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Midiaeducação

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02maio

Por Marcus Tavares

Em 2007, quando Roan Saraiva resolveu cursar o Ensino Médio na então recém-inaugurada Escola Técnica Estadual Cícero Dias – Núcleo Avançado em Educação (NAVE), localizada em Boa Viagem, Recife, ele não imaginava o quanto a discussão em torno da potencialidade das linguagens da mídia seria capaz de transformar sua vida e de seus amigos. De aluno, Roan foi selecionado, ao final do curso, para atuar como estagiário do Departamento de Midiaeducação (MDE) da instituição. E, neste ano, para coordenar as atividades.

“Foi e ainda é uma experiência fantástica. Cheguei à escola, que na época só oferecia o Ensino Médio [em 2009, a escola passou a oferecer o Ensino Médio Integrado, oferecendo os cursos de Programação de Jogos e Arte para Jogos], apenas com o objetivo de seguir carreira na área de contabilidade. Mas ao me envolver com as diferentes linguagens da comunicação, tanto do ponto de vista técnico quanto teórico, ampliei os meus conhecimentos, a visão de mundo. Hoje vejo o quanto isso é importante e decisivo de ser instigado, realizado e produzido na escola. Acho que me encontrei. Na verdade, penso que isso acontece com qualquer aluno. Independente do curso que ele queira seguir depois, esse trabalho/diálogo é o grande diferencial”, destaca Roan, que termina em dezembro deste ano o curso de graduação em Artes Visuais Digitais, oferecido pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

O diferencial do Departamento de Mídiaeducação da escola, do qual Roan se refere, está baseado, na verdade, no Projeto Político Pedagógico da instituição, calcado na chamada Educação Interdimensional, proposta pelo educador Antônio Carlos Gomes, que implica no desenvolvimento de ações educativas para além do cognitivo, abrangendo as dimensões relacionadas à corporeidade, à inteligência emocional e à busca de significado e sentido para a existência humana.

Por dentro do departamento

Nesta concepção de trabalho, o departamento, assim como toda a escola, visa promover, entre outros pontos, o protagonismo juvenil, o enculturamento digital, a educação para valores e um modelo de autogestão e cogestão, no qual o aluno participa das discussões e dos encaminhamentos do contexto escolar.

Na lista das atividades que o departamento oferece e promove na escola, estudantes e professores são co-autores num processo contínuo de construção do conhecimento, que vai desde o aprender a operar os equipamentos, como câmeras, computadores e softwares de edição até a discussão sobre a influência e o impacto dos meios de comunicação no dia a dia da escola e da vida dos estudantes.

“O MDE tem a função clássica, digamos assim, de dar suporte às atividades da escola que cada vez mais, no mundo midiático em que as crianças e os jovens vivem, necessita de tecnologias. Além disso, também cabe ao departamento cobrir os eventos e as ações das diversas disciplinas. Mas não nos limitamos a este trabalho, que é, sem dúvida, necessário e importante. Também usamos as linguagens da mídia, como o cinema e a animação, para refletir sobre o mundo e sobre nos mesmos. Para dar conta deste trabalho, o MDE promove sistematicamente oficinas para aprimorar o conhecimento técnico, crítico e teórico dos alunos”, conta Roan.

Fora dos muros da escola

Em 2011, a leitura de algumas obras, como Vidas Secas, de Graciliano Ramos, provocou um debate em torno das desigualdades sociais no Brasil. Um grupo de professores de História, Língua Portuguesa e do próprio departamento de Mídiaeducação, em conjunto com os alunos, lançou a seguinte questão: de que forma é possível alinhar a literatura às novas tecnologias e à inquietude crítica do jovem contemporâneo, trazendo à tona uma releitura reflexiva dos fatos sociais atuais? Da discussão surgiu o desejo de revisitar a migração dos nordestinos sertanejos para os grandes centros urbanos, suas dificuldades e desafios. Os alunos e professores decidiram produzir um vídeo gravado no Mercado São José, reconhecido como o mais antigo edifício pré-fabricado em ferro no Brasil e considerado um dos pontos turísticos da cidade que abriga dezenas de sertanejos comerciantes.

Com a câmera na mão e muita ideia na cabeça, os estudantes gravaram depoimentos e histórias ricas que sensibilizaram toda a escola, evidenciando a “vida severina” de pessoas que conseguiram ser resilientes. “Logo no início, o que mais me chamou minha atenção foi a ênfase nas palavras dos sertanejos entrevistados. As palavras eram as marcas da realidade vivenciada por eles, isto é, um passado castigado por seca, fome e carência. Entretanto, hoje eles deixam esse passado na lembrança, pois o homem se supera na arte, criando o novo, transformando em arte o que para muitos seria lixo. Os nordestinos ainda sofrem discriminação, descaso e abandono, mas são verdadeiros guerreiros na luta pela sobrevivência”, recorda a ex-aluna Manuela Katyeli.

Para o professor de história, José Agostinho da Silva Filho, que participou do projeto, os vídeos produzidos retratam a realidade de uma sociedade que vive em conflitos sociais, mas mostram também quem é possível fazer mudanças significativas se houver jovens críticos e solidários dispostos a serem éticos e políticos nas suas atitudes cotidianas. “A oportunidade de encontrar com pessoas que foram resilientes e conhecer suas histórias de vida contribuiu para sensibilizar e humanizar o educando”, afirma o professor.

A potencialidade da linguagem da mídia não é apreendida e usada apenas para pensar o mundo e o que está fora da escola, mas também para refletir sobre o próprio contexto escolar. Para Roan, este é outro diferencial do trabalho do MDE e, na verdade, o maior desafio que vem transformando a relação professor-aluno. Desde a implantação do departamento, há um incentivo e um estímulo para que estudantes e educadores sentem-se à mesma mesa para que, juntos, encontrem, por meio das tecnologias, soluções criativas para os chamados nós que eles se deparam no processo cotidiano de relacionamento e de ensino e aprendizagem.

Em 2010, por exemplo, os ex-alunos Maurício Taumaturgo de Oliveira, Tássio de Souza e Túlio de Souza, a partir do diálogo com o professor Luis Araújo, desenvolveram o projeto Dia a Dia Escolar, que tinha a função de melhorar a comunicação entre os pais e a escola, a partir da postagem de informações online, como notas e frequências, por meio, dos aparelhos celulares. Uma possibilidade concreta, viável e fácil de aproximar os pais do cotidiano dos seus filhos, propiciando o diálogo e reforçando a importância de os responsáveis serem co-responsáveis, com a escola, na educação dos adolescentes. Não foi à toa que o projeto conquistou o prêmio Revelação do Programa Microsoft Students to Business 2010 – etapa Região Metropolitana do Recife.

“Isto é um exemplo de como esta integração das tecnologias com o dia a dia da escola está presente. Presente na identificação dos nós de aprendizagem, nas dificuldades comunicativas, nos impasses cognitivos. A ideia é orientar, partilhar e dialogar com os educadores e educandos, pois quando se trabalha junto é mais fácil pensar numa solução”, avisa Roan.

Monitores de mídia

O trabalho vem amadurecendo tanto que neste ano, o departamento vai dar início ao curso de formação de monitores de mídia, cujos participantes terão a missão contínua de identificar, ao lado dos professores, os nós do universo escolar, pensando, buscando e realizando, a partir disso, soluções inovadoras que possam ser executadas pelas linguagens das diferentes mídias. A equipe será formada por 20 estudantes do 2º ano do ensino médio/técnico.

“É um trabalho integrado que se soma cada vez mais. Podemos observar isso no trabalho que estamos acabando de desenvolver, que envolve as disciplinas de Matemática e de Língua Portuguesa. O acompanhamento técnico realizado pelo MDE, conjugado com a criatividade e o diálogo de professores e alunos, está sendo relevante para a qualidade da produção dos 16 vídeos educativos sobre conceitos matemáticos, cujos roteiros foram preparados nas aulas de português”, destacaram os professores orientadores José Jordão e Rosângela Mendonça.

Quem conhece os meandros e os bastidores de uma escola sabe que todo o trabalho proposto e desenvolvido é cercado de desafios e de altos e baixos. O do MDE não é diferente. Roan explica que, hoje, os professores têm outro olhar da importância e da função do departamento, conquista reiterada a cada novo momento.

Trata-se de um espaço que cumpre uma função de suporte de tecnologia, mas que é reconhecida, mais e mais, como um espaço de interação, reflexão e constituição de conhecimentos e valores.

Uma vez por ano, a escola promove o evento Nave de Portas Abertas, que tem o objetivo de compartilhar as experiências da instituição e dar visibilidade aos projetos desenvolvidos por estudantes e professores, por exemplo a produção dos times de pesquisa, formados por educadores, que se debruçam sobre um determinado tema para discutir e ampliar os conhecimentos. Na edição de 2011, o time de pesquisa de midiaeducação convidou todas as escolas a reproduzir o projeto do MDE. No livro comemorativo ao evento, o time resumiu a importância de se trabalhar com as mídias em sala de aula:

“A presença das mídias no ambiente escolar é fato e, independentemente da diversidade midiática, o jovem não deve ser apenas consumidor compulsivo, mas tornar-se um jovem criativo e crítico dessas novas tecnologias, reconhecendo valores para sua formação cidadã. Reconhecemos a contribuição das mídias não apenas no processo de aprendizagem didática, mas principalmente na formação crítica, autônoma e solidária do jovem, oportunizando a educadores e educandos, entre outros fatores, uma interação democrática. Nas práticas pedagógicas, as mídias são agentes de socialização e possuem um papel educativo, contribuindo na formação moral, crítica e cognitiva do indivíduo. As mídias contribuem para que o jovem seja protagonista da sua história”.

Um comentário sobre... “Midiaeducação

  1. Que alegria acompanhar esse processo e ler aqui, nessa narrativa fluida e envolvente, a história desse percurso. Parabéns, Roan e parabéns Marcus.
    Dois homens sensíveis.
    Sil

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