Uma prova de amor questiona os direitos das crianças

  prova 

Por Marcus Tavares

Dramas no cinema sempre emocionam o público. Dramas que envolvem doença e família nem se falam. O que dizer então de dramas que envolvem doença, família e crianças. Na historiografia recente do cinema, já vi grandes histórias. Cito três: Lado a Lado, onde os filhos têm de lidar com a repentina notícia que sua mãe, que acaba de separar de seu pai, está com câncer terminal;  Óleo de Lorenzo que conta a luta verídica de uma mãe frente à doença terminal de seu filho; e Crianças Invisíveis, que traz a história de uma menina que contrai de seus pais o vírus da Aids.

Mas nada se compara com o filme Uma prova de amor (My Sister’s Keeper), de Nick Cassavetes, que acaba de ser lançado aqui no Brasil. O longa é envolvente, instigante e emocionante. Não há como ficar indiferente à narrativa que se passa na sala escura. Alguns poderão até dizer que a trama é piegas. Não concordo. O roteiro lida, sim, com um enredo que é, por si só, chocante: uma menina, cheia de vida, vítima de câncer (leucemia) e a luta incansável de sua mãe e família pela cura. Mas não é só isso. O filme traz à tona o quanto o ser humano, principalmente na figura materna, aliado hoje às tecnologias e aos avanços da medicina, tenta de todas as maneiras reverter o rumo da história.

Para tentar salvar Kate (a filha com leucemia), Sara (a mãe) resolve – por uma indicação médica – dar à luz a outra menina (Anna), geneticamente criada para salvar a irmã. Anna nasce e é ela que abre o filme, aos 11 anos, dizendo que ela foi, ao contrário de muitos outros nascimentos, planejada e projetada especificamente para um determinado fim: salvar Kate. De cara nos deparamos com um depoimento de uma criança que nos questiona sobre os seus direitos, sobre a sua vida, e sobre o amor de seus pais para com ela.

No desenrolar do filme, descobrimos que Anna, desde os cinco anos, é submetida a uma série de intervenções, inclusive cirúrgicas, para salvar a irmã. No tempo real da história, Anna está prestes a ter que doar um rim, já que o quadro de Kate se deteriora a cada dia. É neste contexto que surpreendentemente vemos Anna procurar um advogado para exigir seus direitos, algo totalmente possível de acontecer, vide os conselhos tutelares.

Ela diz que está cansada de ajudar a irmã. Que nunca – nem sua mãe nem seu pai – lhe pediram autorização para doar sangue, medula ou células. Que ela quer ter o direito de viver bem, sem efeitos colaterais que terá de enfrentar por ter que, agora, doar o rim para a irmã. Afinal, ela é uma criança. Uma criança de direitos.

O argumento de Anna, na sociedade contemporânea que vivemos, é extremamente cabível. Anna, com ajuda do advogado, requer a chamada emancipação médica. Por ser criança de direitos, ela não quer submeter o seu corpo às vontades de seus pais. Anna processa os pais. E, nós observadores, ficamos divididos e angustiados com o drama. Afinal, Anna está errada? Anna é egoísta? Qual é o lugar de Anna na vida de seus pais? Se seus pais defendem Kate, quem defende Anna? Seus pais são culpados?

O drama é construído por uma narrativa envolvente. A história é, na verdade, costurada a partir dos pontos de vista dos principais personagens: Anna, sua mãe Sara, a irmã Kate, o pai Brian e o irmão Jesse. Como observadores, vamos acompanhando como a doença de Kate influencia e transforma o cotidiano de toda aquela família. Somos levados para cenas emocionantes, como o romance de Kate por um outro jovem (Taylor) vítima de câncer, o livro que Kate elabora com as poucas e ricas histórias de sua vida, e o passeio da família à praia.

O processo movido por Anna mexe profundamente com a família. Seu pai Brian se emociona e repensa suas atitudes. Sua mãe, advogada que largou tudo para cuidar de Kate, não entende o desejo de sua filha Anna. Dividida, ela mesmo resolve se defender no tribunal.
A cena que se passa no tribunal é reveladora da cumplicidade dos irmãos – Anna, Kate e Jesse – do sentimento de amizade, de força, de carinho e de superação mesmo na dor. Nesta altura, a história construída cai por terra, mas não tem mais jeito: ela já alcançou seu objetivo.

As cenas que se seguem são de uma sensibilidade tamanha.

Não adianta, não somos super heróis, o que não quer dizer que não somos poderosos, maravilhosos e dignos. A atuação do trio – mãe e filhas – é fenomenal.