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Dante Em Foco: projeto completa seis anos e ganha estúdio móvel

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02maio

Por Marcus Tavares

Professores e alunos do Colégio Dante Alighieri, em São Paulo, estão bastante ansiosos. E não é para menos: no segundo semestre deste ano, um antigo ônibus escolar chegará à garagem da instituição novinho em folha. Mas em vez de bancos e estofados reformados o que se verá é um estúdio de gravação, com câmeras, computadores, equipamentos de áudio e ilha de edição. O sonho é antigo tanto quanto o trabalho da oficina Dante Em Foco, responsável pela ideia de transformar o veículo no já batizado Estúdio Móvel. “Vamos usá-lo para implementar ainda mais nossas atividades. Mas não é só isso: também queremos utilizá-lo para levar o trabalho que realizamos para outras realidades e escolas, inclusive públicas”, explica Valdenice Minatel, coordenadora de tecnologia educacional do colégio e responsável pelo projeto.

Criada em 2007, fruto de um interesse dos alunos em fazer a cobertura jornalística de um evento da própria escola, a oficina, aberta a qualquer aluno da instituição a partir dos 10 anos, tem o objetivo de despertar nas crianças e nos jovens o interesse pelo uso responsável e ético da comunicação, com ênfase no bom relacionamento e crescimento humano.

No dia a dia, os estudantes aprendem as técnicas da arte do jornalismo para produzir conteúdos em vários suportes. É uma gama de produção intensa, contínua e bem variada. Os alunos escrevem para a revista da instituição, postam materiais no blog, alimentam páginas nas redes sociais, realizam vídeos para a webTV e notícias para os informativos da escola. Ainda cobrem jornalisticamente as atividades escolares e dão apoio a outros projetos do colégio que envolvem os meios de comunicação.

Nível de excelência

Embora não tenham cartão de ponto, os focados, como são chamados, têm que demonstrar assiduidade, dedicação e muito empenho. O trabalho, com encontros presenciais uma vez por semana, também não estabelece nenhum vínculo com desempenho, participação e ou notas nas disciplinas do curso regular. Portanto, avisa Valdenice, só ficam os alunos que estão interessados: “Atualmente temos 57 alunos participando da oficina, que é dividida em dois grupos: a Dante Em Foco Mirim, que reúne os estudantes a partir do 5º ano que ficam até completarem 13 anos, e o grupo Dante Em Foco, que atende os estudantes que estão matriculados a partir do 8º ano do Ensino Fundamental à 2ª série do Ensino Médio. O foco não está na nota. O papel dos alunos e dos professores é outro. Queremos que cada um reconheça o seu potencial e se destaque pelo seu trabalho”.

Neste sentido, o nível que se exige de qualidade é elevado. A simples publicação de um texto, por exemplo, no blog da oficina só é feita depois que o material está muito bem planejado, desenvolvido e escrito, o que acaba sendo resultado de um processo contínuo de troca, diálogo e de construção, de idas e vindas, no qual se busca o melhor do aluno.

Boa parte dos textos que vem sendo produzida pelos estudantes, neste ano, tem como base as discussões que acontecem nos encontros. Desde o início das aulas, os alunos debatem as principais notícias veiculadas pela mídia. Dias antes da oficina, o grupo recebe recortes de jornais e revistas. Cada integrante tem que se preparar para opinar sobre determinado assunto, expondo seu ponto de vista. Um trabalho rico de aprendizagem, como aponta a professora Valdenice: “Para justificar seu posicionamento, o estudante tem que estudar, se aprofundar. Ao mesmo tempo tem que exercer o processo de escuta, de diálogo, de troca. Essa dinâmica dá a oportunidade de todos se expressarem, ampliando o conhecimento e o repertório, o que favorece a oralidade, a escrita e os relacionamentos”.

Projeto transformador

Beatriz Sabetta sabe muito bem como essa metodologia exerce transformações positivas. Ex-aluna do colégio, ela frequentou a oficina durante cinco anos. “E muitas lembranças que tenho da escola são justamente dos encontros. Era um espaço onde podíamos falar e expressar, sem medos ou receios. Um espaço em que nossas vozes e opiniões eram ouvidas. Eu era uma menina muito tímida que foi se transformando durante os cinco anos. Curtia muito todos os momentos, as discussões, as reflexões. Penso que toda a dinâmica me ajudou bastante, me influenciando até mesmo na escolha da profissão”.  Se tudo der certo, Beatriz vai ingressar no ano que vem na faculdade de comunicação. Qual carreira quer seguir? Advinha? Jornalismo.

Nenhuma surpresa para quem já trabalha no mercado e conhece o trabalho da escola. Que o diga o jornalista Gilberto Dimenstein, colunista do jornal Folha de S. Paulo. Ao conhecer o projeto, em 2009, ele propôs aos estudantes a criação de um espaço de divulgação de atividades culturais da cidade de São Paulo. Desafio proposto. Desafio cumprido. Com o apoio dos professores, os focados criaram o projeto Dante Catraca. Em um blog, divulgam a agenda cultural da região da Avenida Paulista e do seu entorno, exatamente onde fica localizado o colégio. Na lista, apenas as atividades gratuitas ou que atinjam, no máximo, o valor de R$ 10,00.

“O blog é alimentado com textos produzidos por alunos de 12 a 16 anos, com a supervisão de professores e de uma jornalista do nosso colégio. Criar nos jovens, como nós, o hábito de consumir produtos culturais, é hoje um desafio que pretendemos superar. Como sugere o nome do nosso projeto, queremos colocar em foco filmes, peças, shows e outras atividades culturais acessíveis não apenas para quem conhece e frequenta a região da Paulista, mas também para estudantes de todos os cantos da cidade de São Paulo. Esperamos que os nossos leitores aproveitem as dicas do blog”, convidam os estudantes na página da internet.

A ideia encantou tantas pessoas e se revelou um trabalho de política pública, no sentido da democratização da informação, que a oficina, em parceria com outras instituições, criou uma plataforma digital com o objetivo de disseminar a proposta do blog e de sua ação. Professores e alunos colocaram no papel todo o processo de implantação do Dante Catraca, passo a passo, para que outras escolas pudessem fazer o mesmo.

Para dar conta de tanta produção, o ritmo de trabalho é intenso. Às vezes, cansativo. De acordo com a professora Valdenice, não há fórmulas nem receitas. Tem horas que o projeto acerta e avança em metodologias e ações muito simples. Outras retrocede e exatamente quando se pensa que está no caminho certo. Soma-se a isto o desafio contínuo do relacionamento, da interação com as crianças e os jovens.

“Cobramos muitas vezes responsabilidades e compromissos que os estudantes somente experimentarão no futuro. Mas, se estamos pensando exatamente no futuro deles, como não agir desta forma? Não é uma tarefa fácil para a escola, para a equipe nem para os adolescentes. Mas acredito que é assim mesmo. É na adversidade que vamos nos fortalecendo. É uma escola tradicional que está olhando para o futuro, acolhendo a demanda desta nova geração”, explica a professora, que está terminando, inclusive o doutorado na área de tecnologia educacional, na PUC de São Paulo.

Os pais e responsáveis dão total apoio. Curtem e incentivam os filhos a participarem das atividades. Quem entra para o time é reconhecido por todos os profissionais e estudantes do colégio. Mas não por um suposto glamour de trabalhar com as mídias, como é comumente vivido e entendido no senso comum. O reconhecimento vem pelo trabalho sério e comprometido.

“Tive o privilégio de conhecer o projeto em 2011 e posso dizer que, com certeza, esta foi uma experiência que vou guardar para toda a minha vida. Nunca conheci pessoas com tanto talento e que se empenham muito no que fazem. A Dante Em Foco não é ‘mais uma’ oficina do colégio, é a realização bem-sucedida de um objetivo: mostrar que os jovens podem fazer a diferença, seja por meio de textos com análises críticas, de entrevistas bem elaboradas, de vídeos explicativos ou até mesmo pela maneira de expressar opiniões em público. A cada encontro ou cobertura de evento, eu aprendo um pouco mais com os focados”, conta Barbara Endo, jornalista que integra a equipe do projeto, ao lado da professora de tecnologia educacional Verônica Cannatá e do também jornalista, Felipe Guerra.

Todo o material produzido pelos estudantes fica à disposição no site do colégio. No entanto, só a comunidade escolar é que tem acesso. Valdenice conta que é uma forma de garantir a privacidade dos alunos. Porém, o trabalho desenvolvido para as redes sociais, como a página da oficina no Facebook,  o blog da oficina e o blog do projeto Dante Catraca estão acessíveis a qualquer público. Em 2011, a equipe do projeto ficou em 2º lugar no Prêmio Microsoft Educadores Inovadores – categoria Escola Particular, que reconhece projetos em centros de ensino que fazem uso da tecnologia na interação com os estudos.

“O prêmio não estimula somente a continuidade da oficina, mas também reconhece o trabalho árduo de todos aqueles que se empenharam na realização desse projeto. No Dante Em Foco coexistem talentos, expectativas, sonhos, desafios, possibilidades e a uníssona vontade de fazer a diferença por meio do jornalismo. Na Dante Em Foco, aprendemos a ser, a conviver e a aprender. Aprendendo desta maneira, vamos descobrindo que a escola é um lugar onde podemos deixar nossa primeira marca no mundo. Uma marca que traz a essência da comunicação pela qual nos fazemos mais humanos”, finaliza Valdenice.

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