa. Enquanto o “DJ” – Dj para festa de três anos? – tocava Xuxa e similares, ainda estava suportável. Mas aí ele passou para o cantor Latino, “Festa no apê”,  aquela do bundalelê, bem alto. Fui comentar com ele: ‘Cara, é festa de criança, essa música não está adequada’. Ele me olhou com cara de espanto e não trocou. Fui comentar com outras mães que tinha reclamado – a mãe da aniversariante estava junto. Elas também me olharam com cara de espanto. Tenho a impressão de que as pessoas perderam o senso crítico”.

Cristiane Chiofalo, dona de um buffet de festas, em São Paulo, não tem dúvidas. Ela diz que está cada vez mais preocupada com o nível/compromisso das mães. “Nossa casa se recusa a tocar algumas músicas, assim como toda a parafernália de transformar a festa em um show. Mas, em contato com os pais, percebo o quanto estas crianças estão desamparadas de limites”.

Inconformada, Chiofalo vem trabalhando contra a maré, contra os modismos. Nos últimos aniversários, ela resolveu tirar todos os eletrônicos da festa e convidar os pais a brincarem com seus filhos. “É chocante que a maioria dá um jeitinho de se omitir. E continuam delegando, inclusive a brincadeira entre eles e seus filhos, para que outras pessoas cuidem. Enfim, estou tentando não julgar e, sim, refletir sobre tudo isso. Mas é difícil. A realidade tem se apresentado como a descrita no livro A sociedade dos filhos órfãos, de Sergio Sinay. A obra fala dos pais que abandonam suas responsabilidades básicas frente aos filhos, com as desculpas de excesso de trabalho ou de falta de resistência ao trabalho árduo de educar as crianças. Consequentemente, esses responsáveis acabam terceirizando tudo: educação, alimentação, lazer e, inclusive, as festas”.

No ano passado, Claudia Olsieski da Cruz acabou se rendendo ao mundo das festas, por insistência do filho que tinha o sonho de comemorar o aniversário como a maioria dos amigos da sua idade. Mas enfrentou dificuldades na hora de fechar o contrato. “Fiz questão que o gerente da casa de festas colocasse no papel que não iria tocar nada de funk e ou pagode. E que o som deveria permitir que as pessoas conversassem sem berrar. Perguntaram-me se eu era evangélica. Tive que explicar que não se tratava de religião, mas simplesmente de gosto musical. A insistência dele em manter esses ritmos só terminou quando falei em procurar outro lugar para a festa. Mas, maldição, esqueci de colocar o techno na lista dos proibidos”.

Na direção de apresentar outros gêneros musicais e autores, Aline Pierote, mãe de dois meninos, de três e seis anos, sempre procura tocar as músicas dos Saltimbancos, Arca de Noé, de Vinicius, Casa de Brinquedos e composições de Hélio Ziskind. “É isso que eles escutam quando estão no carro ou em casa. Mas fico sem saber como agir quando vamos a festas infantis e eles ouvem o repertório adulto, na minha opinião inadequado. É espantoso como o ritmo dessas músicas agrada a meninada. Eles cantam sem ter noção do que estão falando. O meu mais velho, no dia seguinte, estava no banho cantando sexy lady (PSY, Gangnam Style). Penso que não há como blindar nossos filhos. Eles eventualmente vão ter acesso a esse “conteúdo”. E nosso papel como pais é orientar, explicando que há vários tipos de música, deixar clara nossa preferência, restringir o máximo possível o que não nos agrada e, principalmente, dar o exemplo”.

Lia Vasconcelos concorda com Aline Pierote: não há como blindar os filhos. “Aqui em casa, as meninas escutam Palavra Cantada, Pequeno Cidadão, Adriana Partimpim, Saltimbancos, Arca de Noé, mas minha mais velha, de quatro anos, vira e mexe canta: ‘pi, pi, piradinha, ela tá maluca, fora da casinha’, ‘alek, lek, lek’, ‘show das poderosas’. Eu pergunto: ‘mas onde você ouviu isso?’. E ela: ‘a professora de ginástica olímpica canta, a amiga dela canta… E ela aprende rapidinho”.

E como. Ao que parece os grandes hits de hoje são Naldo e Anitta. A máxima, inclusive, é brincar de danças da cadeira ao som de ‘PRE-PARA’ em alto e bom som. A ‘festa’ continua.

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